Ícone do site cinematório

“Omaha”: Um road movie íntimo sobre luto, paternidade e a precariedade como horizonte | Sundance 2025

"Omaha" (2025), de Cole Webley - Divulgação

Divulgação

Selecionado para a seção U.S. Dramatic Competition de Sundance 2025, “Omaha” marca a estreia em longas do diretor e publicitário Cole Webley. Conhecido por trabalhos de forte apelo visual, ele transpõe para o cinema um olhar fotográfico e emocionalmente contido, construindo uma narrativa sobre desamparo e pertencimento em uma cidade do Meio-Oeste dos EUA devastada por crises sucessivas: econômicas, ambientais e pessoais.

Com roteiro de Robert Machoian, o enredo parte de uma tragédia familiar, quando um pai (John Magaro), atravessando uma grave crise financeira, é obrigado a deixar sua casa e leva os filhos pequenos, Ella (Molly Belle Wright) e Charlie (Wyatt Solis), em uma viagem de carro pelo país. À medida que a “aventura” se desenvolve, Ella começa a entender que as coisas podem não ser o que parecem.

O filme opera na chave do road movie minimalista: duração enxuta (83 minutos), foco nos corpos e nos silêncios, e uma gramática que privilegia o olhar das crianças diante de um adulto em desamparo. A fotografia de Paul Meyers transforma acostamentos, motéis e restaurantes de beira de estrada em espaços de suspensão; a trilha de Christopher Bear (com violões e texturas discretas) funciona mais como respiração do que como comentário emocional. E Webley filma Magaro sem psicologismo: a dor é sugerida por gestos, pela economia de palavras e pela maneira como o enquadramento insiste na distância entre os três integrantes daquele núcleo familiar.

Há uma temporalidade dupla que interessa ao filme. Embora o roteiro situe a família em um presente de vulnerabilidade econômica (o estopim é a execução da hipoteca), a mise-en-scène evita ancoragens sociais óbvias e se concentra no ritual do deslocamento: dirigir, abastecer, dormir, seguir. Em uma das passagens mais fortes, o pai decide deixar o cão da família (um Golden Retriever ainda por cima) em um canil na estrada — cena que Webley encena sem sublinhar, deixando que a crueldade pragmática do gesto revele o tamanho do buraco afetivo. É nessa contenção que “Omaha” encontra sua força: cada microdecisão carrega um custo que o filme nunca romantiza.

O contexto de produção também dialoga com a estética: filmado majoritariamente em Utah, com passagens por Wyoming e Nebraska, o longa nasceu de uma relação antiga entre Machoian e Webley e foi realizado em um cronograma curto, preservando a espontaneidade dos encontros na estrada.

Embora carregue tiques típicos do que se entende por filme indie estadunidense há pelo menos duas ou três décadas, “Omaha” funciona emocionalmente com um misto de doçura e opacidade, muito graças à maneira como Webley retrata seu protagonista, encenando uma masculinidade frágil sem busca de absolvição. É um filme pequeno em gestos, mas grande em reverberação, especialmente diante da cruel e impactante decisão que leva à cena final. Quando a estrada termina, o que resta é a pergunta feita em voz baixa: o que um pai pode oferecer quando tudo o que tem é tempo ao volante com os filhos? ■

Nota:
Sair da versão mobile