"Shiva Baby" (2020), de Emma Seligman - Divulgação
"Shiva Baby" (2020), de Emma Seligman - Divulgação

“Shiva Baby”: Amor com jeito de virada

Fazer uma comédia sobre sexo não é fácil em tempos de cultura do cancelamento. Esse tipo de humor imperou nos anos 1980, sobretudo no cinema estadunidense, e não são raros os filmes rejeitados atualmente (e com razão) por piadas machistas e desagradáveis. As mulheres raramente tinham a chance de fazer comédias com seu ponto de vista sobre o tema e um interessante exemplo é o pouco lembrado “Sexo Casual?” (1988), da diretora Geneviève Robert, com Lea Thompson e Victoria Jackson, recentemente adicionado ao catálogo da Netflix.

Disponível na MUBI, “Shiva Baby” fala sobre sexo e também sobre religião – no caso, o judaísmo. A premissa do filme, aliás, poderia perfeitamente ser a de uma piada de judeu: Danielle, uma universitária, vai à shivá de alguém da família e lá se depara com seu sugar daddy. Ela descobre que ele é um conhecido de seus pais, que não fazem ideia de que a filha é bancada pelo sujeito.

É dessa maneira inusitada que o filme aproxima dois termos tão distantes no tempo e em seus conceitos: “shivá”, uma tradicional cerimônia judaica pós-luto, e “sugar baby”, que se refere a pessoas, geralmente jovens, que vivem relacionamentos pagos. Mas nesse encontro promovido pelo filme, os verbetes se assemelham em um sentimento de indefinição e estranhamento: enquanto o ritual mais parece uma festa de aniversário, dada a quantidade de gente conversando e comendo, a relação sugar vivida por Danielle fica entre a utilidade de pagar as contas e a vontade de se apaixonar para valer.

A ideia da diretora e roteirista Emma Seligman surgiu na forma de um curta realizado por ela em 2018. Na ocasião, a cineasta canadense já contava com a atriz e comediante Rachel Sennott, com quem retomou a parceria para o longa de 2020.

Pense em um encontro entre “Fleabag” e “Seinfeld”. Enquanto do último reconhecemos a comédia de erros do cotidiano, das histórias que poderiam ter acontecido com um parente ou amigo (além, claro, do humor judeu), da primeira encontramos em “Shiva Baby” a perspectiva feminista sobre as relações amorosas e sexuais da protagonista (além, claro, do humor insólito).

Assim, mesmo que o curta seja uma obra já muito bem resolvida, Seligman o expande no longa com novas situações e uma nova personagem que adiciona um tempero extra ao conflito de Danielle: a ex-namorada Maya (papel de Molly Gordon), com quem ela claramente deixou assuntos mal resolvidos.

Danielle se vê então no topo de um triângulo amoroso virtual com Maya e Max, o sugar daddy (vivido por Danny Deferrari), e ainda tem que equilibrar mais um prato ao descobrir ser parte de um segundo triângulo, já que Max também escondia sua vida particular dela.

O roteiro é eficaz ao apresentar essas viradas de maneira muito orgânica ao acompanhar os passos de Danielle praticamente em tempo real. Assim, nós nos surpreendemos e nos afligimos junto com ela a cada revelação e a cada pessoa com quem ela se depara e precisa gastar o papo social, tendo coisas muito mais importantes com o que se preocupar naquele momento.

"Shiva Baby" (2020), de Emma Seligman - Divulgação
“Shiva Baby” (2020), de Emma Seligman – Divulgação

Desde já, Seligman é uma cineasta para acompanharmos de perto. Da mesma forma como parte da premissa simples para desdobrar o enredo, ela constrói, ao lado da fotógrafa Maria Rusche, uma unidade estética por meio de uma micronarrativa que se passa quase que inteiramente em uma única locação.

Como é comum de acontecer nesse tipo de filme de um só cenário, o minimalismo exigido na condução da câmera depende do ritmo preciso da montagem (aqui, assinada por Hanna Park) para funcionar. E Seligman não só é bem-sucedida no equilíbrio dessas duas instâncias, como ainda consegue transferir, para o lado de cá da tela, a sensação de perigo vivida por sua protagonista enquanto ela transita pela casa lotada, sempre a um passo de ver sua vida secreta ser descoberta.

Os cortes são guiados pelos olhares de Danielle. Daí o espectador assumir o ponto de vista da personagem também nos planos de detalhe e nos closes durante as cenas de conversa. É uma estratégia que colabora para fazer a tensão crescer, além de possibilitar em nós a empatia e permitir que haja humor mesmo em situações de constrangimento.

Muito disso também está na atuação de Sennott, em particular naquele olhar de canto de olho que Seligman frequentemente captura. Danielle está em uma conversa e seu olhar desvia do interlocutor para alguém ou algo fora do quadro. Você se pergunta ao ver a expressão dela: o que será desta vez?

"Shiva Baby" (2020), de Emma Seligman - Divulgação
“Shiva Baby” (2020), de Emma Seligman – Divulgação

Não deveria ser surpreendente que, dessa forma, o filme também acabe funcionando perfeitamente como um thriller. Afinal, o riso em uma comédia e o susto em um filme de horror precisam de timing para acontecer. Ou seja, é a sensibilidade da direção que encontrará o momento certo de alcançar determinado efeito. E não faltam exemplos de cineastas que se dão bem nos dois gêneros, de Joe Dante a Jordan Peele.

No caso de “Shiva Baby”, também podemos pensar no terror como esse mistério chamado vida adulta, proposto por Seligman em uma espécie de releitura de “A Primeira Noite de um Homem” (1967). E nesse sentido o choro do bebê naquele espaço fechado é um elemento incrivelmente perturbador, não apenas pelo incômodo sonoro e emotivo que provoca, mas por evocar sentimentos conflitantes em Danielle. Para além da representação literal do título do filme, o bebê é uma lembrança da fragilidade das expectativas que constroem e construímos para nossas vidas. E Danielle parece se reconhecer ali tanto na criança quanto na mãe – este, um papel que ela percebe que eventualmente se veria confrontada a desempenhar num relacionamento com Max.

Como se já não houvesse preocupações suficientes, há ainda a tensão sexual entre Danielle e Maya. E é ótimo que o filme apresente uma personagem bissexual cuja orientação não é a questão central, nem com quem ela ficará no final. O filme se ocupa é do infortúnio de ver os pais quererem decidir não só o futuro, mas por quem ela sente tesão – e ainda por cima na frente dos outros. Esse desconforto é particularmente evidente por Danielle já não ser mais nenhuma adolescente (e nós sabemos muito bem disso, desde o início), mas ainda ter laços firmes com os pais, ao ponto de não se permitir simplesmente ir embora daquele lugar por conta própria.

A sensação de assistir a “Shiva Baby” e estar com Danielle naquela casa, com tanta gente entrando e saindo, pode remeter ainda à experiência claustrofóbica e algo alucinante de “mãe!”, obviamente sem as metáforas religiosas e os arroubos estéticos de Darren Aronofsky. Teríamos aí uma sessão dupla interessante. Fato é que, em tempos de notícias tão difíceis de acompanhar em todo canto, o filme de Emma Seligman importa por representar a busca por um alívio necessário em meio ao caos. ■

Nota:

SHIVA BABY (2020, Canadá, EUA). Direção: Emma Seligman; Roteiro: Emma Seligman; Produção: Kieran Altmann, Katie Schiller, Lizzie Shapiro; Fotografia: Maria Rusche; Montagem: Hanna Park; Música: Ariel Marx; Com: Rachel Sennott, Danny Deferrari, Molly Gordon, Fred Melamed, Polly Draper, Glynis Bell; Estúdio: Neon Heart Productions; Distribuição: MUBI. 77 min

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