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“Atropia”: Um estudo sobre performance e poder entre o treinamento militar e o teatro do real | Sundance 2025

"Atropia" (2025), de Hayley Gates - Divulgação

Divulgação

Vencedor da competição World Cinema Dramatic do Festival de Sundance 2025, “Atropia” é a estreia em longa-metragem da atriz, jornalista e diretora Hailey Gates, conhecida por suas experimentações híbridas. O filme leva seu interesse pelo entrelaçamento de ficção e realidade a um novo patamar, ao retratar a rotina de uma base militar americana usada para simulações de guerra no Oriente Médio. Sobretudo, Gates se interessa pelas pessoas que vivem dentro dessas encenações.

O título vem do nome real da base Atropia, no deserto da Califórnia, onde o Exército dos EUA treina tropas em cenários que imitam vilarejos árabes. O longa nos convida a acompanhar o cotidiano dos figurantes contratados para interpretar “civis” e “inimigos”, muitos deles imigrantes ou descendentes de refugiados, que passam meses habitando um mundo de mentiras coreografadas. A protagonista é uma dessas pessoas, Fayruz, vivida pela ótima Alia Shawkat, que começa a confundir a vida real com o papel que desempenha nas simulações. Callum Turner, Chloë Sevigny e Jane Levy também compõem o bom elenco.

Hailey Gates adota uma linguagem ambígua, entre o documentário e a ficção encenada, que remete a Joshua Oppenheimer (“O Ato de Matar”), mas numa chave satírica que nem sempre funciona. A câmera parece oscilar entre observar e participar, e a montagem mantém o espectador em um estado constante de dúvida sobre o que é improviso e o que é roteiro. A fotografia granulada e os microfones visíveis em cena reforçam essa artificialidade controlada, que por vezes mina o humor pretendido.

“Atropia” pode ser visto como uma alegoria sobre o império da performance contemporânea, numa leitura política que vai além do campo militar — é também sobre representação social, cultural e de gênero. Sem recorrer a discursos diretos, Gates constrói uma experiência de desconforto e lucidez. Assim, quando Fayruz hesita entre permanecer na ficção ou voltar à realidade, o espectador percebe que a diferença entre as duas se tornou irrelevante. Afinal, aquela encenação interminável já havia vazado a tela antes mesmo do filme começar. ■

Nota:
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