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Blues, horror e memória em “Pecadores” – Entrevista

"Pecadores" (Sinners, 2025), de Ryan Coogler - Warner Bros./Divulgação

Warner Bros./Divulgação

Desde a crueza de “Fruitavale Station: A Última Parada” até a grandiosidade de “Pantera Negra”, Ryan Coogler demonstra interesse profundo em investigar e revelar camadas da humanidade sob tensões sociais, políticas e culturais. Em “Pecadores”, o cineasta nos leva até o Mississippi dos anos 1930, orquestrando uma obra que desafia categorizações simples. Em entrevista coletiva, o diretor contou que a gênese do filme está no impacto cultural de uma era negligenciada pelo cinema de gênero: “Percebi que essa música criada por afro-americanos na década de 1930 tornou-se, de certa forma, música pop global, cultura pop global, e não havia um filme que explorasse isso. Fundi esse contexto com elementos de gênero com os quais eu queria trabalhar pela primeira vez e isso foi o que, essencialmente, deu vida ao projeto”.

Após a perda de seu tio em 2015, Coogler encontrou no Blues um canal de conexão emocional que ditou o ritmo no set. Essa imersão musical fez com que o elenco veterano, liderado por Delroy Lindo no papel de Delta Slim, se dedicasse bastante ao assunto. Lindo, conhecido por seu trabalho meticuloso, explicou que seu processo foi totalmente guiado pela sonoridade da época: “Ouvi muita música. Caras como Son House, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Ike Turner… Eu apenas me mergulhei na música. Então, houve esse componente de pesquisa intenso, o que é consistente com a forma como trabalhei em outros filmes históricos”. Essa profundidade transparece na tela, onde a performance de Lindo em monólogos parece, nas palavras do próprio diretor, uma forma de “possessão” artística em meio às plantações de Louisiana.

Uma das maiores forças do cinema de Coogler reside na sua habilidade de entrelaçar as raízes da diáspora africana, convergindo-as em uma narrativa coesa, integradora, ao mesmo tempo em que abraça sua pluralidade e contradições. Wunmi Mosaku, que interpreta Annie, destacou como o diretor elimina barreiras geográficas e culturais entre negros de diferentes origens, criando um ambiente de acolhida às vulnerabilidades para que os atores possam entregar o seu melhor. Sobre a preparação para o filme, Mosaku revelou: “Construímos um nível de confiança, abertura e segurança para realmente explorar esse amor, esse luto, e nossas diferenças. Nós apenas compartilhamos de verdade. Acho que essa é a maneira mais rápida de confiar no seu parceiro de cena e ser livre, é apenas se abrir, e foi o que fizemos”. Essa filosofia de trabalho permitiu que o luto e o medo fossem explorados sem artifícios, ancorando os elementos sobrenaturais do filme em emoções cruas e reconhecíveis.

A atmosfera de cuidado e reverência à cultura também inspirou os novos talentos. Miles Caton, que veio do mundo da música para sua estreia cinematográfica, descreveu a experiência como um aprendizado sobre integridade artística. Para ele, a genialidade de Coogler está na consistência de sua visão: “As histórias, a atenção aos detalhes e o que ele faz pela cultura… isso permanece verdadeiro em qualquer gênero que ele faça. Então, senti-me muito abençoado por fazer parte de algo que era real e especial”. Caton ressaltou que, mesmo com uma equipe de centenas de pessoas e as pressões de uma grande produção, o diretor mantinha um foco pessoal em cada colaborador, garantindo que o progresso individual de cada um contribuísse para a alma do filme.

No epicentro dessa jornada está Michael B. Jordan, cujas colaborações com Coogler já fazem parte do cânone contemporâneo. Em Pecadores, Jordan enfrenta o desafio de interpretar os gêmeos idênticos Smoke e Stack, personagens de temperamentos opostos: enquanto Smoke busca paz após perdas profundas, Stack recorre ao carisma e à audácia para ocultar as próprias feridas. Jordan explicou que a experiência de viver os dois papéis simultaneamente trouxe novas perspectivas sobre a natureza humana: “Eu aprendi que sempre há duas maneiras de fazer algo. Nunca há apenas um jeito de realizar o trabalho. E você vê isso com Smoke e Stack, quando eles têm diferenças de estratégia, opiniões e abordagens”. Essa dualidade também é sustentada por inovações como o Halo Rig, tecnologia de captura de movimento, com 10 a 12 câmeras ao redor do rosto do ator. Isso permitiu a Jordan confrontar a si mesmo em sequências de luta (coreografadas com precisão e com apoio de um dublê), que mantêm o público atento do início ao fim. 

"Pecadores" (Sinners, 2025), de Ryan Coogler - Warner Bros./Divulgação
Warner Bros./Divulgação

O horror como espelho social

Durante a entrevista coletiva, minhas perguntas ao Michael B. Jordan foram especificamente sobre o gênero do horror, o que o torna um terreno tão fértil para explorar questões humanas e sociais e se existe algum tipo de preparação para o ator ou elaboração de personagem que Jordan considerasse únicos desse gênero. Ao responder, ele também sintetizou uma das questões essenciais do filme. 

“Penso que, quando se trata do Sul Profundo e da era Jim Crow, na década de 1930, é um momento na história americana e na história afro-americana que constituiu um marco, com muitos momentos revolucionários, especificamente para a nossa narrativa: o nascimento do Blues, do Delta Blues e de como a música Blues influenciou e se espalhou pelo mundo em tantos níveis diferentes que influenciaram os gêneros musicais que ouvimos hoje, tudo remonta à música Blues. Por isso, achei que era extremamente importante contar essa parte da história e mergulhar naquilo que moldou as coisas que hoje damos por garantidas.”.

Jordan aprofundou essa análise ao explicar que o horror em “Pecadores” não é um fim em si mesmo, mas um veículo para expor o trauma. Ele argumentou que todos somos moldados pelas experiências da infância, feridas que ou enfrentamos ou enterramos profundamente. Para os gêmeos, o verdadeiro horror reside na luta para manter a família e encontrar liberdade em um período de opressão sistêmica.

“No caso do Smoke e do Stack, eles lidaram com isso de duas maneiras diferentes. Então, para mim, foi importante falar com gêmeos, com tantos gêmeos idênticos quanto possível, e entrar na cabeça deles para perceber qual era a sua experiência do dia-a-dia e que tipo de ligação eles realmente têm. Mas também uma grande parte desta história são as suas companheiras, Mary e Annie. Como são suas relações, como interagem entre si? Quão difícil é para elas encontrarem o seu próprio espaço nessa dinâmica? E elas foram interpretadas pelas maravilhosas Wunmi Mosaku e Hailee Steinfeld, que fizeram um trabalho incrível, foram ótimas parceiras de cena. Da mesma forma, as outras personagens estavam lá compondo esse mundo, o figurino, a música, simplesmente tudo o que o Ryan criou… Este filme me deu a oportunidade de fazer o meu melhor trabalho.

O ator também comentou que, ao filmar em campos reais de cana-de-açúcar e algodão na Louisiana, sentiu a presença de seus próprios antepassados, transformando o filme em uma “carta de amor” aos seus avós e bisavós. O resultado pode ser conferido na densidade da obra, onde o medo sobrenatural reflete horrores históricos bem reais.

"Pecadores" (Sinners, 2025), de Ryan Coogler - Warner Bros./Divulgação
Warner Bros./Divulgação

A importância da arte

A recepção de “Pecadores” sinalizou um desejo latente do público por originalidade e risco criativo. Jordan observou que o mundo está pronto para filmes que dobram as regras dos gêneros tradicionais e celebram ideias autorais. O sucesso de bilheteria e crítica reafirma que produções que respeitam a inteligência do espectador e a verdade histórica possuem longevidade. O filme entretém, mas também faz refeltir sobre a força das comunidades que lutaram e criaram arte revolucionária mesmo sob a sombra da segregação.

Jordan ainda define o filme como uma “refeição completa para a alma”, concebida para que o público percorra um espectro emocional que vai do riso ao pranto, do medo à inspiração. É, acima de tudo, um convite à alteridade, evocando realidades que ressoam universalmente. Ao fundir horror, história e a pulsação imortal do Blues, Ryan Coogler, Michael B. Jordan e toda a equipe colhem os frutos de um trabalho que enxerga a condição humana em toda a sua complexidade.

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