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“A Voz de Hind Rajab”: Impotência auditiva

"A Voz de Hind Rajab" (Sawt Hind Rajab, 2025), de Kaouther Ben Hania - Synapse/Divulgação

"A Voz de Hind Rajab" (Sawt Hind Rajab, 2025), de Kaouther Ben Hania - Synapse/Divulgação

Em termos dramatúrgicos, “A Voz de Hind Rajab” se estrutura em torno de um impasse ético. Se os personagens seguirem as regras, uma garota de 6 anos possivelmente vai morrer. Se eles não as seguirem, são os paramédicos de uma ambulância, que ainda poderiam salvar outros milhares de vidas, quem provavelmente vão morrer. Não importa o que eles façam, a regra é a morte. O sistema está desenhado e estruturado para que inocentes pereçam impunemente. Um genocídio.

Premiado no Festival de Veneza e indicado ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Bafta, o filme da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania (“As Quatro Filhas de Olfa”) é focado em quatro funcionários da Crescente Vermelha, o braço da Cruz Vermelha em Gaza, tentando desesperadamente combater esse aparato necropolítico. Omar (Motaz Malhees) é o operador telefônico, impulsivo e furioso com a guerra, que atende a ligação da garota de 6 anos do título, presa num carro com os cadáveres de sua família alvejada pelos tiros do exército israelense. Rana (Saja Kilani) é a outra atendente, que luta contra a exaustão de um fim de expediente e usa toda a sua doçura para manter Hind Rajab na linha, viva e à espera do resgate. Nisreen (Clara Khouri) é a psicóloga responsável por salvaguardar o mínimo de saúde mental dos colegas. E Mahdi (Amer Hlehel) é o chefe, o homem das regras, responsável por coordenar com a Cruz Vermelha e o comando de Israel para que a ambulância, que está a apenas 8 minutos de distância, seja autorizada a salvar a menina sem ser ela mesma alvo dos tiros.

Durante a 1h30 do docudrama, o/a espectador/a permanece preso com os quatro no cubículo mal iluminado e claustrofóbico da central telefônica. A crescente impotência e a frustração dos personagens é a nossa impotência e frustração, presos nesse microcosmo do inferno, de um genocídio acontecendo diante dos nossos olhos e ouvidos, sem conseguirmos fazer nada para impedi-lo. Os planos são fechados e sufocantes, a música é quase inexistente, os diálogos são uma reprodução exata do que se passou no dia 29 de janeiro de 2024. Não há poesia.

Do outro lado da linha, ouvem-se as gravações reais das ligações feitas por Hind Rajab, enquanto a tela exibe apenas as ondas do arquivo .wav usado pela cineasta. A garota palestina ama o mar, mas essa é uma informação que só descobrimos no final. Um filme mais tradicionalmente ficcionalizado talvez criasse um diálogo elaborado, em que a menina sonha com as ondas e a praia. No longa de Ben Hania, Hind Rajab repete apenas “venham me buscar, estou sozinha, está escuro, estou com medo, estão atirando em nós”, enquanto os soldados em um tanque israelense disparam ininterruptamente contra o carro onde ela está. Não há poesia.

A única ruptura narrativa proposta pela diretora tunisiana são algumas sequências em que os atores simplesmente ouvem a voz das pessoas reais que eles interpretam nas gravações das ligações com Hind Rajab, em vez de encená-las. Já em outras cenas, veem-se na tela de celulares os vídeos feitos no dia da tragédia pela equipe de redes sociais da Crescente para serem postados online. Nesses momentos, Ben Hania questiona e desestabiliza a premissa de seu próprio filme, de ser o mais real possível e reproduzir à risca e sem firulas o que aconteceu. Neles, a cineasta coloca os atores no nosso lugar, vendo isso tudo por uma tela, experienciando esse horror todo à distância, inertes, incapazes de fazer algo a respeito. Se em 2025 tudo é uma tela, se até mesmo um genocídio se transforma num amontoado de imagens num dispositivo, a cineasta quebra a quarta parede para expor a nossa inércia, a nossa indiferença, o nosso comodismo como espectadores/as passivos/as do fim de qualquer noção de civilização humana.

Algumas pessoas podem e vão talvez questionar as escolhas de “A Voz de Hind Rajab”, do uso do áudio original das chamadas da garota palestina às imagens e registros documentais que encerram o longa. Vão dizer que é apelativo, ou até mesmo obsceno. Obsceno é uma criança de 6 anos presa num carro sendo alvejado implacavelmente por soldados durante horas, enquanto uma ambulância a 8 minutos de distância é impedida de salvá-la. Vivemos num mundo obsceno. O cinema é apenas covarde – ou um registro dessa realidade. ■

Nota:
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