"Legado Explosivo" (Honest Thief, 2020), de Mark Williams - Foto: Imagem Filmes/Divulgação
"Legado Explosivo" (Honest Thief, 2020), de Mark Williams - Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Liam Neeson vive ladrão de boa índole em “Legado Explosivo”

A estreia de “Legado Explosivo” acontece em um momento em que os cinemas ainda enfrentam dificuldades devido à pandemia de Covid-19. Com os principais lançamentos adiados pelos grandes estúdios, a programação das salas que reabriram no segundo semestre de 2020 segue contando em sua maioria com produções de orçamento modesto e baixo risco. Em épocas anteriores, elas talvez até fossem lançadas diretamente em DVD ou, como acontece agora, no streaming.

É o caso deste longa de ação um tanto genérico, cujo título nacional não está exatamente incorreto (afinal, o protagonista é um especialista em bombas), mas, como é de hábito dos tradutores brasileiros, foi escolhido mais para remeter a filmes anteriores de sucesso da estrela principal. Só que mesmo apostando no talento e no carisma de Liam Neeson, “Legado Explosivo” não é um “Busca Implacável” (dirigido com vigor por Pierre Morel, pupilo de Luc Besson) ou menos ainda um “Desconhecido” (do autor vulgar Jaume Collet-Serra), dois dos filmes mais interessantes desta quase franquia pessoal de filmes de ação do ator. O que acontece é que, infelizmente como tudo em Hollywood, produtores pegam uma fórmula e a repetem à exaustão. E desde que Neeson decidiu trilhar o caminho do herói de ação sexagenário, aquele frescor renovado de uma década atrás se perdeu e ele vem se tornando um Steven Seagal indicado ao Oscar.

“Legado Explosivo” é o segundo longa-metragem dirigido por Mark Williams, criador da série “Ozark”. Seu filme de estreia foi “Um Homem de Família”, drama protagonizado por Gerard Butler em 2016. Williams também escreveu o roteiro, ao lado de Steve Allrich (de “Nos Braços do Crime” e “Família e Honra”, filmes “direto para vídeo” daqueles que mencionei acima). Ambos criaram para Neeson um personagem que corresponde ao perfil desses que o ator vem fazendo com recorrência: um aposentado colocado em meio a tiros, perseguições e explosões. Aqui ele é Tom Carter, um ex-militar, especialista em demolição, que ao longo dos anos se tornou um notório ladrão de bancos. Ele roubou um total de 9 milhões de dólares, nunca foi pego e também nunca gastou um centavo, pois lhe bastava se “sentir bem” roubando quem arruinou sua família. Disposto a mudar de vida após se apaixonar por Annie (papel de Kate Walsh, das séries “Grey’s Anatomy” e “13 Reasons Why”), funcionária do depósito onde ele esconde sua fortuna, Tom tenta se entregar ao FBI, mas acaba vendo dois agentes corruptos (Jai Courtney, de “Esquadrão Suicida”, e Anthony Ramos, de “Nasce uma Estrela”) pegarem o dinheiro e ameaçarem as vidas dele e de Annie.

“Eu irei procurar vocês, eu irei encontrar vocês e eu irei matar vocês”, Tom poderia muito bem dizer aos antagonistas. Mas “Legado Explosivo” é um filme bem mais contido que “Busca Implacável”, tanto no escopo da ação quanto na construção de sua trama. É um filme bastante ingênuo, na verdade. A começar pela premissa do ladrão de boa índole que quer negociar não só sua rendição como também a própria sentença. Chega a parecer um esquete do Porta dos Fundos, o diálogo por telefone que Tom tem com os investigadores interpretados por Robert Patrick (o eterno T-1000 de “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final”) e Jeffrey Donovan (de “Sicario” e da série “Burn Notice”), tentando convencê-los de que ele é o verdadeiro e famoso “ladrão-fantasma”, e não só mais um impostor que liga para passar um trote.

A ingenuidade perpassa todo o filme a partir de então, com situações forjadas à conveniência do roteiro para que as cenas de ação aconteçam, diálogos que tentam causar algum alívio cômico e até mesmo a presença de uma Lhasa Apso que um dos agentes do FBI carrega para cima e para baixo. Como se isso já não fosse fofo o bastante, Tom ainda rouba uma van de entrega de cupcakes em determinado momento e utiliza o veículo em fugas e perseguições. Contudo, o que é realmente notável nessa infantilização do longa é uma das cenas-chave – em que Tom revela a Annie seu passado e a verdade por trás de seus roubos – ser situada justamente em um playground. Não parece uma escolha casual, embora Williams também não pareça plenamente consciente do simbolismo daquela locação. De todo modo, o cenário é figurativo tanto no que tange a rememoração da infância, verbalizada pelo personagem, quanto para essa certa inocência das ações do protagonista em sua busca por redenção.

Com Williams se mostrando um diretor pouco inspirado e nada inventivo, “Legado Explosivo” bem tenta passar a impressão de ter um visual refinado com a fotografia de Shelly Johnson (frequente colaborador de Joe Johnston, em longas como “O Lobisomem”, “Capitão América: O Primeiro Vingador” e “Mar de Fogo”), mas o resultado é um filme de ação qualquer, que claramente se vale do nome de seu ator principal como chamariz de bilheteria. E ainda que seja piegas na ideia de seu protagonista ser, no fundo, um bom samaritano, que nunca matou e nem se aproveitou do dinheiro roubado, a história ao menos apresenta um senso de moral positivo. É algo a ser exaltado, ainda mais nesses tempos tão difíceis. ■

Nota:

LEGADO EXPLOSIVO (Honest Thief, 2020, EUA). Direção: Mark Williams; Roteiro: Mark Williams, Steve Allrich; Produção: Craig Chapman, Tai Duncan, Jonah Loop, Myles Nestel, Mark Williams; Fotografia: Shelly Johnson; Montagem: Michael Shawver; Música: Mark Isham; Com: Liam Neeson, Kate Walsh, Jai Courtney, Jeffrey Donovan, Anthony Ramos, Robert Patrick; Estúdio: Dreadnought Films; Distribuição: Imagem Filmes. 99 min