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“Train Dreams”: O faroeste crepuscular que ressignifica a solidão americana | Sundance 2025

"Train Dreams" (2025), de Clint Bentley - Divulgação

"Train Dreams" (2025), de Clint Bentley - Divulgação

Apresentado na seção Premieres do Festival de Sundance 2025, “Train Dreams” é dirigido por Clint Bentley, que em seu segundo longa (o primeiro foi “Jockey”, de 2021) mostra ser um dos novos cineastas dos EUA mais atentos à relação entre mito e intimidade. Baseado no conto homônimo de Denis Johnson, o filme revisita o imaginário do Oeste norte-americano não como território de conquista, mas como espaço de ruína e lembrança.

A história se passa nas primeiras décadas do século XX e acompanha Robert Grainier (Joel Edgerton, em uma atuação contida e firme, mas também delicada), trabalhador das linhas ferroviárias que assiste à expansão industrial apagar o mundo que ele conhecia. Viúvo e isolado, ele vive à sombra da memória da esposa e da filha perdidas em um incêndio — lembranças que retornam em visões oníricas, misturando espiritualidade e trauma. O bom e consistente elenco conta ainda com Felicity Jones, Clifton Collins Jr., William H. Macy e Paul Schneider, além de Will Paton como narrador.

Bentley filma a paisagem com reverência e distanciamento. O tom não é épico, mas meditativo. O som do trem que corta as montanhas funciona como respiração do próprio personagem, enquanto o fogo que o consome simboliza tanto o progresso quanto a destruição. A fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (“Tungstênio”, “Rodantes”), alterna o crepúsculo dourado e o azul profundo da noite em planos longos, que sublinham a transição entre o real e o espectral.

Há ecos nada sutis de Terrence Malick, mas podemos dizer que Bentley busca se aproximar mais da sobriedade de Kelly Reichardt ao filmar o Oeste como um espaço de sobrevivência espiritual. O roteiro evita sentimentalismos: a melancolia é seca, o ritmo é pausado, e o gesto mínimo ganha força simbólica. O trem que avança rumo ao desconhecido é metáfora para a história americana: uma linha que não leva ao futuro, mas retorna sempre ao mesmo ponto, onde a solidão é o último território a ser desbravado

“Train Dreams” é um dos trabalhos mais consistentes da edição 2025 de Sundance, com Bentley conciliando rigor visual com emoção subterrânea em um festival marcado por distopias tecnológicas e narrativas urbanas. É um filme que soa quase anacrônico, mas é justamente essa característica que o torna tão interessante e, provavelmente, fará com que busque horizontes mais ambiciosos na temporada de premiações. ■

Nota:
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