Premiado com quatro troféus Candango no 58º Festival de Brasília, o longa paraibano “Corpo da Paz” carrega inegáveis contrastes. Dirigido pelo veterano Torquato Joel (dos premiados curtas “Passadouro” e “Pulmão de Pedra”), o filme se revela uma experiência cinematográfica de apurado rigor técnico e sofisticação visual. Contudo, essa mesma precisão estética parece erigir uma barreira que dificulta uma conexão mais profunda com o drama de seu protagonista, resultando em uma obra que se admira mais do que se sente.

Do ponto de vista técnico, “Corpo da Paz” é impecável, e os prêmios de Melhor Fotografia, Direção de Arte, Trilha Sonora e Edição de Som não foram por acaso. A fotografia, banhada em um tom sépia, constrói uma atmosfera poeirenta e melancólica do sertão da Paraíba na década de 1960. Cada enquadramento transforma a paisagem árida em um personagem vivo e opressor. A minúcia da direção de arte e a trilha sonora evocativa complementam essa imersão sensorial, capaz de transportar o público para o cenário de repressão da ditadura militar.
No entanto, onde o filme brilha em sua forma, ele parece tropeçar em sua pulsação narrativa. A trama, que acompanha o jovem Teobaldo em seu conflito interno entre desejo e contenção, é conduzida em um ritmo lento e contemplativo. Embora essa escolha possa ser intencional para refletir a tensão da época e uma aparente prostração, na prática, ela resulta em uma condução que soa engessada. Assim, pode surgir uma certa dificuldade para o espectador se conectar plenamente com os dilemas do protagonista, que se tornam mais observáveis do que propriamente comoventes.

Inspirado em elementos autobiográficos do diretor, o roteiro de “Corpo da Paz” explora o impacto da chegada de um enigmático soldado estadunidense na vida de Teobaldo e na dinâmica social local. Há uma clara ambição em discutir o contexto político e os tormentos íntimos daquele período. Contudo, a abordagem distanciada e o foco na composição visual acabam por sobrepujar a urgência desses conflitos, deixando uma sensação de que a alma da história ficou presa sob a beleza de sua superfície.
“Corpo da Paz” é um filme que definitivamente merece ser visto, seja por seu primor técnico ou pela coragem de revisitar um período sombrio da nossa história. Só é uma pena que deixe um rastro de admiração estética em vez de um impacto emocional duradouro, como um corpo belo e iluminado, mas ao qual falta o calor da paz prometida no título. ■

CORPO DA PAZ (2025, Brasil) Direção: Torquato Joel; Roteiro: Torquato Joel; Produção: Veruza Guedes, Nina Rosa, Metilde Alves, Romero Sousa, Isa-Caires Sousa; Fotografia: Rodolpho de Barros; Montagem: Diego Benevides; Música: Haley Guimarães; Com: Giovanni Sousa, Vinícius Guedes, Alex Oliveira, Fabíola Morais, Rafael Guedes, Pablo Crispim, Jamila Facury e Buda Lira; Estúdio: Criativo, Lúmina Cultural, Narrativa; Duração: 1h 16min.
