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Entre o luto e a criação, “Morte e Vida Madalena“ reflete sobre fazer cinema independente no Brasil

"Morte e Vida Madalena" (2025), de Guto Parente - Foto: Embaúba Filmes/Divulgação

Embaúba Filmes/Divulgação

Premiado pelo júri da crítica no 58º Festival de Brasília e exibido na 19ª Mostra CineBH, após sua estreia mundial no FIDMarseille, “Morte e Vida Madalena”, escrito e dirigido por Guto Parente, é um filme que fala tanto sobre a angústia de sua protagonista quanto sobre um modo de fazer cinema no Brasil. O longa acompanha Madalena, interpretada por Noá Bonoba, uma produtora grávida de oito meses que tenta concluir um filme de ficção científica escrito pelo pai recém-falecido, enquanto enfrenta o caos de sua vida pessoal e profissional.

Em diálogo com “Estranho Caminho”, seu também premiado longa anterior, Parente se volta para o próprio ofício e decide filmar o trabalhador do cinema — não o dos grandes estúdios ou das produções de mercado, mas o realizador independente, de baixo orçamento, que resiste às margens do eixo industrial. A homenagem ao meio onde o diretor começou e no qual se mantém, trabalhando com pequenas equipes locais, estende-se ao tom do longa: entre a comédia, o drama e a metalinguagem, “Morte e Vida Madalena” flerta com o absurdo e o surrealismo, mas sem perder de vista a realidade precária, mas intensa de quem não desiste de fazer cinema no Brasil.

"Morte e Vida Madalena" (2025), de Guto Parente - Foto: Embaúba Filmes/Divulgação
Embaúba Filmes/Divulgação

A personagem Madalena funciona como síntese dessa condição. Sua gravidez é metáfora e fato: corpo em transformação, às voltas com a responsabilidade de dar à luz tanto a uma vida quanto a um filme. A sobreposição de luto e criação revela a força de uma narrativa que não se fecha em símbolos, mas que encontra no gesto de filmar uma maneira de elaborar a ausência e afirmar a persistência.

Filmado no Ceará, o longa também reforça o território como parte essencial da dramaturgia. Não é apenas cenário, mas um espaço afetivo e cultural que molda personagens e situações. O elenco, que reúne nomes como Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo, David Santos e Carlos Francisco (em duas pequenas, mas marcantes participações), contribui para essa atmosfera de cinema coletivo, feito em parceria e cumplicidade. A trupe no set sofre e se diverte junta, seja no caos hilário das filmagens (com direito a um diálogo antológico que coloca Stanley Kubrick e um paredão de som na mesma frase), seja na comunhão catártica na festa de karaokê ao som de Jessé.

"Morte e Vida Madalena" (2025), de Guto Parente - Foto: Embaúba Filmes/Divulgação
Embaúba Filmes/Divulgação

Do ponto de vista formal, há momentos em que a precariedade do filme dentro do filme se torna motor de invenção estética, ecoando a história do próprio cinema brasileiro independente. Ao mesmo tempo, o próprio Parente se permite experimentar com pausas, silêncios e rupturas, criando uma narrativa fílmica que reflete tanto sobre sua protagonista quanto sobre o próprio ato de fazer cinema.

Parente, que há duas décadas transita entre gêneros e linguagens em títulos como “Inferninho”, “O Clube dos Canibais” e “Estrada para Ythaca”, reafirma aqui sua capacidade de criar um cinema híbrido, situado entre o humor, a melancolia e o delírio. Em “Morte e Vida Madalena”, o gesto de filmar é também um gesto de sobrevivência.

"Morte e Vida Madalena" (2025), de Guto Parente - Foto: Embaúba Filmes/Divulgação
Embaúba Filmes/Divulgação

O filme pode ser visto como um espelho, não apenas para quem faz cinema, mas para qualquer um que já se viu às voltas com o desafio de seguir em frente em meio à perda e ao caos. A história de Madalena é também sobre o encontro de si mesma. Ela insiste em terminar o filme do pai porque, de algum modo, aquele é também o seu filme — uma teimosia criativa que traduz a realidade de muitos artistas brasileiros.

Na tela, morte e vida não aparecem como opostos, e sim como experiências entrelaçadas. Ao final, nós não acompanhamos apenas a jornada da protagonista, mas uma declaração de princípios: um cinema que se mantém vivo, mesmo quando tudo parece conspirar contra. ■

Nota:

MORTE E VIDA MADALENA (2025, Brasil) Direção: Guto Parente; Roteiro: Guto Parente; Produção: Ticiana Augusto Lima; Fotografia: Ivo Lopes Araújo; Montagem: Guto Parente & Irmãs Augusto Lima; Música: Paulo Gama; Com: Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo, David Santos, Honório Félix, Jennifer Joingley, Linga Acácio, Rodrigo Fernandes, Souma, Tavares Neto, Lui Fontenele, Armando Praça, Tuan Fernandes, Carlos Francisco, Raul Lôbo; Estúdio: Tardo Filmes, Canal Brasil, C.R.I.M.; Distribuição: Embaúba Filmes; Duração: 1h 25min.

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