O body horror (ou “horror corporal”) é um subgênero que está em constante renovação. Com mais proeminência pelo menos desde os anos 1970, este tipo de filme, como outros dentro do gênero terror, tem provocado um misto de fascinação e repulsa em sucessivas gerações de espectadores, refletindo, muitas vezes, medos e desejos específicos de cada época. O que explica o apelo constante do “horror corporal”, porém, é algo mais embrionário: o pavor que todos temos de ver corpos semelhantes aos nossos sendo violados, dilacerados e transmutados.
De tempos em tempos, um novo filme adiciona camadas particularmente perversas a esse medo primal. “O Enigma de Outro Mundo” (1982), de John Carpenter, e “A Mosca” (1986), de David Cronenberg, são exemplares já canônicos do subgênero, feitos nos anos 1980, talvez a década mais frutífera para o body horror. Mais de 40 anos depois, “A Substância” (2024), de Coralie Fargeat, deu nova carne e atraiu novo público, se valendo da mutação violenta do corpo para falar sobre o ocaso imposto às mulheres na indústria do entretenimento. O longa-metragem foi o primeiro do tipo a figurar em premiações raramente simpáticas ao terror (ainda menos ao “horror corporal”), chegando ao ápice de ser indicado a Melhor Filme, Melhor Atriz Principal e Melhor Direção (entre outras categorias) no Oscar 2025. Diante de todo esse sucesso, naturalmente os filmes de body horror voltaram a se destacar. O norueguês “The Ugly Stepsister” (2025), da estreante Emilie Blichfeldt, deu contornos repugnantes ao clássico conto de fadas “Cinderela”. Também de um diretor novato, Michael Shanks, “Juntos” (2025) adiciona uma dinâmica conjugal nova ao horror do corpo.

No filme, o casal Millie (Alison Brie) e Tim (Dave Franco) se muda para o interior após ela aceitar uma oferta de emprego como professora em uma escola primária. No entanto, depois de uma trilha mal-sucedida pela floresta, ambos começam a experimentar uma estranha conexão que levará sua estrutura física e seu relacionamento ao limite, com seus corpos literalmente se mesclando ao longo do filme. O roteiro, também de Michael Shanks, ao lado da montagem assinada por Sean Lahiff, tratam de já estabelecer desde cedo a correspondência que depois será exacerbada, tanto através de imagens quanto do texto falado pelos personagens: no início, um corte seco nos leva de Tim no apartamento na cidade para Millie na escola no campo – ambos de costas –, ligando-os visualmente e estabelecendo o contraste entre ele, um músico fracassado, e ela, uma professora agora no emprego desejado; depois, quando o casal recebe uma visita de Jamie (Damon Herriman), colega de Millie na nova escola, uma conversa tensa entre ela e Tim deixa claro que os dois dependem um do outro para tarefas básicas como cozinhar e dirigir. Mais à frente, Tim começa a sentir, no banho, os efeitos da ligação sobrenatural com Millie, e os movimentos dele passam a espelhar de forma violenta as direções que a esposa toma com o carro enquanto dirige para o centro da cidade.
Porém, é também a nível do roteiro que o filme já demonstra algumas de suas fraquezas, principalmente no terço final: Millie, após impedir que a aglutinação dos corpos continue, resolve levar o marido consigo ao hospital para tratar dos ferimentos decorrentes, mas lembra-se, convenientemente, que esqueceu as chaves do carro na casa de Jamie; ao chegar lá, novamente de forma muito oportuna para a progressão da história, ela encontra uma TV exibindo uma filmagem que explica grande parte das mutações que estão ocorrendo com ela e com o marido. Além disso, e de forma mais estrutural, o longa-metragem parece sofrer de um sério problema de tom. Ao mesmo tempo que muitas cenas procuram parecer sérias e assustadoras em um nível sóbrio, outros momentos contêm piadas e inclinações cômicas que não combinam com o que acabamos de ver ou ainda estamos presenciando. Em um momento tenso do filme, por exemplo, quando o primeiro estágio da fusão entre os dois está prestes a acontecer, Tim retoma uma piada acerca do nome de um medicamento que havíamos visto sendo receitado para ele logo antes, e o humor soa deslocado e bobo, quebrando a tensão que estava sendo construída.
Talvez, entretanto, o principal problema da produção seja a falta de coragem para ir de fato aos extremos da premissa. Tanto em uma cena de sexo importante para o andamento da história quanto no que seria o clímax do horror corporal, vemos muito pouco. Ao contrário então de “A Substância”, por exemplo, que mergulha nas imagens gráficas da mutação corporal, “Juntos” apresenta cenas tímidas, que poderiam ser muito interessantes e impactantes, mas parecem simplesmente não se concretizarem. Na cena em que o casal começa a se aglutinar durante o sexo, por exemplo, o roteiro e a direção poderiam investir em um desfecho muito mais chocante e perturbador, mas preferem uma solução fácil e, no contexto do momento, até mesmo pouco crível, terminando a cena de forma morna e insatisfatória. A transformação final ainda apresenta um uso simplório e demasiadamente literal de “2 Become 1”, das Spice Girls, o que ao mesmo tempo tira o pouco impacto que a cena causa e demonstra a falta de criatividade do realizador para investir no silêncio ou em uma paisagem sonora mais sofisticada.

Claro, Michael Shanks e seu diretor de fotografia, Germain McMicking, conseguem imprimir no filme algumas estratégias de linguagem interessantes para a criação de tensão. Durante a cena da caverna, por exemplo, enquanto Tim conta pela primeira vez uma história traumática de seu passado para a esposa, a única iluminação que vemos vem da pequena fogueira tremeluzente, o que aumenta a instabilidade do local já inóspito onde os personagens estão. Eis aqui, aliás, uma produção de horror iluminada com excelência, com fontes de luz muito bem posicionadas para criar contrastes de claridade e escuridão que também contribuem para a ambientação. O longa-metragem se vale ainda, muitas vezes e com grande eficácia narrativa, de zooms-in e zooms-out nos personagens, principalmente quando o casal está na trilha, aumentando assim a expectativa de que alguma ameaça vai surgir naquele ambiente.
Alison Brie e Dave Franco, a propósito um casal também na vida real, estão muito bem, dentro do que é possível fazer com o roteiro que lhes foi entregue. Ela, com a postura altiva e a voz controlada, e ele, com o rosto instável e a voz entrecortada, conseguem construir de forma satisfatória essa espécie de dupla de opostos que acabam se completando de maneira compulsória. Seria possível dizer que o filme procura tecer algum comentário sobre relacionamentos e dependência afetiva, trazendo uma solução extrema e satírica para as diferenças naturais entre partes da relação, mas nada disso é desenvolvido de maneira minimamente densa em momento algum, ou mesmo parece ser o foco temático do do projeto.
Em certo momento, “Juntos” rejeita o clichê e quebra a expectativa sobre a função de um personagem coadjuvante na trama. Infelizmente, porém, no restante de sua duração o filme opta pela mediocridade, ora sofrendo com a confusão tonal, ora com a falta de coragem para de fato surpreender o público. O longa-metragem parece retirar de um versículo bíblico já célebre sua principal inspiração: “E serão os dois uma carne; e assim já não serão dois […]”. A produção em si, contudo, não consegue juntar suas partes e transformá-las em uma obra coesa, e menos ainda se destacar em meio à vasta quantidade de filmes de horror lançados hoje em dia. Infelizmente, para este filme, nenhum voto de sucesso ou longevidade seria capaz de salvar o que o diretor uniu de forma tão medíocre. ■
filme Pecadores
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