"Garota Inflamável" (Stillstehen, 2019), de Elisa Mishto - Foto: Francesco Di Giacomo/CALA Filmproduktion
Foto: Francesco Di Giacomo/CALA Filmproduktion

“Garota Inflamável” e a beleza de uma geração perdida

Estreia da diretora alemã Elisa Mishto em longas de ficção, “Garota Inflamável” é um filme cheio de camadas, capaz de trazer profundas reflexões sobre o que estamos fazendo com as nossas vidas, especialmente para a chamada “geração Z”.

Nós acompanhamos a jovem Julie (Natalia Belitski) e toda a sua filosofia de vida que é marcada pela concepção de não fazer nada: ela não tem um trabalho, não estuda, não tem amigos e não tem responsabilidades. Mas este seu “manifesto” fica apenas na teoria. Na prática, Julie foge de seus próprios sentimentos e cria muito caos ao seu redor, seja ateando fogo, envolvendo-se amorosamente ou mesmo manipulando as pessoas para o seu próprio prazer.

Quando decide fazer compras no supermercado para repor seu estoque de luvas amarelas de borracha, Julie se envolve com um desconhecido. Após este encontro, ela decide colocar fogo no carro dele. Com uma certa contemplação, Julie admira o fogo e liga para o seu psiquiatra, Dr. Hermann (Martin Wuttke, de “Bastardos Inglórios”) para retornar à clínica de sua confiança.



A personalidade de Julie passa a ganhar contraste quando ela conhece a enfermeira Agnes (Luisa-Céline Gaffron, de “E Amanhã… o Mundo Todo”), que passa a ser sua supervisora na clínica. Com esta interação, ambas começam a se envolver de uma maneira mais profunda e a confrontar decisões que tomaram em suas vidas.

Agnes, diferente de Julie, tem uma vida “mais tradicional”, partindo do que se é esperado de uma pessoa adulta: é casada e mãe de uma criança, mas também não está feliz. Ao se deparar com a recém-chegada, Agnes fica interessada por sua história e como aquela jovem simplesmente não se importa em fazer nada. Apesar do contraste criado entre as personagens, algumas questões abordadas em relação a Agnes poderiam ter sido mais amarradas, principalmente em relação à sua dinâmica com o marido.

Com um roteiro marcado por diálogos profundos e sem muitas papas na língua, “Garota Inflamável” é um combate com as nossas próprias escolhas diárias, uma pausa no piloto automático da vida. Cheio de confrontos sobre maternidade, afeto, depressão e saúde mental, o longa toca, de maneira crua e verdadeira, em algumas questões que ainda são tabu na sociedade. Acabamos, assim, nos identificando com as personagens, mesmo que nossas vidas não se conectem com as delas.

"Garota Inflamável" (Stillstehen, 2019), de Elisa Mishto - Foto: Francesco Di Giacomo/CALA Filmproduktion
“Garota Inflamável” (Stillstehen, 2019), de Elisa Mishto – Foto: Francesco Di Giacomo/CALA Filmproduktion

Com uma trilha sonora impecável assinada por Apparat, o filme ganha um tom ainda mais melancólico, mas extremamente visual e cheio de brincadeiras com as imagens, luzes e velocidade de câmera, o que torna a experiência ainda mais interessante e bonita visualmente.

A geração que hoje está na faixa dos 20 anos de idade, que muitas vezes pode ser vista como fútil e sem objetivo, neste filme é retratada como pessoas que sentem bastante, mas que não sabem lidar com seus problemas e preferem fugir da dor. A beleza do filme é poder ver como Julie entende que não está desconectada do mundo por mais que tente, mesmo com suas luvas de borracha — metáfora que se torna perfeita para representar a ausência de um toque real.

“Garota Inflamável” traz a beleza de uma geração que está perdida, mas que também tem coragem para admitir isso, mudar a rota e seguir adiante.

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