Bom Menino (Good Boy, 2025), de Ben Leonberg - Foto: Paris Filmes/Divulgação
Paris Filmes/Divulgação

“Bom Menino”: O olhar do cão e o horror do humano

Um filme de terror contado por um olhar que raramente tem lugar de fala — ou, neste caso, de ponto de vista. Em “Bom Menino”, o diretor e roteirista Ben Leonberg, em sua estreia em longa-metragem, transforma seu próprio cachorro em protagonista e também em seu olhar narrativo. Uma escolha que determina toda a gramática do filme: a câmera opera na altura dos olhos do animal, evitando mostrar o rosto das pessoas e restringindo nosso acesso ao mundo a partir da perspectiva canina. É uma solução estilística e não realista, já que cães enxergam bem as expressões humanas; mas, ao eliminá-las, Leonberg cria uma mediação poética e inquietante entre nós e as imagens.

Logo na abertura, “Bom Menino” nos mostra a origem do cão Indy (nome que evoca o herói arqueólogo criado por Steven Spielberg) por meio de uma montagem de filmagens caseiras — aparentemente reais, registradas pelo próprio diretor, que tem no tutor do animal o seu alterego. O personagem humano sofre de uma doença pulmonar crônica, e a narrativa constrói sua decadência física: a tosse, o sangue e o cansaço do dono ganham, aos poucos, o mesmo estatuto de ameaça sobrenatural dos monstros viscosos e criaturas sombrias que surgem na floresta e na casa isolada do avô, para onde ele se muda com Indy.

Filmado como uma fábula expressionista, “Bom Menino” recorre a enquadramentos angulados, sombras recortadas e formas geométricas para compor o ambiente sob o olhar de Indy: um mundo de perspectivas tortas e luz rarefeita, cuja deformação não é apenas visual, mas emocional. O filme todo se sustenta nessa ambiguidade: o que vemos é um universo estranho porque o ponto de vista é estranho. O cão não compreende inteiramente o que ocorre, e o espectador, imerso nesse mesmo desconhecimento, compartilha sua confusão e medo.

Essa relação de empatia é construída não por sentimentalismo, mas por um rigor de montagem. O diretor aplica o princípio do efeito Kuleshov com precisão: o olhar de Indy para o extracampo, seguido por um corte para algo que o ameaça, cria uma impressão emocional que o animal, evidentemente, não “interpreta”, mas que nós completamos no imaginário. O espectador, assim, é quem dá forma à emoção, projetando nela suas próprias experiências. É um gesto simples, mas que demonstra o domínio de Leonberg sobre um dos recursos mais essenciais da linguagem cinematográfica.

Bom Menino (Good Boy, 2025), de Ben Leonberg - Foto: Paris Filmes/Divulgação
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Bom Menino (Good Boy, 2025), de Ben Leonberg - Foto: Paris Filmes/Divulgação
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O filme também ganha força por sua recusa a uma convenção quase inescapável no cinema com animais: a narração em off. Não há voz humana para “traduzir” os pensamentos de Indy, tampouco um artifício que o humanize. É um ato de coragem que só o cinema independente permite, além de preservar o mistério e, paradoxalmente, a autenticidade do personagem. Ao se abster de dar voz ao cão, o diretor garante a ele o direito de também existir no cinema como indivíduo senciente.

A história se passa em um local cercado por mata e próximo a um pequeno cemitério — referência explícita a “Cemitério Maldito”, de Stephen King, tanto na ambientação quanto na ideia de retorno dos mortos. Naquele espaço entre o doméstico e o monstruoso, o tutor doente tenta manter a rotina de cuidados com Indy, mas a doença avança, e o cachorro começa a reagir a presenças invisíveis. A sugestão de que algo se move no escuro é mais perturbadora que os jump scares ocasionais, que existem, mas funcionam como pontuação, não como o espetáculo principal.

Leonberg, porém, não se contenta em fazer apenas um terror de atmosfera. Ele insere, de maneira sensível, observações sobre a vida emocional dos animais. A sequência do pesadelo canino é um dos grandes acertos do filme: enquanto Indy dorme, é como se a mente dele fosse invadida por memórias ou imagens de outro mundo. Para quem convive com cães, há ali um reconhecimento imediato, do tremor involuntário das patas, o breve latido durante o sono, a fronte enrugada pelo susto.

Nisto há o mérito da recusa ao CGI para “substituir” o cachorro. Isso garante às cenas uma fisicalidade rara, sobretudo em tempos em que o digital domina até o que é supostamente íntimo. Indy é um corpo presente: respira, reage, ocupa o quadro. Essa materialidade dá consistência ao irreal, tornando o fantástico palpável, mesmo nas cenas mais surreais.

Bom Menino (Good Boy, 2025), de Ben Leonberg - Foto: Paris Filmes/Divulgação
Foto: Paris Filmes/Divulgação

Há, evidentemente, clichês de gênero em “Bom Menino”, como a casa isolada, o som que vem do porão, as sombras que ganham corpo. Mas o que diferencia o filme é a sua coerência de concepção. Leonberg usa o horror não para assustar, mas para investigar a linguagem, apropriando-se da estilização expressionista e fazendo uso eficiente de recursos de montagem. A visão do animal aqui é usada para filmar esse entrelugar da experiência canina (claro, sob o olhar humano em última instância) com uma sinceridade rara no terror contemporâneo, que tantas vezes se rende ao cinismo ou à ironia. É um filme é pequeno em escala (rodado ao longo de três anos com equipe enxuta e baixo orçamento), mas grande em invenção formal e emoção.

No clímax, o filme ainda atinge uma nota trágica e comovente. O dono desaparece — talvez levado pela morte, talvez pelas forças que rondam o lugar —, e Indy permanece na porta, à espera. Essa imagem, simples e devastadora, resume o que há de mais universal na história: a fidelidade incondicional de um ser que não compreende o tempo, apenas a ausência. Quando Indy se põe ali, imóvel, diante da escuridão, o terror, então, se desdobra em melancolia. E é nesse ponto que “Bom Menino” encontra sua dimensão mais humana. ■

Nota:

BOM MENINO (2025, EUA) Direção: Ben Leonberg; Roteiro: Ben Leonberg, Alex Cannon; Produção: Ben Leonberg, Kari Fischer; Fotografia: Ben Leonberg, Wade Grebnoel; Montagem: Curtis Roberts; Música: Sam Boase-Miller; Com: Indy, Shane Jensen, Arielle Friedman, Larry Fessenden; Estúdio: What’s Wrong With Your Dog?; Distribuição: Shudder, Paris Filmes; Duração: 1h 13min.

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