"Stillwater - Em Busca da Verdade" (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy - Foto: Universal Pictures/Divulgação
Foto: Universal Pictures/Divulgação

“Stillwater” surpreende como filme de investigação revisionista

Estreando na edição de 2021 do Festival de Cannes, fora da competição pela Palma de Ouro, “Stillwater — Em Busca da Verdade”, dirigido por Tom McCarthy, do premiado “Spotlight: Segredos Revelados” (2015), parece à primeira vista que vai seguir aquela cartilha clássica de filmes de ação: um homem durão precisa salvar alguém da família e passa por inúmeros obstáculos para conseguir, mas acaba provando, ao final da história, sua resistência e heroísmo. Quando vi o título, o trailer e li a sinopse do longa, logo pensei em filmes como “Duro de Matar” (1988), de John McTiernan, e “Busca Implacável” (2008), de Pierre Morel, sem falar em vários outros dos quais meu pai é um fã incondicional e um apreciador assíduo.

Mas em “Stillwater” já começamos de um ponto diferente. Diferentemente dos outros títulos mencionados, no filme estrelado por Matt Damon o início marca não a apresentação grandiosa e promissora do protagonista, mas uma falência consolidada de alguém que precisa se encontrar. Não por acaso, os primeiros planos do filme mostram uma área residencial completamente destruída por um tornado. E o diálogo dos trabalhadores latinos que atuam na limpeza do local dão o tom das próximas duas horas. Quando um deles pergunta o que acontece com a cidade depois que os escombros são retirados, o outro diz que eles [os moradores] a reconstroem. De certo modo, é isto o que veremos acontecer na vida de Bill Baker. Ela está em escombros, e será paulatinamente reconstruída. Mas, assim, como a cidade refeita após o tornado tem a marca daquele evento traumático, Bill não sairá incólume à experiência. Tanto que a última frase dita por ele é que mal reconhece a realidade à sua volta, muito embora possivelmente o ambiente esteja muito parecido com o que era anos antes. E como era essa vida dele antes do tornado?

Bill trabalhava como operário em plataformas de petróleo na cidade que dá nome ao filme, mas foi demitido depois que a companhia largou o negócio e os funcionários continuaram insistindo nas perfurações. Sua filha, Allison, estudava na Universidade Estadual de Oklahoma, mas de repente quis continuar a faculdade em Marselha, na França. Lá, ela conheceu Lina, uma garota árabe estudando na mesma universidade. As duas tinham uma relação tempestuosa, cujo fim trágico selou o destino de Allison na prisão por nove anos. O enredo começa no ponto em que a jovem já cumpriu cinco anos da pena e seu pai vai mais uma vez visitá-la cruzando o Atlântico. Exatamente quando ela descobre uma possível evidência que pode provar sua inocência.



"Stillwater - Em Busca da Verdade" (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy - Foto: Universal Pictures/Divulgação
“Stillwater – Em Busca da Verdade” (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy – Foto: Universal Pictures/Divulgação

Mas, na realidade, os detalhes do crime envolvendo Allison e Lina não parecem importar tanto. Eles são contados paulatinamente, e não há muitos pormenores. Tanto que o personagem-chave para toda esta intriga, Akim (um rapaz também de origem árabe que é apontado como o verdadeiro assassino) aparece e sai da história de maneira absolutamente abrupta, sendo encontrado por Bill por coincidência duas vezes. A mensagem fica clara: nada disso realmente faz diferença. Hitchcock talvez diria tratar-se de um MacGuffin, algo que move a história para frente, mas que não tem relevância por si mesmo. Para o que o filme se propõe, as circunstâncias e a gravidade do crime poderiam ser quaisquer outras.

“Stillwater” parece querer falar sobre um estado de coisas. O tema do filme parece ser a desesperança, a resignação. Isso fica claro em duas falas. Em uma conversa entre Virginie, a atriz francesa da qual Bill se aproxima, e Allison, a garota fala para a mulher não ter muitas expectativas com o americano, pois ele é e sempre foi, segundo ela, “um fodido”. Ela diz que isto “está nele”, e quando Virginie não responde, complementa: “Eu sei porque está em mim também”. Bem antes, no início do longa, a advogada de Allison, Maître Leparq, adverte Bill: “Há um tempo para a esperança e há um tempo para aceitação”.

Enquanto assistia à obra de McCarthy, estes e mais momentos me remetiam constantemente a dois outros filmes, bastante diferentes entre si, mas que carregam a mesma melancolia conformada que aqui aparece com um verniz de filme de ação e investigação criminal. Estou falando de “Corrente do Mal” (2014), de David Robert Mitchell, e “Nomadland” (2020), de Chloé Zhao. Não que “Stillwater” guarde a mesma atmosfera de terror enervante que o longa de Mitchell (essa nem é a proposta) ou a lentidão contemplativa da obra indescritível de Zhao. Mas os três filmes compartilham uma mesma sensação, quase tangível, de perda, de deslocamento, e de uma eterna finitude que anuncia sua chegada apenas com o vazio.

Isso fica latente na montagem do filme de McCarthy, novamente trabalhando com o editor Tom McArdle. São inúmeros os planos que estão inseridos em meio às cenas não por uma necessidade narrativa, mas para estabelecer a imensidão inclemente do mundo diante daqueles personagens, pequenos e intermitentes. Planos gerais de paisagens cortadas pelos personagens em movimento, enquadramentos que mostram o ponto de vista dos personagens acompanhando o espaço em torno deles ou planos que mostram aquelas pessoas interagindo com o ambiente. Pedaços da vida dos personagens que poderiam ter sido jogados fora caso a pretensão fosse apenas narrar uma sequência de eventos, mas que com certeza deixariam o filme e as pessoas que habitam naquele universo menos verdadeiros e intensos.

"Stillwater - Em Busca da Verdade" (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy - Foto: Universal Pictures/Divulgação
“Stillwater – Em Busca da Verdade” (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy – Foto: Universal Pictures/Divulgação

E, por falar em planos e enquadramentos, a fotografia do filme, assinada por Masanobu Takayanagi (que já havia trabalhado com McCarthy em “Spotlight”), consegue ser elegante e funcional na medida certa. Variando entre uma paleta de cores mais frias, mas sem dispensar o uso de cores quentes (principalmente em cenas noturnas), a cinematografia consegue conciliar uma visualidade mais lavada (isto é, sem grande nível de saturação) com instantes de iluminação que lembram os momentos do nascer e do pôr-do-sol.

Há especificamente dois planos lindíssimos, merecedores de destaque. Um é registrado no momento em que Allison, após cinco anos presa, tem um dia para voltar ao mundo exterior e vai com o pai a uma enseada. Em um plano subaquático, vemos quase apenas a silhueta da menina, que nada livremente após anos de aprisionamento. Em outro, bem almodovariano, temos um close-up no rosto de Virginie enquanto ela entrega suas falas em uma peça que está ensaiando. O que ela diz? “Não há verdade. Apenas histórias para contar”. A iluminação teatral, o fundo monocromático, o foco no rosto, tudo isso nos impele a prestar atenção naquelas sentenças. Em última instância, o que ela fala é algo que no final do filme fará sentido, quando descobrirmos (e reafirmo) que o mais importante aqui é o drama a ser desenvolvido, e não a descoberta de uma verdade após horas de ação e investigação.

Aliás, quem carrega este drama nas costas é Matt Damon. Em uma atuação que me lembrou muito a quietude inocente de Jesse Plemons em “Ataque dos Cães” (2021), de Jane Campion, o ator consegue convencer completamente que aquele se trata de um homem pobre e desgastado física e emocionalmente, que teve uma vida difícil e leva consigo todas as agruras pelas quais já passou. Até mesmo a manutenção de um registro vocal anasalado e quase sussurrado em algumas horas coopera para a construção do personagem. Ele é ao mesmo tempo delicado e rude, sensível e forte, e tem um senso de moral que transita entre lugares bastante divergentes. Só para constar, ele mente, agride, sequestra, mantém em cárcere e em certos momentos age de forma extremamente individualista, marcando uma característica comumente associada à cultura estadunidense (isso inclusive é verbalizado a certa altura pela personagem Virginie num dos pontos altos do filme, que comento mais a frente).

Abigail Breslin (“Pequena Miss Sunshine”) e Camille Cottin (“O Mistério de Henri Pick”) também estão muito bem. A primeira consegue nos fazer odiá-la por seu egoísmo e logo depois empatizar com suas questões, que são sutilmente apresentadas ao longo da produção, como na conversa casual entre Bill e Virginie em que ele conta casualmente que a mãe da menina se suicidou. Já a atriz francesa, assim como o personagem de Damon, parece uma pessoa real, com sua própria vida, seus anseios e seu arco, saindo de uma artista em início de carreira que coloca seus interesses em primeiro lugar (ela se nega a abaixar o som que está incomodando Bill) para uma profissional em ascensão que não se furta de cortar o laço com um homem com o qual tinha uma relação porque ele colocou a filha dela em perigo.

"Stillwater - Em Busca da Verdade" (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy - Foto: Universal Pictures/Divulgação
“Stillwater – Em Busca da Verdade” (Stillwater, 2021), de Tom McCarthy – Foto: Universal Pictures/Divulgação

Certamente o filme não é perfeito. Pelo que parece ser um problema de ritmo, a história só engrena de verdade a partir dos 50 minutos, e parece durar bem mais do que as duas horas e dezenove minutos que de fato tem. Muito disso por conta de inconstâncias na cadência e momentos que não parecem agregar tanto, como por exemplo a visita do diretor da peça de Virginie — ele aparenta representar algum tipo de obstáculo para a relação entre ela e Bill, mas logo depois o par romântico que é sugerido desde o início do filme entre o americano e a francesa é finalmente formado.

Da mesma forma, a cena em que um idoso destila seu racismo contra a população árabe que vive na França é interessante e bem colocada, marcando uma distinção entre os personagens de Damon e Cottin e se constituindo como um dos ápices de tensão do filme. Mas este comentário parece ficar isolado, jogado em uma obra que opta mais pela introspecção e tessitura das relações entre os personagens e não consegue balancear esse drama com a necessária problematização da xenofobia e das questões étnico-raciais que atravessam a vida de imigrantes e seus descendentes na Europa, assuntos estes que acabam ficando no escanteio.

“Stillwater — Em Busca da Verdade” é um filme bastante peculiar. Eu diria que é um longa de ação e investigação revisionista, assim como existem westerns e filmes de horror revisionistas, que usam das convenções do gênero para desconstruir e subverter expectativas. E, de fato, este é um filme muito surpreendente. No final, a felicidade é protocolar. A glória e a redenção do herói não vêm. Tudo parece diferente. O reconhecimento deste novo mundo, pós-tornado, é nulo. ■

Nota:

STILLWATER – EM BUSCA DA VERDADE (Stillwater, 2021, EUA). Direção: Tom McCarthy; Roteiro: Tom McCarthy, Marcus Hinchey, Thomas Bidegain, Noé Debré; Produção: Tom McCarthy, Liza Chasin, Steve Golin, Jonathan King; Fotografia: Masanobu Takayanagi; Montagem: Tom McArdle; Música: Mychael Danna; Com: Matt Damon, Camille Cottin, Abigail Breslin, Lilou Siauvaud, Deanna Dunagan, dir Azougli, Anne Le Ny; Estúdio: DreamWorks, Amblin, Anonymous Content; Distribuição: Universal Pictures. 149 min

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