"Todos os Mortos" (2020) - Foto: Vitrine Filmes/Divulgação
"Todos os Mortos" (2020) - Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

“Todos os Mortos”: Um filme sobre o presente

Por Euller Felix, especial para o Cinematório

Uma sociedade, seja ela qual for, tem resquícios do seu passado. Afinal, qualquer país que seja tem uma história e tudo que há nele é sempre o resultado dessa história e das relações que o seu povo tem com ela. Evidentemente que não é diferente no Brasil: todo o nosso presente tem um pouco da nossa história e todos os lugares pelos quais passamos emanam um pouco os resquícios do passado.

“Todos os Mortos”, novo filme de Caetano Gotardo e Marco Dutra, escancara esse Brasil que tem muito do passado no seu presente. A história do filme se passa no final do século XIX, dez anos após o decreto que colocou fim à escravidão. Seguimos dois núcleos de personagens: o primeiro é composto pela família Soares, ex-proprietária de fazendas de café, formada pela matriarca Isabel (Thaia Perez) e suas duas filhas, Ana (Caroline Bianchi) e Maria (Clarisse Kiste), que é freira; o outro núcleo traz uma família que foi escravizada, Iná (Mawusi Tulani) e seu filho João (Agyei Augusto).

Os dois núcleos se interligam quando Ana quer que Iná faça um ritual para a sua mãe que está sofrendo com alguma doença que a faz ter muita dor nas costas. Para satisfazer os desejos da irmã, Maria vai até a cidade buscar Iná. Quando se encontram, Maria pede para que Iná vá até a sua casa e faça um ritual inventado, pois se ela fizer algo que seja verdadeiramente da sua religião, o fato de Maria estar envolvida significaria que ela estaria traindo a sua fé cristã. A princípio, Iná concorda com esses termos, mas, quando chega à casa dos Soares, decide que não pode trair a sua fé e faz um ritual verdadeiro da sua religião.

Percebemos que o ritual funciona por dois motivos: Isabel têm uma melhora momentânea, para de sentir dor nas costas e parece estar mais disposta. E Ana começa a ter visões das pessoas que foram escravizadas e morreram perambulando pela casa.

A melhora de Isabel pode também estar atrelada à presença do filho de Iná na casa, pois sempre que ele está por perto ela parece se encher de vida e felicidade, o que acaba ocasionando conflitos com Iná.

Aqui se evidencia o desrespeito que Ana têm pela cultura e religião do outro. Primeiro, por roubar objetos que pertencem a outras pessoas e outras religiões, e acreditar e reproduzir que todas as pessoas que foram escravizadas pertencem às mesmas culturas e seguem os mesmos preceitos religiosos. E também quando quer que o filho de Iná, o menino João, fique em sua casa somente pelo bem que ele faz a sua mãe, demonstrando que para ela aquela criança não passa de um objeto e que só existe para satisfazer as vontades da família. Isso parece ficar claro principalmente pelo olhares incomodados que ela lança para a criança sempre que ele está por perto.

Iná nunca deixa de lembrar o passado que viveu na família Soares. Afinal, diferente de João, que já nasceu livre, ela vivenciou o periodo de escravidão e sabe muito bem como ela e o filho são vistos pelos Soares e do que essa familía foi e é capaz de fazer com eles. Por isso ela tenta a todo momento se afastar e impedir de todos os jeitos que o seu filho se aproxime daquela família.

Algo a se destacar do filme é a escolha estética de Dutra e Gotardo para mostrar o quanto esse passado está presente nos dias de hoje. Há a provocação de estranheza, quando vemos, por exemplo, os personagens centrais encenando em lugares que possuem características dos dias atuais, como prédios enormes e pichações em muros. Todas essas escolhas e a forma como todo o filme é conduzido só reforça a ideia de que muitos dos problemas e preconceitos que existiam no final do século XIX ainda estão presentes no nosso tempo. E que todas as questões que envolvem o racismo estrutural ou permanecem intactas e com pouca perspectiva de mudança, ou se acumularam ainda mais com as dificuldades que enfrentamos enquanto sociedade hoje.

“Todos os Mortos” tem um caráter didático, discute assuntos importantes e relevantes de uma maneira fácil de se absorver, e é exatamente aí onde está a importância desse filme. Mesmo que ele represente acontecimentos de mais de cem anos atrás, é atual como poucos filmes são. O longa passou por diversos festivais, incluindo Berlim, Gramado e Mostra de São Paulo, e estreia nos cinemas brasileiros no dia 10 de dezembro de 2020. ■

Nota:

TODOS OS MORTOS (2020, Brasil). Direção: Caetano Gotardo, Marco Dutra; Roteiro: Caetano Gotardo, Marco Dutra; Produção: Maria Ionescu, Sara Silveira, Clément Duboin, Florence Cohen; Fotografia: Hélène Louvart; Montagem: Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Marco Dutra; Música: Salloma Salomão, Gui Braz, Garbato Bros.; Com: Mawusi Tulani, Clarissa Kiste, Carolina Bianchi, Thaia Perez, Agyei Augusto, Rogério Brito, Andrea Marquee, Leonor Silveira, Thomás Aquino, Luciano Chirolli, Teca Pereira, Vinícius Meloni, Eduardo Silva, Livia Silva, Tuna Dwek, Alaíde Costa e Gilda Nomacce; Estúdio/Produtora: Dezenove Som e Imagens, Good Fortune Films; Distribuição: Vitrine Filmes. 120 min

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