Ícone do site cinematório

“F1”: filme com Brad Pitt completa a corrida, mas com safety car na pista

"F1" (2025), de Joseph Kosinski - © Warner Bros.

© Warner Bros.

É inegável que “F1” é um filme de propaganda de longa-metragem da Fórmula 1. Está claro para todos que o título da produção é o logotipo da franquia automobilística, que há tempos se esforça para recuperar sua popularidade. Haveria estratégia melhor (e mais cara) do que usar os cinemas e um dos maiores astros de Hollywood para esse fim?

Se a Fórmula 1 terá os resultados esperados, é algo a ser visto no futuro. O que temos agora é a megaprodução dirigida por Joseph Kosinski e protagonizada por Brad Pitt. Na tela, além de ser mais uma produção do “cinema de marcas” que cooptou os grandes estúdios há algum tempo (com Barbie, Lego, Marvel, Hasbro, Nintendo, entre outros), o filme se apresenta como um drama esportivo competente e com excelentes cenas de ação.

Para quem vibrava com Ayrton Senna nas corridas de domingo, “F1” já começa em tom nostálgico, com uma sequência de sonho (literalmente) criada como se fossem imagens captadas pela câmera dentro do cockpit. A disputa acirrada com o brasileiro durante uma prova resulta em um acidente quase fatal que tirou das pistas o piloto (fictício) Sonny Hayes, interpretado por Pitt.

"F1" (2025), de Joseph Kosinski - © Warner Bros.
© Warner Bros.

Assim como o despertar do pesadelo recorrente de Sonny, a tragédia criada para o filme mescla realidade e ficção. Afinal, o próprio Senna se envolveu em acidentes ao disputar posições com seus rivais e perdeu a vida durante uma prova, no fatídico Grande Prêmio de San Marino, em 1994. Ao longo de “F1”, outros pilotos reais são mencionados durante a narração das provas ou fazem breves participações.

É assim que o roteiro incorpora Sonny e outros personagens fictícios à “vida real”, criando uma verossimilhança eficaz, o que também se aplica aos bastidores das equipes nos boxes e aos aspectos técnicos dos carros. Não há um detalhismo exagerado, mas os aficionados por automobilismo não devem se decepcionar.

"F1" (2025), de Joseph Kosinski - © Warner Bros.
© Warner Bros.

No geral, “F1” funciona. Mas onde o roteirista Ehren Kruger derrapa é na construção dos personagens, especialmente do protagonista. Sonny parece ter surgido de um prompt de inteligência artificial: “Crie um piloto de corridas veterano, um homem bonito na faixa dos 50 anos, com personalidade arrogante, mas ao mesmo tempo gentil e com um carisma irresistível.” Na verdade, basta pedir a uma dessas ferramentas de I.A. para descrever a persona de Brad Pitt e, basicamente, teremos Sonny Hayes.

Mais fácil ainda parece ter sido criar os personagens coadjuvantes: Joshua Pierce (Damson Idris), o jovem, assoberbado, mas inseguro companheiro de equipe; Kate (Kerry Condon), a diretora de engenharia automobilística que, apesar da experiência, ainda precisa provar seu valor na indústria (mas que não resiste em flertar com Sonny); Ruben Cervante (Javier Bardem), ex-piloto e agora executivo que tenta fazer sua equipe pontuar pela primeira vez no campeonato; e Banning (Tobias Menzies), o investidor inescrupuloso que personifica o ímpeto capitalista do esporte.

"F1" (2025), de Joseph Kosinski - © Warner Bros.
© Warner Bros.

Em suma, o que “F1” faz, e faz bem, é organizar clichês de modo que o filme seja um bom entretenimento. Kosinski, que desde “Tron: O Legado” vem se mostrando um cineasta com estilo clássico e elegante, foi uma escolha acertada para traduzir as intenções do projeto em imagens e sons envolventes, direcionados para um público de faixa etária igual ou não muito distante do protagonista. Considerando que Kosinski dirigiu “Top Gun: Maverick”, podemos dizer que “F1” é a resposta de Brad Pitt a Tom Cruise, no sentido de também ser um filme de conflito geracional, protagonizado por um astro sessentão com diesel correndo nas veias e que salva o dia após cenas de ação velozes e furiosas

É, também, mais um filme que mostra o quanto Hollywood está disposta a investir em produções direcionadas para uma plateia mais velha, saudosa dos filmes e dos astros de outrora. Se isso significa que os estúdios já aceitaram que as gerações mais novas não estão nas salas de cinema, pode ser que finalmente estejamos vivendo a última era dessa experiência.

Infelizmente, porém, ainda não parece que entramos numa era revisionista como a dos westerns. O momento é puramente nostálgico e mais voltado para o consumismo. E este é um sentimento que “F1” exalta na estratégia traçada por Hayes para fazer a equipe pontuar: forçar paradas nas corridas para frear os rivais com carros mais possantes e garantir posições. Ou seja, em um tempo de aversão ao risco e preocupação excessiva com segurança, “F1” representa um cinema que anda com o safety car na pista, embora consiga subir no pódio ocasionalmente. ■

"F1" (2025), de Joseph Kosinski - © Warner Bros.
© Warner Bros.

Nota:
Sair da versão mobile