Primeiro longa-metragem dirigido por Rohan Parashuram Kanawade, “Cactus Pears” acompanha Anand (Bhushaan Manoj), um homem jovem que mora em Mumbai e retorna ao vilarejo rural de sua família, no oeste da Índia, para cumprir o ritual de luto de dez dias após o falecimento do pai. Lá, ele reencontra o amigo de infância Balya (Suraaj Suman), que segue vivendo no campo e enfrenta, à sua maneira, os mesmos questionamentos familiares: casamento, status, pertencimento. Em meio ao ritual, às tradições e à obrigação de retornar à vida urbana, (re)nasce entre os dois um vínculo que ultrapassa a amizade.
Kanawade dirige com uma sensibilidade que privilegia o corpo, o espaço e o silêncio: a câmera se move tranquila, filma o suor, a terra, o nascimento de uma flor ou o beijo contido numa varanda de palha. A fotografia de Vikas Urs confere aos campos e colinas um peso afetivo raro, onde o ar parece moroso e as convenções sociais (casamento, família, status) parecem ruir lentamente. Essa atenção ao detalhe doméstico e rural torna o filme tão político quanto lírico: a ruralidade não é ambientação exótica, e sim traço da identidade dos personagens.
Exibido na competição World Cinema Dramatic do Festival de Sundance de 2025, “Cactus Pears” recebeu o Grande Prêmio do Júri, um reconhecimento significativo. Ao abordar o desejo queer evitando a narrativa hegemônica de fuga para a cidade ou confronto direto com a família, Kanawade constrói na intimidade entre Anand e Balya um ato de resistência tanto para os personagens quanto para o próprio filme em seu discurso.
O título alude à fruta do cacto, espinhosa por fora, doce por dentro — metáfora para vidas que florescem sob dureza, para afetos que nascem nos interstícios da norma. “Cactus Pears” é cinema indiano que se movimenta para além de Bollywood, mas que não pretende ser radical neste movimento. É um filme que se expressa na linguagem do cinema, do corpo, das paisagens e dos sentidos combinados que essas três instâncias evocam. ■
