O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro encera sua 58ª edição neste sábado, 20 de setembro, reforçando o papel histórico de palco para experimentações e debates políticos, sociais e culturais. No último dia da programação, às 11h, o Cine Brasília recebe a sessão especial de “O Socorro Não Virá”, filme dirigido por Cibele Amaral que propõe uma combinação rara no audiovisual nacional: ficção científica e comédia.
A produção se insere em um evento que, desde 1965, é reconhecido por dar visibilidade a narrativas que refletem as tensões do país e a diversidade de formas de fazer cinema. Conhecido como o festival mais longevo do Brasil, o Festival de Brasília abre espaço tanto para obras de forte caráter político quanto para propostas inovadoras de linguagem. Nesse contexto, a estreia de uma comédia sci-fi marca uma bem-vinda ampliação de fronteiras do nosso audiovisual
Entre Asimov e o stand-up

O projeto nasceu há cerca de 20 anos, inspirado em autores como Isaac Asimov, Frank Herbert e Philip K. Dick, além dos estudos de Stephen Hawking, com um roteiro que explorava os primórdios da inteligência artificial e o surgimento de super-humanos. Com o passar do tempo, Cibele Amaral adaptou sua ideia inicial para uma narrativa que incorpora humor e metalinguagem. “Naquele momento, 20 anos atrás, eu não sonhava em fazer um filme desse gênero, não dava para sonhar com isso. Até que surgiu uma ideia para viabilizá-lo, criando uma comédia de ficção científica”, conta a diretora.
O elenco reúne artistas que vêm de trajetórias distintas. Fábio Rabin e Criss Paiva, amigos de longa data com carreiras ligadas à comédia stand-up, estreiam como protagonistas de longa-metragem. Rabin interpreta um diretor de comerciais que sonha em realizar ficção científica: “Logo na primeira cena, eu fiquei travado, de tão impressionado que eu estava com esse momento. Mas a Cibele soube me acessar rapidamente, com muito carinho e bom humor. O personagem vive um conflito entre realidade e sonho, algo que muita gente se identifica.”
Para Paiva, o filme simboliza a realização de uma etapa: “Já tinha feito dublagem, teatro, roteiro… Só faltava o cinema. Aí veio a Cibele e confiou em mim. E o que acho tão maravilhoso é o fato do filme cruzar tantas barreiras dentro do audiovisual. Porque é aquilo: parece impossível até que alguém faz.”
Brasília como cenário e metáfora
A própria escolha da capital federal como palco das filmagens carrega um peso simbólico. Conhecida pela arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e pelo urbanismo de Lúcio Costa, Brasília já foi associada tanto a utopias quanto a distopias nacionais. Cibele Amaral explica: “A arquitetura da capital brasiliense foi sensacional. A cidade trouxe um arsenal de possibilidades de locações futuristas.”
Foram construídos cenários inéditos, como uma aldeia e uma casa subterrânea numa floresta, somando-se a figurinos e efeitos visuais pensados para dialogar com grandes produções internacionais. Para o produtor Patrick de Jongh, o processo reafirma uma possibilidade: “Queríamos provar que é possível fazer ficção científica no Brasil. O filme impressiona pelo visual, pelo som, pelos efeitos especiais e pela força das atuações.”
Diversidade de vozes e formatos

Além de Rabin e Paiva, o longa conta com Cláudio Heinrich, que retorna ao cinema após duas décadas, interpretando múltiplos personagens. Muito lembrado por novelas como “Malhação” e “Uga Uga”, e filmes como “Sonho de Verão” e “O Gaúcho Negro”, ele destaca: “Foi algo totalmente distinto de tudo que já fiz na carreira. Foi divertido transitar entre um ator de teatro, protagonista de um sci-fi e um galã romântico. Quanto mais detalhes e particularidades o personagem tem, mais fácil é para o ator trabalhar.”
De Jongh cita ainda as referências ao universo geek e ao cosplay como inspiração para a construção estética, revelando uma tentativa de aproximação com comunidades culturais que vão além da sala de cinema. “Claro, ‘Star Wars’ foi uma das grandes referências que inspiraram a construção do nosso universo. Nós nos inspiramos no universo geek, inclusive buscando profissionais da área. Além disso, exploramos o mundo dos cosplayers, adaptando essas visões à nossa realidade e à nossa própria percepção criativa para a trama”, diz o produtor.
Entre tradição e reinvenção
O Festival de Brasília completa 60 anos em 2025. Ao longo de sua história, já foi palco para a consagração de cineastas como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Andrea Tonacci, Anna Muylaert e Adirley Queirós. A presença de “O Socorro Não Virá” na seleção deste ano se insere na tradição do festival de exibir obras que provocam novas leituras sobre a identidade nacional no cinema.
A diretora resume a expectativa: “Estamos honrados com a oportunidade de estar na seleção deste ano e entregar nosso filme nos braços dessa audiência tão calorosa e expressiva. Será um momento único para todos.”


Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

