"Para Onde Voam as Feiticeiras" (2020), de Elianne Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral - Divulgação

9º Olhar de Cinema: “Para Onde Voam as Feiticeiras”

 

“A rua pulsa”. É o que afirma Carla Caffé na apresentação do filme “Para Onde Voam as Feiticeiras” durante a transmissão no YouTube da cerimônia de abertura do 9º Olhar de Cinema, que começou ontem, dia 7, e vai até dia 15, com uma programação online. Carla estava sintetizando o que sua irmã, Eliane Caffé, comentou sobre a experiência do cinema na rua. Para Eliane, “essa experiência ensinou muito onde pulsa a matéria prima para se investigar outros jeitos de contar histórias”. As irmãs Caffé, ao lado de Beto Amaral, dirigem “Para Onde Voam as Feiticeiras”, documentário de título poético que tem, em sua essência e modo de produção, o pulsar vívido e complexo da coletividade e a força da performance como afirmação de existência, enfrentamento de violências e questionamento do status quo.

Ave Terrena Alves, Fernanda Ferreira Ailish, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Preta Ferreira, Thata Lopes e Wan Gomez formam o grupo LGBTQIA+ que nos é apresentado — e que fala diretamente conosco — enquanto eles performam discursos e intervenções artísticas no centro de São Paulo. Discutem criativamente sobre preconceito, homofobia, transfobia, machismo, racismo, dívida histórica, ancestralidade e o genocídio indígena. Fervilham as questões identitárias e as lutas dos movimentos sociais no Brasil contemporâneo.

Não só a quebra da quarta parede e toda a teatralidade convocam ao engajamento, mas também a montagem, os movimentos de câmera, enquadramentos e o som chamam para a  participação ativa do espectador e da espectadora porque são dinâmicos, ágeis, provocativos. Uma piscada e algo importante pode ser perdido, diante de tanta informação e imagens que rapidamente se transformam, ainda que em continuidade. Um cinema atento. Há detalhes dos corpos e expressões, da heterogeneidade e do caos de um centro urbano. Estar na rua é, ao mesmo tempo, estar visível e estar vulnerável. E, assim, o filme captura a polifonia e a imprevisibilidade, o perigo ou a aliança,  pois quem passa por aquele espaço ocupado pelo grupo às vezes são pessoas que demonstram apoio e às vezes são pessoas que atacam. Em alguns momentos o diálogo é possível, em outros a tensão se impõe. A opressão e a dor também estão nas imagens de arquivo, intercaladas às performances, que mostram registros de violência policial e contra indígenas que nos dão um nó na garganta.

Mesmo dentro do próprio grupo e da equipe de filmagem que não se “camufla”, os contrastes e conflitos são expostos. O que enriquece o debate sobre as complexidades das lutas e particularidades de cada vivência. E que questiona o poder até de quem filma, de quem faz cinema. Onde há divergência e onde há concordância? Como seguir juntos diante de processos pessoais e coletivos que se friccionam? O filme se move pela defesa da criação de vínculos e interação como forma de resistência e projeto político. Inclusive quando traz, em um vídeo, a filósofa Judith Butler argumentando que “não precisamos nos amar, uma aliança política não é o mesmo que amor”.

Anterior à pandemia, sendo um filme de coletivo em presença e movimento, contrasta com a experiência atual do distanciamento social. Mas contrasta de maneira positiva, nos lembrando da importância do encontro e da vontade de viver que não deveria ser negada à ninguém.

 

 

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