“East of Wall” é um projeto nascido de imersão prolongada: a diretora e roteirista Kate Beecroft, em sua estreia em longas-metragens, viveu por três anos junto à comunidade de South Dakota na qual o filme se inspira. A obra foi então concebida a partir da experiência real da família Zimiga, sendo, na superfície, a história de uma treinadora de cavalos, Tabatha, que lida com dificuldades financeiras e um luto mal resolvido enquanto passa a reagir ao influxo de adolescentes desgarrados que chegam ao seu rancho.
A premissa é simples e direta: a convivência forçada entre gerações e a rotina rural se transformam em instrumento narrativo para retratar os laços e as tensões de uma comunidade das Badlands, um território que Beecroft filma com a intimidade de quem lá se instalou. Exibido em estreia mundial no Festival de Sundance de 2025, o filme trabalha com atores não-profissionais e profissionais, preservando a textura do cotidiano e permitindo que pequenas rupturas dramáticas revelem grandes comportamentos. Além de Tabatha e Porshia Zimiga como as figuras centrais, o elenco traz nomes conhecidos como Scoot McNairy e Jennifer Ehle.
O estilo híbrido da docuficção acentua a sensação de veracidade de “East of Wall” sem reduzir as cenas a um mero registro etnográfico. A câmera, quase sempre próxima aos corpos e aos gestos do trabalho no estábulo, privilegia a materialidade: lama, barro, ferraduras, o peito quente do cavalo. Essa escolha estética transforma o espaço do rancho num personagem, destacando também a precariedade que não permite qualquer romantização daquela vida no campo.
O impacto emocional do longa reside em sua fidelidade às contradições humanas que movem a família Zimiga: generosidade e exaustão, resistência e desgaste. Em sua narrativa, na qual se insere também um bucólico drama coming-of-age, Beecroft evita simplificações: não há promessa de redenção fácil, apenas a construção paciente de pequenas figuras de afeto em meio ao vento e à dureza do trabalho. O filme é também uma carta de amor à periferia americana que resiste ao apagamento. ■

Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

