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“Hamnet”: Só a arte resiste à morte

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (Hamnet, 2025), de Chloé Zhao - Foto: Focus Features

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (Hamnet, 2025), de Chloé Zhao - Foto: Focus Features

A vida é insuportável e, às vezes, impossível. A natureza nos dá a vida, assim como dá a morte, e não existe uma lógica ou ordem do porquê e de como as coisas acontecem, nem de quando ou para quem acontecem. Entre guerras, doença, miséria e injustiça, o mundo é caos. E a vida não faz sentido. Há um plano em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” em que a diretora Chloé Zhao (“Nomadland”) filma o rosto de Jessie Buckley num close, sem cortes, após uma tragédia, e a atriz emite um som gutural que, mais que um grito, é uma expressão de toda a nossa impotência e dor diante dessa onipotência aleatória da natureza. Uma imagem e um berro tão devastadores que você vai se pegar pensando neles por dias após ver o filme.

É por isso que nós precisamos da cultura. Porque ela dá sentido a toda essa aleatoriedade absurda que rege vida e morte. A arte torna o imponderável mais suportável. Em “Hamnet”, Agnes (Jessie Buckley) é natureza: do seu grito vem a vida, e também a morte. E William (Paul Mescal) – ele mesmo, o Shakespeare – é cultura: da sua mente, surgem as palavras e a arte que tentam dar algum sentido à tragédia que se abate sobre os dois.

Adaptado da ficção especulativa homônima escrita por Maggie O’Farrell, o filme de Zhao conta a história do único casamento do Bardo inglês, que resultou em três filhos: Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes). A trama imagina como um evento trágico que dilacerou a família pode ter vindo a inspirar uma das maiores obras do dramaturgo britânico.

Apesar do que o parágrafo acima pode sugerir, a protagonista de “Hamnet” é Agnes, a esposa, e não William. Ela é apresentada logo no plano inicial, deitada em posição fetal sob uma árvore. Logo nessa primeira imagem, Zhao já estabelece como a personagem é um ser uno com a natureza: deitada contra a terra, o ar sentido no vento que sopra as folhas, Agnes é o fogo da vida no seu vestido vermelho, cor que sempre estará presente no seu figurino.

Esse fogo será quase extinto pela tragédia já citada e só retornará ao seu rosto – filmado por Zhao em longos closes, apaixonados pela vida que emana das expressões de Buckley – na sequência final do longa. Agnes passa todo o filme no campo, cuidando dos filhos e da casa – o trabalho da família, assim como o da morte e da dor, é sempre feminino – enquanto William vai para uma Londres escura e sem cor, em contraste com o verde vivo da floresta, tentar a sorte no teatro. Em consequência disso, a vida interna e o funcionamento da mente do personagem de Mescal – pouco articulado e ainda incapaz de expressar suas ideias – permanece um mistério até essa cena final, quando finalmente temos acesso a eles, no palco, por meio do olhar da esposa.

 “Hamnet”, contudo, sugere essa importância e essa centralidade do palco em vários momentos antes de seu desfecho. Um dos mais marcantes é uma despedida dura e dolorosa entre Agnes e William, filmada pelo diretor de fotografia Lukasz Zal (“Guerra Fria”, “A Zona de Interesse”) num plano-sequência fixo que enquadra a casa deles como um palco cuja iluminação remete a um quadro renascentista. Ainda que não tenha quase nada de teatral, o longa de Zhao usa esses recursos de linguagem – auxiliados por um excelente elenco que, além de Buckley e Mescal, conta com a sempre ótima Emily Watson e os incríveis Jacobi Jupe e Noah Jupe – para brincar com esses limites borrados entre arte e vida sugeridos pela obra de O’Farrell.

Mais do que esse jogo metalinguístico, porém, esses momentos de uma dor quase agonizante, num filme que não tem medo de visitar as emoções humanas mais inomináveis, servem para construir o argumento central de “Hamnet”: o de que nós precisamos da arte para sentir que não estamos sozinhos, que a nossa dor não é única, que os outros também a compartilham e a entendem. Se a vida é mesmo um grande amontoado de som e fúria sem sentido nenhum no final, ao menos quando estamos na plateia de um teatro, ou numa sala de cinema, damo-nos conta de que não somos os únicos neste implacável caldeirão de caos e tormenta. ■

Nota:
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