"Marlee Matlin: Not Alone Anymore" (2025), de Shoshannah Stern - Divulgação
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“Marlee Matlin: Not Alone Anymore”: Um retrato íntimo sobre voz, legado e o silêncio compartilhado | Sundance 2025

Primeiro longa documental dirigido pela atriz, roteirista e ativista Shoshannah Stern, “Marlee Matlin: Not Alone Anymore” acompanha a trajetória de Marlee Matlin, primeira atriz surda a vencer o Oscar, por “Filhos do Silêncio” (Children of a Lesser God, 1986). Apresentado na seção competitiva U.S. Documentary do Festival de Sundance 2025, o filme é um registro que transcende a biografia para se tornar uma meditação sobre representação, envelhecimento e comunidade.

Stern estrutura o documentário como um diálogo entre gerações. Em vez de narrar a vida de Matlin em ordem cronológica até chegar à sua volta aos holofotes com “No Ritmo do Coração”, ela entrelaça entrevistas recentes com materiais de arquivo e cenas observacionais de bastidores, acompanhando a atriz em encontros com jovens artistas surdos, em aulas de direção e em momentos domésticos. O filme se comunica em American Sign Language (o equivalente à Libras, no Brasil), com legendas.

O título, “Not Alone Anymore”, reflete o tom do filme. Stern, também surda, evita a retórica inspiracional que costuma marcar retratos de figuras pioneiras. Em vez disso, revela a solidão por trás do pioneirismo de Matlin e o alívio de, finalmente, pertencer a um coletivo. E aqui vale destacar uma delicada inversão de perspectiva: a “voz” de Matlin não é a fala, mas o gesto — e o gesto, aqui, é cinematográfico.

A fotografia, discreta e luminosa, valoriza o espaço entre as pessoas, as pausas, os olhares e o movimento das mãos. A montagem alterna ritmo e contemplação, respeitando o tempo visual da língua de sinais. O resultado é uma experiência de escuta expandida: um filme que nos ensina a ver o som.

Um dos documentários mais emocionantes do festival, “Not Alone Anymore” se destaca pela nítida cumplicidade entre Matlin e Stern, e a forma como a diretora transforma o gesto político em gesto afetivo. O filme não tenta monumentalizar Matlin, mas integrá-la à rede de artistas e ativistas que seguiram seus passos. ■

Nota: