“Amores Materialistas” resgata comédias românticas com trama sincera e química no elenco
O que ainda faz as pessoas se casarem? Essa é uma questão que poderia estar presente no eixo central de muitos filmes românticos contemporâneos e ser utilizada para a construção de uma narrativa muito atraente para o público. Uma produção que apresenta a história de uma mulher solteira convicta, que não acredita mais no amor por já ter sido desapontada diversas vezes, e de repente ela encontra alguém que a faz mudar de ideia.
A partir daí, ela se encontra envolvida em muito amor e se abre novamente, após alguns percalços no caminho, casando-se no final da produção, em uma cerimônia linda, com uma trilha sonora romântica no fundo. Esse poderia ser o enredo mais fácil a se seguir, mas a diretora Celine Song (“Vidas Passadas”) não optou por esse caminho (ainda bem).
“Amores Materialistas” acompanha Lucy (Dakota Johnson), uma casamenteira de sucesso especializada em formar pares ideais. Ambiciosa e determinada, ela se vê dividida entre Harry (Pedro Pascal), o pretendente que ela julga perfeito, e John (Chris Evans), seu ex-imperfeito que insiste em reaparecer. Em meio a um triângulo amoroso, ela precisa enfrentar os próprios dilemas e armadilhas que criou para si.
O filme é claramente um resgate às comédias românticas das décadas de 1990 e 2000 e isso é notório logo no início. A primeira aparição da protagonista traz para a tela uma atmosfera glamorosa, digna de um perfil clichê “mulher de negócios” que vive em Nova York. Uma vibe muito presente em longas como “Uma Linda Mulher” (1990), “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1991) e “O Diabo Veste Prada” (2006), por exemplo. Até mesmo a profissão casamenteira no centro da trama (como acontece em “Hitch – Conselheiro Amoroso”, em 2005) mostra a intenção de Celine Song em trazer para sua obra características deste gênero tão famoso, mas que hoje em dia não está tão em alta com em décadas passadas.

Como acontece nesses e em vários títulos que seguem a mesma linha, “Amores Materialistas” contém muita beleza. A fotografia é convidativa aos olhos. Os cenários externos te levam a uma Nova York pulsante e atraente, com um alto fluxo de pessoas bonitas falando ao telefone ou se esbarrando enquanto atravessam as ruas. Todos os personagens são charmosos, desde a protagonista até os figurantes. O figurino, a maquiagem, o cabelo, tudo é atrativo.
A direção de arte acerta em todos os quesitos. Ao mostrar a parte glamorosa da trama, é possível se sentir pertencente a um evento de gala ou estranhamente à vontade em um apartamento luxuoso. E o mesmo acontece quando o setor mostra o oposto ao público: é perceptível a atmosfera simples de um teatro localizado no subúrbio da cidade e é quase palpável a poeira presente em um modesto apartamento caindo aos pedaços que é mostrado em tela.
E esses opostos também são bem construídos no roteiro de Celine. De um lado, John, o personagem pobre e humilde, porém bom amigo, sonhador e que tem vários empregos para sobreviver em uma cidade cujo custo de vida é muito alto para ele. Do outro, Harry, o galã rico, empresário, alto e que, apesar de não ter tempo para flertes, sabe ser encantador e usar as palavras certas para seduzir as mulheres. E no meio desses homens, tem Lucy, que nasceu pobre, cresceu pobre, mas deixa claro, durante toda a trama, que quer se tornar rica e não mais precisar passar por problemas devido à falta de dinheiro.
Ainda neste núcleo, há outro personagem presente: a química. Dakota com Pedro, Chris com Dakota e até as interações de Pedro com Chris transbordam uma sintonia que quase acende uma chama ali mesmo, em tela. E isso acontece de forma natural e encantadora.
Assim como fez em “Vidas Passadas”, aqui Celine constrói muito bem os protagonistas da história. Acompanhamos o dilema de uma mulher que tem suas convicções e certezas, mas que também se vê confusa ao precisar decidir sobre qual caminho deve seguir. Isso a deixa mais próxima do telespectador, que é capaz de entender qualquer que seja sua decisão, pois conheceu os dois homens que disputam seu amor o suficiente para aceitar que ambos têm seus pontos negativos e positivos e que eles poderiam ser o par ideal para ela.
Mesmo que a sua escolha final seja um pouco clichê, a jornada de Lucy até este momento é bem construída e os motivos para aquela decisão são apresentados de uma maneira que justifica sua preferência.

O roteiro de “Amores Materialistas” talvez seja o que mais afasta o longa de Celine Song das comédias românticas que ela resgata e, de certa forma, homenageia ao longo da trama — o uso da palavra “talvez” não é à toa. Geralmente, produções deste gênero têm enredos menos profundos e uma história mais linear e superficial (e isso não é um ponto negativo). Já o filme dirigido por Song tem diálogos profundos, muito bem interpretados pelos atores, de temas coerentes à trama principal, além de conter uma narrativa intensa e aprofundada sobre relacionamento, dinheiro, traumas, etc.
Porém, quando há uma reviravolta no enredo e a história tende a ir para um caminho mais denso, o roteiro volta atrás e decide não tomar este rumo. A forma de se expressar de Dakota muda, ela se internaliza em suas ações e falas; a trilha sonora é alterada, trazendo uma densidade às cenas… tudo muda, mas na verdade, não há mudanças visíveis na narrativa.
O incidente é importante, pois coloca à prova algumas convicções de Lucy, porém o fato poderia ser melhor desenvolvido e trazer mais profundidade à história abordada. Ele volta algumas vezes ao enredo, mas devido ao curto espaço de tempo, logo depois já se depara com cenas românticas, mais leves do que o assunto abordado. Esse problema poderia ter sido resolvido com mais 30 minutos de duração, por exemplo, onde a situação teria um desenvolvimento mais adequado à sua complexidade.
A falta de diversidade no longa é um outro ponto que causa incômodo, mas pode ser justificado justamente pela escolha da cineasta em resgatar o estilo das comédias românticas das décadas de 1980, 1990 e 2000. Geralmente (para não dizer 90%) esses filmes eram protagonizados por pessoas brancas, héteros, com corpos e rostos considerados dentro do padrão estético. E é o que acontece em “Amores Materialistas” — salvo raros momentos.
Se Celine optou por seguir esse caminho como crítica a esses títulos não ficou muito explícito, e se ela quis fazer uma homenagem a eles, também poderia ter ido por um outro viés, criando um enredo similar às obras homenageadas, mas com personagens que trouxessem mais diversidade.
Entre acertos e tropeços, “Amores Materialistas” se destaca por propor uma reflexão atual e verdadeira sobre o valor das relações, e não apenas no sentido emocional. Celine Song critica as conexões baseadas em interesses materiais, mas sem cair no moralismo ou na ideia de que isso, por si só, é errado. Ela apresenta os fatos com sensibilidade, mas sem romantizar a realidade dura das escolhas afetivas. Também acerta ao questionar a busca pelo “par perfeito”, onde muita gente exige padrões inatingíveis e ainda assim se recusa a ser vista da mesma forma, como se o outro pudesse ser descartado por qualquer detalhe fora do ideal imaginado.
“Amores Materialistas” fala sobre valor: o valor que damos ao amor, ao outro, e até a nós mesmos e como, às vezes, esse valor pode se transformar num preço alto demais a se pagar. ■
AMORES MATERIALISTAS (Materialists, 2025, EUA) Direção: Celine Song; Roteiro: Celine Song; Produção: David Hinojosa, Christine Vachon, Pamela Koffler, Celine Song; Fotografia: Shabier Kirchner; Montagem: Keith Fraase; Música: Daniel Pemberton; Com: Dakota Johnson, Chris Evans, Pedro Pascal; Estúdio: 2AM, Killer Films; Distribuição: A24, Sony Pictures; Duração: 1h 57min.
