"Tempo" (Old, 2021), de M. Night Shyamalan - Foto: Universal Pictures/Divulgação
"Tempo" (Old, 2021), de M. Night Shyamalan - Foto: Universal Pictures/Divulgação

Em “Tempo”, Shyamalan reflete sobre o terror de ver a vida escorrer por entre os dedos

Envelhecer assusta. Não apenas no sentido de “ficar velho” — simplesmente não se dar conta da passagem do tempo é um fenômeno recorrente na nossa sociedade urbana e consumista, e pode pegar de sobressalto qualquer pessoa que não tenha contato frequente com familiares ou amigos. Dois, quatro, sete anos e… Bum! Parece que foi ontem.

Em “Tempo”, M. Night Shyamalan constrói um thriller a partir do ponto de vista de um cineasta com três décadas de carreira e 50 anos de vida recém-completados, pai de três filhas. Duas delas já adultas e, agora, suas parceiras de trabalho: Ishana Shyamalan, que inicia a carreira no cinema como diretora de segunda unidade do longa, e Saleka, cantora e compositora cuja voz pode ser ouvida na música “Remain”, durante os créditos finais.

É esse Shyamalan que narra “Tempo”, um filme que, como outros em sua filmografia, é fortemente inspirado na série de TV “Além da Imaginação”. Por outro lado, trata-se de um raro exemplar de roteiro dele adaptado de outro material, no caso, a graphic novel “Castelo de Areia”, de Pierre Oscar Levy e Frederik Peeters. Assim como na HQ, ele trabalha com uma trama cuja premissa fantástica envolve uma praia paradisíaca que guarda um mistério mortal: quem a frequenta envelhece muito rapidamente. Décadas se passam em horas e toda uma vida pode não durar mais do que um dia.

Para evitar spoilers, é melhor não ir além dessa descrição do enredo. É interessante notar, no entanto, como a participação de Shyamalan como ator se dá desta vez. Aliás, não só desta vez, mas, ao longo da carreira, os personagens vividos pelo cineasta deixaram de ser reduzidos a meras pontas e se tornaram funcionais para a compreensão do que ele quer nos dizer.

Em “Tempo”, Shyamalan se revela para a câmera como o motorista da van que leva os turistas de um resort tropical para a praia em que eles se veem diante da morte iminente. Ele é o condutor, literalmente, portanto. Mais adiante, porém, seu papel se revelará outro, mas ainda podemos fazer uma ligação metalinguística e hitchcockiana entre o Shyamalan personagem e o Shyamalan narrador. Um mea culpa, talvez, por ele se sentir de algum modo negligente com o seu próprio modo de ver o tempo passar?

Talvez. Fato é que, como uma criança com seu balde de brinquedos na areia, Shyamalan dirige o filme com suas ferramentas habituais e, claro, não poderia faltar o plot twist, já assumido por ele como marca autoral. Aqui, a virada final, ainda que convincente, é a parte menos interessante do roteiro, pois, diferente do que ocorre em filmes como “A Vila” e “Corpo Fechado”, por exemplo, a revelação parece uma necessidade de dar uma resposta ao espectador sobre o mistério que ele acompanhava.

A reviravolta é relevante e atual, ainda mais no contexto da pandemia de Covid-19, mas ela não traz informações que contribuam para o significado do filme construído em seu subtexto. E é justamente nessa camada abaixo da trama de suspense que os filmes de Shyamalan se destacam. O que fica deles nunca são só os sustos e as surpresas. Embora, na superfície, “Tempo” seja eficaz como essa história fantástica e funcione bem como um thriller psicológico em que o mal é invisível (vide “Fim dos Tempos”), o que mais interessa ao longa é nos fazer pensar sobre a nossa visão de mundo construída no decorrer da vida. Como você se relaciona com o seu companheiro ou sua companheira? Com seus filhos? Com seus pais? Com o seu próprio corpo?

"Tempo" (Old, 2021), de M. Night Shyamalan - Foto: Universal Pictures/Divulgação
“Tempo” (Old, 2021), de M. Night Shyamalan – Foto: Universal Pictures/Divulgação

Tal qual a areia da praia na palma da mão, a vida pode escorrer por entre os dedos. E tal qual a areia que a atravessa a ampulheta, ela apenas parece passar devagar. Enquanto estamos presos com aquele grupo de pessoas na praia, várias questões surgem e funcionam como personagens elas mesmas, todas vitimadas pela aceleração do tempo. Há, por exemplo, o pavor do envelhecimento físico e da deformação do corpo, representado no culto à beleza. Ou a morte que brota de dentro por meio do crescimento desordenado (que leva a um câncer) ou da degeneração das células (resultando em demência). E mesmo a visão e a audição que naturalmente se deterioram aqui encontram uma simbologia no casal que tem dificuldade de se comunicar em uma relação desgastada. Aliás, casal esse formado por uma museóloga (que lida rotineiramente com o passado) e um analista de riscos para seguros de vida (ou seja, trabalha com probabilidades futuras).

É neste palco que Shyamalan trabalha numa chave metafísica do body horror e “Tempo” se revela como o filme mais conceitual e poético do diretor. Um em que ele parece expandir o que havia ensaiado em “Vidro”: como numa peça de teatro, dispõe os papéis naquele único cenário e a narrativa flui no espaço. A referência cinematográfica imediata é “O Anjo Exterminador”, de Luis Buñuel, inclusive assumida publicamente por Shyamalan como uma de suas inspirações. Nesse filme, as personagens também não conseguem sair do local onde estão presas. Mas, no aspecto sensorial, o filme também pode remeter a obras como “Um Barco e Nove Destinos”, de Alfred Hitchcock, “A Bruma Assassina”, de John Carpenter, ou “Através de um Espelho”, de Ingmar Bergman. Longas em que o aprisionamento catalisa reflexões e introspecções.

Novamente ao lado do diretor de fotografia Michael Gioulakis (com quem colaborou em “Fragmentado”, “Vidro” e na série “Servant”), Shyamalan não se furta de construir enquadramentos simbólicos, como aquele em que a câmera é posicionada no chão e nos mostra os personagens assustados ao fundo do plano, “presos” entre os ossos das costelas de um esqueleto. O corpo é uma jaula.

"Tempo" (Old, 2021), de M. Night Shyamalan - Foto: Universal Pictures/Divulgação
“Tempo” (Old, 2021), de M. Night Shyamalan – Foto: Universal Pictures/Divulgação

A opção pelo uso de planos-sequências também é um aspecto estético e narrativo interessante, pois a ausência do corte reforça a noção da duração do tempo em que personagens veem seus corpos envelhecerem. Curioso pensar ainda que, dentro da lógica da história, as elipses representam saltos temporais muito maiores para os personagens. Entre os cortes de cada cena durante o avançar da trama, nós “perdemos” vários anos que aquelas pessoas avançaram.

Os elegantes planos em travelling, característicos do estilo de Shyamalan, também se destacam, construindo o suspense sobre o que fica fora do quadro, no ir e vir da câmera. Mas o que talvez mais chame a atenção neste filme são as opções esteticamente estranhas que Shyamalan faz em alguns planos na praia, deixando atores com metade do rosto ou do corpo fora do quadro. É como se ele buscasse causar um incômodo visual ligado ao estranhamento vivenciado pelos personagens, mas pode ser algo além disso, no sentido de esse campo limitado representar uma compreensão plena do mistério (da vida) que foge às pessoas na tela e fora dela.

Na era em que Hollywood abraça o de-ageing (rejuvenescimento por computação gráfica) de seus astros, Shyamalan vai na direção contrária e faz um filme sobre o envelhecimento acelerado. E ainda traz à tona temas como os perigos da vigilância online (que leva os hóspedes a “descobrirem” o resort na internet), o racismo que é uma chaga social tão atual quanto histórica, e a própria confusão temporal provocada pela pandemia em nossa percepção sobre o passar dos dias. E, mais do que nunca, ainda temos que conviver com a ideia de que somos cobaias nas mãos de quem se interessa em lucrar ao custo das nossas vidas. Sim, o mundo está cheio de mecanismos para encurtar nosso tempo restante. “Devemos continuar tentando?”, uma das personagens sobreviventes pergunta a outra. É um questionamento simples. Mas, também, devastador. ■

Nota:

TEMPO (Old, 2021, EUA). Direção: M. Night Shyamalan; Roteiro: M. Night Shyamalan (baseado na graphic novel “Castelo de Areia”, de Pierre Oscar Levy e Frederik Peeters); Produção: M. Night Shyamalan, Marc Bienstock, Ashwin Rajan; Fotografia: Michael Gioulakis; Montagem: Brett M. Reed; Música: Trevor Gureckis; Com: Gael García Bernal, Vicky Krieps, Rufus Sewell, Alex Wolff, Thomasin McKenzie, Abbey Lee, Nikki Amuka-Bird, Ken Leung, Eliza Scanlen, Aaron Pierre, Embeth Davidtz, Emun Elliott; Estúdio: Perfect World Pictures, Blinding Edge Pictures; Distribuição: Universal Pictures. 108 min

Tempo Shyamalan

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