Em festivais como Sundance, onde a originalidade é a moeda mais valiosa, “Obex” se destaca como um artefato raro. O mais novo trabalho do cineasta Albert Birney é um lembrete do poder do cinema verdadeiramente independente: um filme que não apenas abraça suas limitações orçamentárias, mas as transforma em uma estética ousada e profundamente pessoal.
Na trama, acompanhamos Conor Marsh (interpretado pelo próprio Birney), um homem que vive em reclusão com a cadela Sandy. Sua rotina isolada é quebrada quando ele começa a jogar um misterioso jogo de computador chamado “OBEX”. O mergulho nesse universo digital ganha contornos desesperadores quando Sandy desaparece, forçando Conor a cruzar a fronteira entre o real e o virtual para resgatar sua única companheira. O elenco se completa com Callie Hernandez, como a vizinha Mary, e Frank Mosley.
A premissa serve de portal para a maior virtude do filme: sua relação com o passado. Em vez de se apoiar na nostalgia fácil da cultura pop dos anos 80, Birney mergulha na estética dos primórdios dos videogames e da computação pessoal. A fotografia em preto e branco, aliada a uma textura lo-fi que remete a jogos de 8-bits, não é um truque, mas a linguagem central de um mundo onde a alienação se tornou a norma. O filme não emula o passado; ele o hackeia para discutir o presente.
Essa abordagem transforma “Obex” em um fascinante estudo de personagem. A jornada de Conor não é uma aventura, mas uma descida obsessiva a uma psique fragmentada pela tecnologia. Aqui, as influências se revelam de forma mais madura e sombria. A paranoia e a dissolução da realidade evocam o cinema de David Lynch, onde a lógica dos sonhos sobrepõe-se à do mundo desperto. Ao mesmo tempo, a busca febril de Conor, que o consome por inteiro, carrega a intensidade psicológica de um personagem de Darren Aronofsky, aprisionando o espectador em sua perspectiva distorcida.
Ao estrelar seu próprio filme, Birney reforça o caráter íntimo do projeto. Sua performance contida ancora o surrealismo da narrativa em uma dor palpável: a do isolamento na era digital. “Obex” é, em sua essência, uma reflexão sobre como as telas, que prometem conexão, podem se tornar as paredes de nossa própria prisão. É um filme que questiona se a busca por algo perdido em um mundo sintético não é, na verdade, uma fuga do que perdemos dentro de nós mesmos.
Com uma visão singular, Birney constrói na tela uma experiência audiovisual única na seleção de 2025 do Festival de Sundance e que confronta criativamente muito do que encontramos no cinema comercial. “Obex” mostra que o cinema dito indie ainda encontra terreno fértil para explorar as ansiedades mais profundas de nosso tempo. ■
