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“A Melhor Mãe do Mundo” e a coexistência de sentimentos antagônicos

"A Melhor Mãe do Mundo" (2025), de Anna Muylaert - Foto: +Galeria/Divulgação

Foto: +Galeria/Divulgação

Desde “Que Horas Ela Volta”, Anna Muylaert demonstra habilidade em tratar com leveza temas sociais densos. Em “A Melhor Mãe do Mundo”, a cineasta segue essa linha e conta uma história sobre violência doméstica com um tom, provocado pela presença de duas crianças, de contos de fadas. Assim, apesar de criar momentos de tensão, o filme não mostra cenas de violência e mantém o foco na força da personagem principal.

Gal, a protagonista, é uma catadora de recicláveis que está em um relacionamento abusivo. Após mais um episódio de agressão, ela decide sair de casa com suas duas crianças e atravessar a cidade de São Paulo a pé, levando sua carroça e os filhos, rumo à casa de uma prima. Gal é interpretada com intensidade por Shirley Cruz, que consegue expressar no olhar a apreensão e o afeto, às vezes ao mesmo tempo, conferindo a densidade exigida pela personagem. As crianças são vividas por Rihanna Barbosa e Benin Ayo, em atuações carismáticas e naturais. Para eles, Gal inventa uma aventura com surpresas e desafios, de modo a tornar mais leve os dias na rua.

Essa coexistência de sentimentos divergentes é revelada já nos minutos iniciais do filme. A primeira cena acontece em uma delegacia de mulheres e mostra Gal hesitante sobre fazer a denúncia contra o namorado. Ela não tem certeza da gravidade do que passa, mas o corte na sobrancelha dela revela que a violência é real. Logo depois dessa cena, começam os créditos de abertura em letra cursiva, sugerindo uma escrita infantil, vinculando o olhar do filme às crianças. Essa combinação entre a coragem de reagir enquanto cria uma visão lúdica da vida sustenta a obra.

"A Melhor Mãe do Mundo" (2025), de Anna Muylaert - Foto: +Galeria/Divulgação
Foto: +Galeria/Divulgação

Assumindo roteiro e direção, Muylaert inclui na narrativa situações ligadas ao universo feminino e ao cuidado com as crianças, como, por exemplo, uma menstruação inesperada ou a fome constante dos filhos. Esses detalhes, assim como outros ligados ao mundo infantil e ao futebol, fazem com que a narrativa nos conduza pelas vivências daquela família, criando uma relação de proximidade.

As personagens coadjuvantes são complexas, carregam dramas pessoais, revelam contradições. Munda (Rejane Faria) carrega em si força, resistência e empatia. Val (Luedji Luna), a prima de Gal, introduz um novo universo de questões a partir de sua família e cria um contraponto sobre formas de lidar com situações de violência. Leandro (Seu Jorge), o namorado de Gal, revela as ambivalências do agressor.

A trilha sonora inclui de “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, a “Voando pro Pará”, da Joelma. Essa seleção contrastante reforça essa dupla narrativa conduzida pelo filme. Se temos uma mulher tentando escapar com os filhos de um contexto de violência, temos também duas crianças vivendo uma aventura com a mãe.

Em “A Melhor Mãe do Mundo”, a cidade de São Paulo é retratada em imagens que mostram tanto grandes avenidas quanto ruas tranquilas de bairro enquanto Gal atravessa a cidade ao encontro da prima, em Itaquera. Lá, no estádio do Corinthians, acontece o que considero um ponto de ruído na coerência do filme, com imagens de uma arquibancada essencialmente masculina, com a visível ausência feminina, reproduzindo na tela uma anulação que o filme procura combater.

"A Melhor Mãe do Mundo" (2025), de Anna Muylaert - Foto: +Galeria/Divulgação
Foto: +Galeria/Divulgação

Entre os temas que o filme aborda de forma mais breve estão a dinâmica de trabalho de catadores de recicláveis, organizados em cooperativas, e a dinâmica das ocupações urbanas, que funcionam como um importante apoio para pessoas em vulnerabilidade. Apesar de não serem aprofundados, esses temas são colocados de uma forma que revela a intenção de tornar mais visível e humana a realidade dessas comunidades.

As situações de violência doméstica são permeadas por questões difíceis e o filme aborda muitas delas: a dúvida sobre ser merecedora daquelas agressões, dúvidas sobre largar aquela pessoa, incertezas sobre uma vida em outro lugar, insegurança financeira, entre outras. Além disso, o mostra a importância de uma rede de apoio para que as mulheres consigam se proteger e se resgatar. Ainda que a personagem seja uma mulher em situação de vulnerabilidade, o ciclo da violência doméstica é muito parecido entre as mulheres em geral.

E se no final o filme assume o tom de conto de fadas, é bom que assim o seja. Nós não queríamos ver Gal sendo agredida, esfaqueada ou baleada, como vemos na imprensa em uma frequência estarrecedora. Um filme sobre violências não precisa de um final trágico, afinal, o cinema pode ser um espaço para fabular a esperança. ■

Nota:
"A Melhor Mãe do Mundo" (2025), de Anna Muylaert - Foto: +Galeria/Divulgação
Foto: +Galeria/Divulgação

A MELHOR MÃE DO MUNDO (2025, Brasil) Direção: Anna Muylaert; Roteiro: Anna Muylaert; Produção: Ricardo Costianovsky, Tomás Darcyl, Gabriel Gurman, Clara Ramos, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Karen Castanho, Anna Muylaert; Fotografia: Lílis Soares; Montagem: Fernando Stutz; Com: Shirley Cruz, Seu Jorge, Rihanna Barbosa, Benin Ayo, Luedji Luna, Rubens Santos, Rejane Farias, Lourenço Mutarelli; Estúdio: Telefilms, Biônica Filmes; Distribuição: +Galeria; Duração: 1h 46min.

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