Estreia mundial na competição World Cinema Dramatic do Festival de Sundance 2025, “Sukkwan Island” adapta o livro de David Vann em um registro de rigor e contenção. A premissa traz um pai ausente que leva o filho de 13 anos para passar um ano com ele em uma ilha remota. A promessa de reconexão lentamente se converte em um teste de sobrevivência e confronto com feridas antigas.
Vladimir de Fontenay, realizador emergente do cinema francês contemporâneo, dirige e assina o roteiro. No elenco principal estão Swann Arlaud e Woody Norman. Em cena, o que mais pesa é o que se percebe entre uma palavra e outra, entre uma decisão e sua consequência.
De Fontenay filma a paisagem como presença hostil: o vento que não alivia, a água que não purifica, a noite que não esconde. O olhar do menino (Norman) organiza a nossa experiência, enquanto o adulto (Arlaud) ocupa o quadro como força instável, ora protetora, ora perigosamente opaca. É a confirmação do estilo formal do diretor: poucos diálogos, enquadramentos fixos, silêncio denso e a natureza como espelho.
O filme evita a catarse e prefere a fricção contínua: pequenas tarefas (cortar lenha, consertar o abrigo, checar armadilhas) vão acumulando tensão até que uma virada reconfigura o eixo afetivo da narrativa, mas sem chamar a atenção para o roteiro, cuja missão primeira é investigar a herança emocional que o pai deixa para o filho mesmo sem o convívio familiar.
“Sukkwan Island” dialoga com a tendência desta edição de Sundance: filmes que apostam no silêncio como método e na intimidade como conflito. A natureza não oferece respostas ao aflito pai — apenas devolve, implacável, o que ele leva para lá. Não se trata de uma parábola de redenção. Ao invés de confortar, de Fontenay busca questionar: o que restará para quem decide começar de novo em um lugar onde tudo está congelado, inclusive o afeto? ■
