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“Superman” de James Gunn atende, mas não supera a expectativa

"Superman" (2025), de James Gunn - © Warner Bros.

© Warner Bros.

“Superman” (2025) de James Gunn atende, mas não supera a expectativa

Atenção: esta crítica contém spoilers!

Dizem que criar expectativas demais sobre um filme nunca é uma boa ideia, mas no caso do “Superman do James Gunn”, era difícil conter o entusiasmo. De um lado, um super-herói amado por gerações, mas que vem sendo mal trabalhado em seus últimos filmes. Do outro, um diretor especialista em construir ótimas histórias de super-heróis, inclusive de personagens pouco conhecidos pelo público. Ou seja, esperar muito de “Superman” é compreensível. E, felizmente, as expectativas foram atendidas — ainda que sem grandes surpresas.

O filme dirigido por James Gunn (diretor da trilogia “Guardiões da Galáxia”) marca a estreia de David Corenswet dando vida ao herói da DC Comics. O ator chega para substituir Henry Cavill, que interpretou o Homem de Aço por quase dez anos. No longa, nós acompanhamos o personagem em uma jornada para equilibrar sua herança kryptoniana com os valores humanos que recebeu na Terra. Enquanto tenta conciliar essas duas identidades, ele se afirma como a personificação da justiça e da esperança por um futuro melhor.

Quem acompanhou o Superman nos últimos filmes pode estranhar a produção em um primeiro momento, pois ela pouco se assemelha aos tons escuros da fotografia dos longas dirigidos por Zack Snyder e às expressões sérias e dramáticas na interpretação de Henry Cavill. Agora, temos em tela um Kal-El sarcástico, divertido, carismático e cômico, características que estão presentes também na personalidade de Clark Kent.

Mas não é só o protagonista que carrega o estilo do cineasta: tudo do filme é acompanhado pelo “carimbo James Gunn”. A comédia (ou bobice) típica dele, está presente na trama inteira. É possível notar a assinatura dele desde as participações especiais de nomes como John Cena (que estrela a série “Pacificador”, dirigida por Gunn) e Bradley Cooper (que integrou o elenco de “Guardiões da Galáxia”), até as cenas de aventura em um local com elementos que lembram o Espaço e que contém a presença de muitas cores e formas lúdicas. A trilha sonora e até mesmo a escolha por Krypto ser um dos personagens mais importantes da trama, tudo isso é a cara de James Gunn.

A forte presença do estilo inconfundível do diretor não é um problema quando visto separadamente, porém, deixa a desejar pelo fato de que toda essa comédia e cores intensas não se unem à uma trama sólida. O roteiro tem tentativas de construir um enredo dramático em alguns momentos, entretanto, não se desenvolve, e mais uma vez voltamos para cenas divertidas.

Isso fica nítido no fim do terceiro ato, quando Lex Luthor (Nicholas Hoult) e Kal-El começam a construir um diálogo impactante resumindo a motivação de ambos, mas são interrompidos por Krypto e sua inquietude canina. Faltou mais complexidade na história, nos combates e até nos desafios do protagonista ao longo da narrativa. Tudo se resolve fácil demais.

Por falar em Krypto, a escolha do roteiro em colocar Superman como tutor temporário do animal não faz muito sentido. Afinal, ele tem o cão como principal parceiro ao longo da história, sendo que ele nem é o “dono”. E o pior, quando o cachorrinho vai embora, não há comoção por parte do herói.

"Superman" (2025), de James Gunn - © Warner Bros.
© Warner Bros.

Em contrapartida, o roteiro acerta em um ponto que é cada vez mais crucial em filmes de super-herói: simplificar a introdução da história de origem do personagem. Já no início do longa, com menos de um minuto, sabemos de onde Superman veio, da morte dos pais e até dos seus recentes conflitos. Essa escolha poupa o público e ainda abre espaço para a apresentação de novos elementos na trama.

Um outro ponto que deixa o roteiro interessante é a humanização que Gunn quer trazer para Kal-El, e isso é visto em diversos momentos, como na relação dele com os integrantes da “Gangue da Justiça” sendo leve e nem um pouco hierárquica, ou em sua discussão com Lois Lane (Rachel Brosnahan) porque ela não sabe se quer ou não namorar com ele.

Até mesmo a escolha por representar Krypto como um cão fofinho e brincalhão é uma maneira de humanizar o herói. Sem contar que o personagem só vai ao encontro de Lex para um embate após o vilão sequestrar o cachorro. Não tem nada mais humano do que se colocar em risco para salvar um pet, não é mesmo?

O roteiro do longa também acertou ao apresentar um Superman mais “fraco”. James Gunn traz uma vulnerabilidade ao alienígena. Isso é mostrado logo no início da trama (onde ele precisa que um cachorro o ajude) e o cineasta não tem pudor em mostrar um dos super-heróis mais poderosos dos quadrinhos perdendo combates e sendo massacrado por seu rival. Isso é uma escolha ousada, mas que deu certo.

Um outro ato de coragem foi quebrar a relação do Superman com seus pais biológicos e aproximá-lo dos seus pais adotivos. As interações entre Clark, Jonathan e Martha, apesar de mínimas, são as que garantem os momentos de emoção da narrativa. A cena final, quando os robôs mostram ao Superman lembranças dele com seu pai e sua mãe da Terra, é comovente e indica uma ruptura de laços com seu lado alienígena, enquanto consolida seu lado mais humano, mais Clark Kent.

"Superman" (2025), de James Gunn - © Warner Bros.
© Warner Bros.

Claramente, “Superman” é um filme com um projeto a longo prazo. O desejo de aproximar mais o personagem do grande público não é à toa: mostra como a DC quer mudar seu universo cinematográfico e deixar seus heróis novamente na boca e no coração do povo. E este longa é um ótimo ponto de partida para esse plano. A produção tem nomes interessantes para serem trabalhados futuramente, como os que integram a “Gangue da Justiça”. O grupo é formado pelo Lanterna Verde Guy Gardner (Nathan Fillion), que quer ser o líder galã, pela Mulher-Gavião (Isabela Merced), que não tem paciência com nenhum dos outros participantes da equipe, e pelo Senhor Incrível (Edi Gathegi), o inteligente expert em tecnologia. Este último inclusive tem grande destaque na trama, ajudando  Kal-El em sua jornada, e isso deve refletir em novas produções da DC, talvez trazendo novamente o personagem em uma outra história.

“Superman” é um bom filme. Eu esperava encontrar o equilíbrio entre a seriedade que o personagem pede e a leveza característica dos filmes anteriores de James Gunn, mas a experiência se aproximou mais de assistir a um filme padrão da Marvel. Isso, no entanto, não é necessariamente ruim. Talvez, no fim das contas, o verdadeiro vilão aqui tenha sido a expectativa. ■

Nota:

SUPERMAN (2025, EUA) Direção: James Gunn; Roteiro: James Gunn; Produção: Peter Safran, James Gunn; Fotografia: Henry Braham; Montagem: William Hoy, Craig Alpert; Música: John Murphy, David Fleming; Com: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Edi Gathegi, Anthony Carrigan, Nathan Fillion, Isabela Merced; Estúdio: DC Studios, Troll Court Entertainment, The Safran Company; Distribuição: Warner Bros.; Duração: 2h 9min.

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