Exibido na seção NEXT do Festival de Sundance 2025, “The Zodiac Killer Project” é mais uma provocação de Charlie Shackleton, cineasta (e também crítico de cinema) que vem reinventando a forma documental britânica com filmes ensaísticos e/ou experimentais como “Beyond Clueless” e “The Afterlight”. Aqui, ele parte do material bruto de décadas de investigações sobre o assassino do Zodíaco para construir um filme que é menos sobre o criminoso e mais sobre o olhar que nunca o deixou morrer.
Shackleton utiliza apenas imagens de arquivo: programas de TV, reportagens policiais, reconstituições, entrevistas, fóruns da internet. Ele reorganiza esse vasto e variado material em um mosaico cronológico, pontuado por uma narração anônima. A voz alterna entre fatos e delírios, sugerindo que a obsessão coletiva em torno do caso é uma forma de ficção colaborativa.
O resultado é um híbrido de ensaio e terror sensorial. As imagens granuladas e repetitivas, que emulam a textura de VHS e Super-8, funcionam como espectros de uma verdade inalcançável. Shackleton não busca solucionar o mistério, mas sim investiga a necessidade que temos de nunca encerrá-lo. Há momentos em que o filme se aproxima de uma videoinstalação: o espectador se vê preso em loops visuais, enquanto o som das máquinas de escrever e dos toques de telefone formam uma trilha hipnótica.
Em tempos de true crime como tendência no cinema documental mainstream, “The Zodiac Killer Project” surge como uma reflexão sobre a era da reencenação infinita, na qual tragédias verdadeiras se confundem com entretenimento e o Assassino do Zodíaco sobrevive como algoritmo. Assim, Shackleton questiona o próprio papel do cinema na era da saturação imagética. Ele não busca revelar um rosto, mas devolver ao espectador o espelho da sua própria curiosidade. ■
