Rabia – As Esposas do Estado Islâmico | Crítica do filme | cinematório
Um dos aspectos mais marcantes da competitiva oficial da edição 2025 do Off Camera International Festival of Independent Cinema, na Cracóvia, foi uma linha muito clara tecida pela programação, unindo o conjunto de filmes. Dos dez longas selecionados, sete foram dirigidos por mulheres. Além disso, dos dez, oito foram protagonizados por mulheres – mais precisamente, jovens garotas –, sendo narrados de um ponto de vista especificamente feminino.
Nos oito filmes, essas jovens protagonistas se deparam com o desafio de tomar decisões morais transformadoras, na mais clássica tradição aristotélica. E, embora não devesse ser, essa proporção ainda é tão incomum e extraordinária na cultura – e nos festivais – de cinema atual, que é impossível assistir à seleção e não ter a sensação de como é raro ver um conjunto de produções focadas em mulheres, suas experiências e desafios na sociedade contemporânea.
Dos dez longas, todos eles estreias na direção, o mais coeso e bem-sucedido é a coprodução franco-alemã-belga “Rabia”, dirigida pela cineasta alemã Mareike Engelhardt. Inspirado em fatos reais, o filme acompanha Jessica (Megan Northam), uma jovem francesa que, junto com sua melhor amiga Laila (Natacha Krief), deixa a vida na França para trás e se muda para a Síria na esperança de se tornar esposa de um combatente do Daech. Ao chegarem a Raqqa, no entanto, seus sonhos inocentes – e tolos – de glória eterna e de ingressar no reino dos céus se transformam num pesadelo, quando se veem presas em uma pensão para futuras esposas, uma prisão macabra saída diretamente de “The Handmaid’s Tale”, comandada pela “Madame” (interpretada pela incrível Lubna Azabal).

Depois que Laila encontra um marido e deixa a amiga por conta própria, o filme de Engelhardt foca na relação complexa, violenta e imprevisível que se desenvolve entre Jessica e a Madame. A jovem protagonista é uma órfã que perdeu a mãe ainda criança, teve que tomar conta do pai (ao invés do contrário) e – como qualquer adolescente ingênua e vulnerável – busca algo que dê sentido à sua vida e sirva de resposta para todos os seus problemas, frustrações e dificuldades. A religião, com suas promessas fáceis de vida eterna, o triunfo do bem sobre o mal, redenção e justiça após o sofrimento terreno revela-se uma saída atraente para a vida miserável em que ela se sente presa.
Nesse contexto, a Madame se transforma em uma clara figura materna substituta – severa e exigente, mas também afetuosa e atenciosa em momentos. O relacionamento delas, como qualquer outro entre mãe e filha adolescente, será uma dança de manipulação e questionamento mútuo, explosão e ternura, espelhamento e crescimento. Mais do que inimigas, a dupla começa a se reconhecer uma na outra, como duas mulheres inteligentes navegando questões de poder, controle e ambição em um sistema violentamente patriarcal que não foi criado para acomodá-las.
Esse reconhecimento mútuo é precisamente o que torna ambas as personagens mais complexas e interessantes. Ele mostra como Jessica não é apenas uma garota ingênua disposta a se submeter a um marido para se sentir validada, e como a Madame não é meramente um monstro caricatural e unilateral que explora jovens meninas em busca de ganho pessoal. Ambas são ambiciosas e imperfeitas, humanas e calculistas, dispostas a quase tudo – até mesmo sacrificar outras mulheres – para sobreviver a uma situação impossível.
E embora “Rabia” seja narrado majoritariamente do ponto de vista de Jessica, com a atuação multifacetada e segura de Megan Northam merecidamente indicada ao prêmio Revelação Feminina no César de 2025, é a Madame de Azabal que se revela a força central e mais intrigante do filme. A personagem, e sua interpretação pela atriz belga – conhecida pelos cinéfilos por seu trabalho impressionante em “Incêndios” e, mais recentemente, em “O Cafetã Azul” –, é uma mulher inteligente e autoconsciente, tão crítica de suas próprias circunstâncias e das decisões (a)morais que toma quanto do mundo ocidental e de como ele enxerga pessoas como ela. Essa nuance e complexidade é o que impede o filme de Engelhardt de ser mais um olhar problemático e crítico de uma cineasta europeia branca, contado do ponto de vista de uma protagonista europeia branca, sobre um recorte do Oriente Médio no qual todos os personagens não-brancos são caricaturas sem subjetividade para além dos clichês do “terrorista” ou “extremista”.
Porque, verdade seja dita, “Rabia” não está muito interessado em seus personagens masculinos. Os homens são “soldados” genéricos e indiscriminados, e potenciais estupradores, aos quais Engelhardt não está disposta a dar muita atenção – a exemplo de como a maioria dos filmes dirigidos por homens não se interessa particularmente pela vida interior de suas personagens femininas. Isso não é exatamente uma falha, mas sim uma escolha consciente e deliberada que torna “Rabia” coeso e focado. O filme não tenta se envolver ou explicar toda a política do conflito que ocorre fora de sua locação central, por não ter o tempo, o escopo – e o objetivo – de fazê-lo.

Na sua estreia em direção de longa-metragem, Engelhardt é ajudada pela trilha musical precisa e onipresente de David Chalmin – acentuando a tensão, os perigos e a imprevisibilidade do suspense da trama; e pela bela fotografia de Agnès Godard, com seus chiaroscuros caravaggianos delineando a tênue linha entre sonho e pesadelo que leva Jessica e Laila à Síria. Inteligentemente, o filme conclui com um final em aberto, que não presume ter respostas definitivas para questões muito complexas que as protagonistas – e o mundo em geral – são incapazes de resolver. É um gesto gracioso que deixa espaço para o/a espectador/a tirar suas próprias conclusões e julgamentos sobre as escolhas questionáveis e imperfeitas das personagens – e que estabelece Engelhardt como um nome promissor cujos próximos passos devem ser acompanhados de perto.
