filme o silêncio das ostras
O rompimento das barragens no município de Mariana (2015) e em Brumadinho (2019) deixou marcas profundas na população de Minas Gerais. No total, foram quase 300 pessoas mortas pelo enorme volume de rejeito de mineração despejado pelas barragens sobre as comunidades do entorno. A lama também atingiu a fauna e a vegetação da região, afetou rios e chegou até o mar. E, apesar de tudo, a Samarco e a Vale, empresas responsáveis por essas barragens, não foram ainda responsabilizadas por esses crimes, tendo assumido apenas algumas ações de reparação. Com isso, e ainda sem muita visibilidade na imprensa, a memória desses episódios e suas consequências correm o risco de se apagar no decorrer do tempo. É nesse contexto que chega aos cinemas “O Silêncio das Ostras”, que aborda diretamente essa tragédia.
Com roteiro e direção de Marcos Pimentel, cineasta mineiro, o filme é ambientado em um vilarejo próximo a uma barragem, cuja população é formada principalmente por funcionários da mineradora e suas famílias. A história é contada do ponto de vista de Kaylane, a caçula de cinco irmãos. Na infância, a personagem é interpretada por Lavínia Castelari, que foi também a filha caçula em “A Felicidade das Coisas”, de Thais Fujinaga. Na fase adulta, a atriz Bárbara Colen assume o silêncio e o olhar observador da personagem. Além dos quatro irmãos, que crescem na expectativa de começarem a trabalhar na mineradora, a família é ainda formada pela mãe (Sinara Teles), que se vê presa ali, mas sonha em conhecer o mar, virar cantora e usar um colar de pérolas, e pelo pai (Adyr Assumpção), adoecido pelo trabalho na mineradora, com dificuldades de fala e locomoção. A partir dessa família e dos acontecimentos que se sucedem no decorrer dos anos, o filme mostra como Kaylane percebe o entorno e se relaciona com ele.
Apesar da lama tóxica da mina e do ambiente terroso do vilarejo, Kaylane fantasia a realidade e contempla os sons e os movimentos dos animais. Criando um mundo próprio para si, ela coleciona insetos e decora seus espaços com materiais recicláveis. Isso cria imagens fortes e bonitas que contrastam a grandeza da mina com a pequenez e a delicadeza dos insetos, a cor monocromática da mina com o colorido dos recicláveis. Assim, com a fotografia de Petrus Cariry e a direção de arte de Juliana Lobo, as imagens potencializam a percepção de um olhar sensível ao mundo mesmo diante da brutalidade de certos ambientes. Com uma curiosidade genuína sobre o mundo, os sonhos e a morte, Kaylane também tenta entender sua mãe, percebida em sua complexidade. Nesse universo construído em camadas, as atrizes desenvolvem talentosamente atuações contidas, silenciosas e, ao mesmo tempo, reveladoras, sobretudo pelo olhar.
O ouvido atento que Kaylane dedica aos insetos faz da banda sonora um espaço de contemplação no qual é possível perceber os sons de diferentes espécies e a variedade de formas de vida naquela região. Além dos insetos, os cachorros também possuem espaço de destaque e surgem na tela vinculados de forma impressionante aos sentimentos de Kaylane, desde o olhar ingênuo na infância até a cumplicidade na fase adulta. A trilha, de forma coerente com as vidas que o filme retrata, não é feita de gravações e, sim, formada por músicas cantadas pelas personagens, que transmitem entre si sonhos e crenças. Centrado em personagens femininas, o filme tem ainda participação de Lira Ribas, que conduz uma das canções que retorna em outros momentos do filme, cada vez com uma carga emocional diferente. Renato Novaes tem também uma breve participação, constituindo uma personagem fundamental para as escolhas que Kaylane irá tomar.
A partir dos irmãos de Kaylane, o filme mostra também o trabalho na mina, destino selado para os moradores do vilarejo. Imagens do esforço físico, das condições insalubres e da lagoa de lama atravessam o filme, mostrando a permanência dessa atividade na região e quem, em absoluto, não lucra com ela. E o filme não deixa margem para ilusões quanto àquela realidade para além do olhar de Kaylane. O grau de toxidade da lagoa, por exemplo, é explicitado em uma cena em que, posterior ao contato, vem o adoecimento.
De forma acertada, o filme utiliza cenas reais do rompimento das barragens, inclusive aquela imagem de carros tentando em vão desviar da lama. No contexto da narrativa, ali poderia estar qualquer um dos trabalhadores que conhecemos no decorrer da história, o que amplia o entendimento da tragédia. Nos momentos posteriores ao rompimento, Kaylane encontra pessoas e observa locais que inserem na narrativa os desdobramentos pessoais, sociais e ambientais do que aconteceu.
“O Silêncio das Ostras”, ao ficcionalizar uma das realidades que mais impacta a população mineira, acerta ao criar as personagens femininas com profunda sensibilidade e desenvolver suas histórias costuradas com os impactos da atividade mineradora na região. Além disso, ao retratar a vida em comunidades rurais e mostrar a situação de pessoas que subitamente perdem seu modo de vida, o filme desdobra os impactos de episódios dessa magnitude. Cabe ponderar que as cenas com explicações ligadas às causas e consequências do rompimento por vezes soam muito didáticas, mas é bom que sejam pois deixam a obra com capacidade para sensibilizar e informar. Assim, o filme de Marcos Pimentel, por meio de imagens e personagens impactantes, aborda com delicadeza um fato brutal e contribui para que a memória desses acontecimentos permaneça viva. ■
O SILÊNCIO DAS OSTRAS (2024, Brasil) Direção: Marcos Pimentel; Roteiro: Marcos Pimentel; Produção: Luana Melgaço, Marcos Pimentel; Fotografia: Petrus Cariry; Montagem: Ivan Morales Jr.; Com: Bárbara Colen, Lavínia Castelari, Sinara Teles, Adyr Assumpção, Lira Ribas; Estúdio: Tempero Filmes, Anavilhana; Distribuição: Olhar Filmes; Duração: 2h 7min.
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