Dirigido por Karen Suzane e premiado no 58º Festival de Brasília, “Quatro Meninas” é um filme que se destaca pela ambição estética e pela delicadeza no tratamento de suas imagens. Ambientado no Brasil escravocrata de 1885, a trama acompanha Tita, Lena, Francisca e Muanda — quatro jovens negras encarregadas dos cuidados pessoais de estudantes brancas em um internato no interior. O ponto de partida é instigante: vislumbrar, pela perspectiva das meninas escravizadas, a linha tênue entre sobrevivência e liberdade, quando um plano de fuga acaba envolvendo também aquelas que até então eram as suas sinhás.
Do ponto de vista formal, o longa causa uma boa impressão. A fotografia assinada por Thais Faria explora com sensibilidade a atmosfera bucólica das locações no Alto da Boa Vista e na Ilha de Guaratiba, no Rio de Janeiro, enquanto a direção de arte recria o universo de época com riqueza de detalhes, ainda que se aproxime, por vezes, da estética das tradicionais novelas históricas da Rede Globo. A beleza das composições visuais e o cuidado com a mise-en-scène conferem ao filme um acabamento refinado.

O elenco é outro ponto alto. Apesar da pouca experiência, as quatro atrizes principais imprimem carisma e força dramática às personagens, transmitindo tanto a vulnerabilidade da juventude quanto a determinação de quem sonha com a liberdade e horizontes menos estreitos. Nota-se a mão cuidadosa da direção de elenco, que extrai delas uma energia natural e cativante. E aqui o elogio é para as quatro meninas do título: Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes, Maria Ibraim. Infelizmente, na premiação do Festival de Brasília, o júri optou por reconhecer apenas o trabalho de Dhara Lopes e Maria Ibrain — e ainda as separou erroneamente entre atriz principal e coadjuvante.
No entanto, é justamente no campo da dramaturgia que “Quatro Meninas” deixa arestas. Os diálogos são marcados por um formalismo que soa artificial, aproximando-se mais de uma encenação televisiva do que de uma fala viva e orgânica. Essa opção prejudica a espontaneidade do elenco, sobretudo em um filme que se propõe a articular opressão e afeto nas relações entre as personagens.

Outro aspecto que merece reflexão é a forma como”Quatro Meninas” lida com seu tema central. Ao tensionar as vivências de jovens negras escravizadas e de moças brancas privilegiadas dentro de um mesmo espaço de fuga e convivência, o filme levanta questões urgentes sobre gênero e raça. Entretanto, há uma ambiguidade nessa proposta: se, de um lado, o longa assume um discurso feminista apoiado na ideia de sororidade, de outro, parece não avançar com clareza sobre os limites impostos pela brutalidade da escravidão. O risco dessa abertura é diluir a desigualdade histórica em nome de um gesto utópico de reconciliação.
No entanto, cabe notar que essa ambivalência nos devolve o incômodo de enfrentar contradições ainda hoje presentes. Assim, entre seus méritos artísticos e o questionamento ético, “Quatro Meninas” se afirma como uma estreia de relevância de Karen Suzane na direção de longas. Talvez o maior mérito do filme seja justamente provocar debates que ultrapassam a tela, sobre as possibilidades e impasses de se representar, em 2024, um passado que ainda reverbera na nossa sociedade hoje. ■
QUATRO MENINAS (2025, Brasil) Direção: Karen Suzane; Roteiro: Clara Ferrer; Produção: Marcello Ludwig Maia; Fotografia: Thais Faria; Montagem: Nina Galanternick; Música: Fernando Aranha, Guga Bruno; Com: Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes, Maria Ibraim, Duda Batsow, Duda Matte, Gabi Cardoso, Giovanna Rispoli, João Vitor, Dani Ornellas, Raquel Karro, Stella Rabello, Eric Max; Estúdio: República Pureza Filmes, Filtro Filmes, Canal Brasil, Telecine; Distribuição: ArtHouse, Filmes do Estação; Duração: 1h 29min.
