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“Sorry, Baby”: Depois do trauma, o que fica (e o que pode nascer a partir dele) | Sundance 2025

"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Divulgação

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Estreia na direção de longas da atriz e roteirista Eva Victor, “Sorry, Baby” é uma comédia dramática que decide olhar não para o evento traumático que marca a vida de sua protagonista, mas para o tempo que vem depois.

A própria Eva interpreta Agnes, professora de literatura que atravessa o impacto emocional de uma agressão sexual cometida por um colega de universidade, Preston Decker (Louis Cancelmi). O filme acompanha as tentativas de Agnes de reorganizar a vida — o trabalho, os afetos, o riso possível — ao lado da melhor amiga Lydie (Naomi Ackie) e de figuras orbitais como o vizinho Gavin (Lucas Hedges) e Pete (John Carroll Lynch), dono de uma lanchonete.

Em sua estratégia formal, Eva escolhe evitar a representação explícita da violência sofrida por Agnes. A dramaturgia se constrói no rastro do trauma, por meio de conversas interrompidas, rotinas como cozinhar e dar aulas, pequenos rituais de cuidado. Ao mesmo tempo, a cineasta (que vem de experiências prévias no humor, principalmente na internet) traça uma comicidade seca, sem anestesiar nada: serve para abrir espaço à vulnerabilidade de Agnes, que aprende a nomear o que sente sem transformar a dor em identidade. O filme busca um riso que nasce do deslocamento, não do sarcasmo. Quando vem a piada, ela revela uma fissura, mas nunca a encobre.

Há um gesto ético importante aqui. Eva Victor, que concebeu o projeto na esteira da pandemia e o descreve publicamente como bastante pessoal, recusa a espetacularização do sofrimento e escolhe o processo de cura como centro: terapia, amizade, recaídas, lampejos de alegria. Ela oferece uma mistura de franqueza emocional e timing cômico como diferencial, sendo o vínculo entre Agnes e Lydie o eixo afetivo principal.

“Sorry, Baby” faz de Eva Victor uma cineasta que definitivamente devemos acompanhar. Uma narradora e intérprete de uma certa urgência de estar vivo entre o riso e o desmoronar. Ao levar seu humor autorreflexivo a um território mais íntimo, ela realiza um filme que alterna leveza e desconforto para discutir a dificuldade de nos reconhecermos em nossas próprias vulnerabilidades. ■

Nota:
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