Grande vencedor do 58º Festival de Brasília, onde levou os Candangos de Melhor Filme, Roteiro e Montagem, além de uma menção especial para o ator Zé Maria Pescador, “Futuro Futuro” reafirma Davi Pretto como um dos nomes mais inquietos do cinema brasileiro contemporâneo. O diretor, que já havia transformado Porto Alegre em cenário para o drama fantasmagórico “Castanha” (2014) e o faroeste “Rifle” (2017), retorna à sua cidade natal para recriá-la como metrópole distópica marcada pela crise climática, pela gentrificação urbana, pela desigualdade social e por um novo estágio avançado da inteligência artificial.
A trama acompanha K (Zé Maria Pescador), um homem sem memória que vive em uma cidade chuvosa e empobrecida de um futuro não muito distante do nosso tempo. Existencialmente perdido, ele encontra acolhimento em Silvio (João Carlos Castanha) e passa a experimentar um dispositivo chamado “Oráculo”, espécie de game viciante que mistura simulação, IA generativa e delírio tecnológico. A partir daí, K embarca em uma jornada que é ao mesmo tempo íntima e alegórica, evocando referências clássicas do gênero, de autores como Philip K. Dick, Isaac Asimov e George Orwell, mas reinterpretadas dentro de um imaginário brasileiro atual.

Pretto assumiu o risco de usar inteligência artificial não apenas como tema, mas como recurso visual e narrativo. O filme, cuja produção foi interrompida pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, incorporou imagens criadas com ferramentas de IA como solução para terminar as filmagens e, ao mesmo tempo, como gesto estético. O resultado é um híbrido de estranhamento e perspectiva empolgante, como se estivéssemos diante de um imaginário de (para citar Dick) sonhos elétricos.

Narrativamente, porém, “Futuro Futuro” é lacônico e progride de maneira lenta, quase impessoal. É um aspecto que torna a conexão com o filme difícil a princípio, ma encontra ressonância na proposta do diretor de fazer uma ficção científica de baixo orçamento, experimental, que privilegia a sensação e a atmosfera em detrimento da ação. O apuro visual é evidente, mas a condução por vezes parece fria. É principalmente a atuação de Zé Maria Pescador que injeta humanidade ao longa, equilibrando a dureza da forma com fragilidade e carisma.

O longa se insere em um debate urgente: ao colocar sua distopia na tela, Pretto dialoga diretamente com catástrofes reais (as enchentes de 2024, a pobreza, a desigualdade) e com as transformações políticas, cognitivas e sociais trazidas pelas novas tecnologias. Nesse sentido, “Futuro Futuro” não é apenas ficção: é comentário sobre um país em colapso ambiental, uma sociedade perigosamente influenciada e dessensibilizada pela esfera virtual e um homem comum que se vê desnorteado nesse cenário de sensações e relações emuladas.
É um filme provocativo, arriscado e necessário, que propõe um exercício imaginativo sobre um mundo possível — e ameaçador — que já desponta no horizonte para se impor sobre nós. Ao mesmo tempo, sua própria existência diante de circunstâncias tão adversas de produção se traduz com uma declaração de persistência do cinema independente brasileiro. ■

FUTURO FUTURO (2025, Brasil) Direção: Davi Pretto; Roteiro: Davi Pretto; Produção: Paola Wink, Jessica Luz; Fotografia: Leonardo Feliciano; Montagem: Bruno Carboni; Música: Rita Zart, Carlos Ferreira; Com: Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro, Olivia Torres; Estúdio: Vulcana Cinema; Duração: 1h 26min.

Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

