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“Marty Supreme”: desventuras em série, ou “Bolas Raras”

"Marty Supreme" (2025), de Josh Safdie - Foto: Ascot Elite Entertainment/Divulgação

Ascot Elite Entertainment/Divulgação

Marty Mauser (Timothée Chalamet) descende de uma longa árvore genealógica de protagonistas do cinema hollywoodiano que vêm desde o Charles Foster Kane de “Cidadão Kane”, passando por nomes como o Daniel Plainview de “Sangue Negro”, Jordan Belfort de “O Lobo de Wall Street” – e, mais recentemente, o Howard Ratner de “Joias Raras”, codirigido pelo mesmo Josh Safdie deste “Marty Supreme”. Todos eles são personagens golpistas, amorais, ególatras, sem escrúpulos e aproveitadores – em suma, sociopatas limítrofes – cujo único código de ética é a vitória a qualquer preço. Em síntese, são encarnações humanas (ou cinematográficas) do ethos neoliberal capitalista estadunidense.

Existe, contudo, uma grande diferença entre este mais novo retrato da ambição humana desmedida e seus antecessores. Se os longas anteriores eram fascinados por como esses homens parecem sempre vencer e se dar bem não importa o que aconteça com eles, Safdie passa as 2h30 de “Marty Supreme” divertindo-se de forma quase sadista com uma série infindável de humilhações, infortúnios e pequenas torturas que ele impõe ao serzinho arrogante e patético que protagoniza seu filme. E que o diretor nova-iorquino consiga fazer com que o público se divirta com ele, ao mesmo tempo em que se pega quase inevitavelmente torcendo pelo personagem, é o maior trunfo de sua produção.

O Marty do filme é inspirado em Marty Reisman, um tenista de mesa real que até hoje é a pessoa mais velha a vencer uma competição nacional do esporte nos EUA, aos 67 anos. Nesta versão ficcionalizada, passada pouco depois do fim da Segunda Guerra, ele é um jovem judeu pobre, obcecado com o sucesso e em se tornar campeão mundial. Após perder o título para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), o protagonista é banido do esporte por se recusar a ficar no alojamento com os demais atletas e se hospedar, às custas da Federação, na suíte de um hotel de luxo. Marty passa as 2h seguintes de filme, então, descendo até o inferno e disposto a praticamente tudo para angariar os US$ 1.500 que lhe permitirão pagar a multa e competir novamente no ano seguinte. Tudo isso enquanto lida com uma amante grávida, Rachel (Odessa A’zion), e mantém um caso com uma ex-atriz, Kay Stone (Gwyneth Paltrow, em sua melhor atuação em muuuitos anos), casada com um milionário.

A trama guarda paralelos claros com a premissa de “Joias Raras” – e não é por acaso. Assim como o longa estrelado por Adam Sandler, “Marty Supreme” é coescrito e montado por Safdie com seu parceiro criativo Ronald Bronstein, mantendo o mesmo ritmo alucinante, sufocante e levemente desesperador, acentuado pela trilha onipresente de Daniel Lopatin – outro reminiscente do filme anterior. Os diálogos rápidos e cortantes são editados no compasso de uma partida de pingue-pongue, e não há silêncio em momento algum. Não há respiro porque o cineasta quer que o/a espectador/a se sinta dentro da mente do protagonista, sem tempo para relaxar, sempre pensando no próximo golpe, no próximo estratagema e na próxima treta, após o fracasso da última.

Esses revezes, por sinal, são sempre causados pelo próprio Marty. O personagem tem um talento inquestionável para o esporte, mas ele não sabe jogar a vida – é um desastre como ser humano. Na mesa, durante uma partida, o protagonista sabe antecipar e responder aos saques e ataques que recebe, mas passa o filme todo devolvendo as bolas que o universo dispara contra ele – e segue perdendo. Simplesmente porque em sua mente ambiciosa e obstinada, as outras pessoas são ou um adversário ou alguém a ser aproveitado em nome dos seus interesses particulares, o que faz dele um ser arrogante e intragável – um anti-Calderano, nosso brasileiro-simpatia. Não por acaso, seu tênis de mesa é um esporte individual: Marty não sabe jogar em equipe, não sabe ler e lidar com pessoas.

Safdie se diverte, assim, com um personagem imaturo e socialmente atrofiado que insiste em meter os pés pelas mãos e autossabotar-se, sem um código de honra ou capacidade de olhar para além do próprio umbigo. O cineasta filma o protagonista sempre adentrando corredores escuros, descendo escadas, em quedas e buracos – uma cena envolvendo o diretor Abel Ferrara e uma banheira só perde para a segunda metade de “Sirat” como o momento mais surpreendente e “que porra é essa?” do cinema em 2025 –, indo constantemente para baixo, nunca para cima. Sempre que ele está prestes a chegar “à tona pra respirar”, nas palavras de Herbert Vianna, Safdie e o roteiro passam uma nova rasteira nele e convidam o público a rir (de nervoso) da desgraça alheia.

Chalamet se enfeiou com uma monocelha pavorosa e aprendeu a jogar tênis de mesa em nível competitivo – esse tipo de coisa que a Academia adora reconhecer com o Oscar. O motivo de sua excelência no papel, porém, é que são o carisma e talento inegáveis do twink-mor hollywoodiano que impedem que o público deteste por completo e recuse a passar 2h30 com o anti-herói. E, acima de tudo, porque sua voz de ratinho (pós-)adolescente é perfeita para um personagem que é, essencialmente, um menino cuja ambição obsessiva é ser respeitado como homem, e como mestre de seu ofício – o que é obviamente uma imagem-espelho do próprio ator em Hollywood. Se Timotinho continuar a escolher projetos com a qualidade de “Marty Supreme”, no entanto, é improvável que seu destino seja o mesmo dos desafortunados protagonistas de Josh “o torturador sadista” Safdie. ■

Nota:
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