"Flee" (2021), de Jonas Poher Rasmussen - Divulgação
"Flee" (2021), de Jonas Poher Rasmussen - Divulgação

“Flee”: um conto brutalmente realista e sombrio sobre sair do armário

Vencedor do Festival de Annecy e indicado a três estatuetas no Oscar 2022, “Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Lar” é um filme cuja principal característica é provavelmente sua multiplicidade. É um documentário. É uma animação. É um relato em primeira pessoa quase como uma sessão de terapia. É um retrato angustiante e honesto do que significa ser um refugiado. É também sobre como não apenas o cinema, mas a arte em geral – música, contar histórias, novela – pode nos ajudar a encontrar sentido na vida quando a realidade não parece fazer sentido. E é uma história de saída do armário ao mesmo tempo brutal e doce.

E o que torna o filme do diretor dinamarquês Jonas Poher Rasmussen tão brilhante é como o cinema – todas as ferramentas e recursos fornecidos por sua linguagem – é a única maneira de dar vida a cada uma dessas camadas. Em seu documentário, nenhuma escolha narrativa ou estética é feita por acaso: cada elemento e técnica tem um propósito, que não é apenas apresentar a história do protagonista na tela, mas mergulhar o espectador em sua jornada física e, principalmente, emocional.

“Flee” segue Amin, desde sua infância em Cabul durante o início dos anos 1980, a fuga de sua família para a Rússia durante a guerra EUA-URSS e seus anos desoladores no início dos anos 1990 em Moscou, esperando por uma chance de imigrar para a Europa Ocidental e se reunir com seu irmão mais velho. Ironicamente, sabemos que o protagonista vai conseguir de alguma forma, já que é ele quem conta a Rasmussen sua história no presente, em Copenhague. No entanto, o que importa na jornada de Amin não é o seu fim, mas todos os detalhes horríveis e brutais de como ele chegou onde está hoje.

Retratar na tela toda essa violência absurda, quase inacreditável, é o que torna a escolha da animação tão fundamental para o filme. Ela não é apenas a única maneira de recriar a odisseia de Amin de maneira respeitosa e fiel: com suas diferentes texturas, indo do pictórico ao mais abstrato, a animação também é usada para representar os mecanismos mercuriais e vacilantes da memória e do trauma. E com suas possibilidades quase infinitas, também permite tomadas de significado único, como o momento em que Amin e sua família, à deriva em um barco muito pequeno tentando cruzar para a Suécia, deparam-se com um enorme navio norueguês que apenas olha para o lado e se recusa a ajudá-los. O grande contraste de tamanho entre as duas embarcações funciona como uma síntese perfeita da relação entre Europa/Ocidente e refugiados não apenas naquele momento, mas ainda hoje.

Ao mesmo tempo, Rasmussen intercala a narrativa com imagens documentais esparsas, em live-action, lembrando ao espectador que, apesar do quão inacreditável aquela história possa parecer, ela é toda baseada em um relato real. E essa justaposição entre realidade e imaginação, documentário e animação, vida e arte, é o eixo central da perspectiva única de “Flee” sobre a história de vida de Amin. Não é por acaso que, desde o início do filme, o protagonista está sempre ouvindo música (A-ha, Roxette), sonhando com um Jean-Claude Van Damme seminu ou assistindo a uma novela mexicana com sua família na Rússia. Em meio ao caos e tragédia inimagináveis que dominaram grande parte de sua vida, a arte sempre foi um refúgio, uma fuga – um lugar para onde ele pudesse escapar. Porque não importa o quão ruim as coisas possam estar, enquanto permanecermos capazes de imaginar, sonhar, conceber um futuro melhor, significa que ainda não estamos mortos.

É na capacidade de Amin de – sempre – escapar, e no talento de Rasmussen em usar o cinema para criar um espaço em que essa jornada finalmente faça sentido, para transformar seu filme em mais um abrigo para seu personagem, que “Flee” também se torna um filme essencialmente queer. Essa necessidade de fugir, de usar a arte, o cinema, a música, a TV, os livros, como um refúgio quase mágico da opressão e da intolerância ao redor, é comum à maioria dos sujeitos queer – gays, lésbicas, trans. No caso de Amin, isso não é diferente – apenas mais extremo e violento. Quando ele se depara, já no terço final do filme, com a imposição de tomar uma decisão dolorosa e inimaginável em relação ao seu futuro e à sua família, que o marcará para o resto da vida, “Flee” revela-se, em última análise, uma fábula sobre o aspecto mais brutal de sair do armário: a necessidade de negar e extinguir toda sua existência até aquele ponto, dando origem a uma nova identidade, como única forma de sobrevivência. Como eu disse: universal para todas as pessoas queer, específico para a história de vida única de Amin e sua excepcional recriação cinematográfica por Rasmussen. ■

Nota:

 

FLEE – NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR (Flugt, 2021, Dinamarca, França, Noruega). Direção: Jonas Poher Rasmussen; Roteiro: Jonas Poher Rasmussen, Amin Nawabi; Produção: Monica Hellstrøm, Signe Byrge Sørensen, Charlotte De La Gournerie; Direção de Animação: Kenneth Ladekjær; Montagem: Janus Billeskov Jansen; Música: Uno Helmersson; Com: Sofia Buenaventura, Julián Giraldo, Karen Quintero, Laura Castrillón, Moises Arías, Sneider Castro, Julianne Nicholson; Distribuição: Diamond Films. 89 min

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