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Festival de Brasília exibe “São Paulo Sociedade Anônima” em cópia recém-restaurada

"São Paulo Sociedade Anônima" (1965), de Luís Sérgio Person - Divulgação

Assim como o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme “São Paulo Sociedade Anônima”, de Luiz Sergio Person, comemora 60 anos em 2025. E a celebração desta efeméride dupla aconteceu em sessão especial no Cine Brasília, com a exibição da versão restaurada em 4k do longa. A sessão foi apresentada pela filha do diretor, Marina Person, acompanhada de sua mãe, Regina Jehá, ambas também cineastas.

O restauro de “São Paulo Sociedade Anônima” é resultado de uma parceria entre a Cinemateca Brasileira e a Cineteca de Bologna, que receberam total apoio da família de Luiz Sergio Person (falecido em 1976) e patrocínio da The Film Foundation, de Martin Scorsese, no âmbito do World Cinema Project, através de financiamento da Fundação Família Hobson/Lucas.

A restauração

As matrizes em película de imagem e som do longa-metragem vinham sendo conservadas há anos pela Cinemateca Brasileira, juntamente com outros materiais que compõem o acervo de Person e da sua produtora, Lauper Filmes, atualmente administrada por Regina e Marina.

Os negativos de imagem foram enviados para o laboratório L’Immagine Ritrovata, em Bologna, para escaneamento em 4k e restauração da imagem. O trabalho foi acompanhado de perto pelo diretor de fotografia do filme, Ricardo Aronovich, e por Lauro Escorel, consultor técnico do laboratório da Cinemateca Brasileira. A restauração do som ficou a cargo de José Luis Sasso, com acompanhamento técnico da Cinemateca.

A primeira exibição da cópia aconteceu no dia 26 de junho, no Festival Il Cinema Ritrovato, dedicado à exibição de títulos clássicos e raros do cinema mundial. Após a pré-estreia em Brasília, o filme terá novas exibições para o público brasileiro ao longo deste semestre.

"São Paulo Sociedade Anônima" (1965), de Luiz Sergio Person - Foto: Lauper Films/Divulgação
Foto: Lauper Filmes/Divulgação

Um homem não é uma máquina

Não é à toa que “São Paulo Sociedade Anônima” é considerado um dos melhores filmes da história do cinema brasileiro. Filmado por Luiz Sérgio Person no início da década de 1960, o longa até hoje é capaz de produzir ressonâncias temáticas, não só em nossa sociedade, mas em qualquer outra onde o indivíduo de classe média se vê sem direção em meio às preocupações que leva de casa para o trabalho e vice-versa.

Nesta crônica da cidade grande, Walmor Chagas interpreta Carlos, um jovem homem que larga o emprego em uma grande empresa para trabalhar como gerente de uma fábrica de auto-peças. Entre a troca de trabalho e a tentativa de subir rápido na vida, Carlos se envolve com três mulheres, cada qual com uma personalidade peculiar: Luciana (Eva Wilma) é a “certinha”, com quem se casa; Ana (Darlene Glória) o atrai pelo olhar ambicioso; e Hilda (Ana Esmeralda) é a paixão do passado, com quem ele dividia os mesmos ideais.

O protagonista, visto principalmente sob as lentes dos dias atuais, surge da metástase de uma sociedade patriarcal e capitalista. Agressivo com as mulheres e arrogante com sua própria existência, ele é um sujeito a princípio indigno de empatia. Mas se o filme cria espaço para que Carlos seja compreendido, muito se deve a Walmor Chagas. O ator compõe um personagem introspectivo, que ao longo do filme demonstra um olhar cansado e indiferente durante suas constantes caminhadas pela cidade. Esse aspecto blasé representa um sentimento geral que pode ser observado nas pessoas que vivem nas metrópoles: tudo parece se tornar desinteressante com a rotina diária. Os pedestres, prédios, carros, placas. Nada espanta. Tudo é tédio.

"São Paulo Sociedade Anônima" (1965), de Luiz Sergio Person - Foto: Lauper Films/Divulgação
Foto: Lauper Filmes/Divulgação

Para retratar esse sentimento de angústia de seu protagonista, Person cria uma narrativa reflexiva, subjetiva por excelência: em vários momentos ouvimos os pensamentos de Carlos, praticamente como se o filme se passasse em sua cabeça. O que se vê na tela é também o que ele vê. A não-linearidade dos acontecimentos é uma amostra disso, já que a memória do personagem também é uma das guias da história, indo e voltando no passado a fim de ligar um evento a outro.

Por Carlos ser um homem solitário (nunca o vemos na companhia da família ou amigos, as únicas pessoas com quem ele convive são suas amantes e os amigos e parentes delas), Chagas está praticamente em todas as cenas do filme. Duas em particular chamam a atenção: aquela em que, embriagado após o reveillon, ele grita o nome de Luciana em frente à casa da moça e quebra garrafas na rua; e a seqüência em que ele repete “Aceitar, recomeçar!”, quase como um mantra. A montagem desta segunda faz uma analogia do homem como engrenagem da cidade e estabelece aquele que é o principal conflito do longa: “recomeçar” é viver em ciclo, como uma máquina. Mas o homem não é uma máquina, logo, sua vida pessoal e afetiva dificilmente se adequará a uma rotina mecânica.

Meu professor de sociologia na faculdade de Jornalismo (o saudoso “Kika”) disse certa vez, em aula, que um dos grandes perigos que o indivíduo da sociedade urbana e consumista corre é confundir “utilidade” com “felicidade”. É um pensamento que não se aplica apenas aos tempos de hoje, quando ele se encontra intensificado. Vem de longa data e “São Paulo Sociedade Anônima” o reflete bastante. O valor do filme é ainda maior quando pensamos que, numa época em que a principal preocupação era o desenvolvimentismo, Person virou sua câmera para o homem e viu que dentro dele havia uma revolução contida, suprimida por um maquinario impessoal que o enxergava como mera peça para seu funcionamento.

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