Em um cenário cinematográfico dominado por efeitos digitais hiper-realistas e uma busca incessante por versões em live-action de animações clássicas, “Arco” surge como um respiro de autenticidade. Dirigido pelo francês Ugo Bienvenu e produzido por Natalie Portman — através da produtora MountainA, em parceria com Sophie Mas — o longa-metragem indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro aposta no charme da animação tradicional, desenhada à mão, para contar uma história que é, ao mesmo tempo, uma aventura nostálgica e um alerta urgentemente atual.
Totalmente animado em 2D, o filme narra a jornada mágica de um menino de 10 anos vindo de um futuro distante e pacífico. Ao viajar acidentalmente de volta ao ano de 2075, ele descobre um mundo em perigo. Ao lado de uma jovem chamada Iris e de seu robô cuidador Mikki, o protagonista parte em uma missão para retornar ao seu tempo original.
A escolha pela estética clássica não é apenas um capricho visual, mas um posicionamento artístico. Para Portman, há uma humanidade intrínseca no “fluxo de imagens de pessoa para pessoa” que o traço manual proporciona. Essa sensibilidade serve de base para uma narrativa que encara de frente a crise climática. No entanto, ao contrário de muitas distopias sombrias, “Arco” busca encontrar esperança na capacidade de união da humanidade.

Antes de chegar ao público geral nas salas de cinema, “Arco” percorreu um caminho vitorioso. Foi aclamado no 78º Festival de Cannes e consagrou-se no 64º Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, onde conquistou o prestigiado troféu Cristal de Melhor Filme e o prêmio SACEM de Melhor Trilha Sonora Original.
O cuidado com a produção se reflete também no elenco de vozes. No roteiro assinado por Bienvenu e Félix de Givry, os personagens ganham vida em duas versões de peso. Na original francesa, destacam-se nomes como Louis Garrel e Alma Jodorowsky. Já na versão em inglês, além de Portman e Mark Ruffalo (que dividem a voz do robô Mikki), o filme conta com Juliano Krue Valdi, Andy Samberg, Will Ferrell e até o músico Flea.
Distribuído pela Mares Filmes e pela MUBI no Brasil, “Arco” estreia nos cinemas brasileiros hoje, 26 de fevereiro de 2026. Confira abaixo a nossa conversa com Natalie Portman e Ugo Bienvenu sobre o processo criativo e as inspirações por trás dessa jornada.
[A transcrição abaixo combina perguntas que o cinematório fez a Natalie e Ugo na coletiva de imprensa internacional do filme e na entrevista exclusiva em vídeo — à qual você também pode assistir a seguir.]
Cinematório: Natalie, nós temos visto muitas animações em CGI e uma onda de versões em live action de animações clássicas. “Arco”, sendo uma animação tradicional desenhada à mão, é quase um ato contracultural nos dias de hoje. O uso dessa técnica foi um fator importante na sua decisão de participar do projeto? Além, é claro, da história e dos temas que o filme aborda.
Natalie Portman: Acho que foi muito importante, sim. Obrigada por perceber isso. Acho que o estilo desenhado à mão do filme é maravilhoso. A arte é maravilhosa. E há algo muito comovente no fluxo de imagens de pessoa para pessoa. E acho que quando Sophie [Mas], minha parceira de produção, e eu vimos pela primeira vez o primeiro animatic de Ugo, nós ficamos impressionadas com a história, com os personagens no centro dela, com essa relação forte e com a humanidade, com a mensagem dela. E também, é claro, com essa estética maravilhosa, a arte que Ugo criou, a visão que ele tem do mundo.

Cinematório: A crise climática e aqueles que a causaram são os verdadeiros vilões do filme, na minha opinião. E “Arco” é um dos poucos filmes voltados para o público jovem que aborda essa questão. Vocês dois sentem falta de ver filmes que tratam desse assunto e dos grandes problemas que já nos afetam?
Ugo Bienvenu: Eu não posso falar pelos outros diretores que tratam desses pontos, mas, para mim, se nós vemos a ecologia como algo doloroso, isso não vai funcionar. Para mim, a ecologia e as mudanças climáticas são uma das melhores oportunidades para a humanidade se unir. É uma aventura que pode trazer muita felicidade e diversão se a encararmos dessa forma, porque é um superdesafio. E eu não entendo por que ainda estamos brigando uns com os outros quando estamos flutuando no espaço em uma rocha e temos a chance de nos salvar e ter prazer em fazer isso. E eu acho que temos que colocar o prazer, a felicidade e a oportunidade de lutar todos juntos pela humanidade como algo bom, sabe? E não como um fardo.
Natalie Portman: Eu penso que é o mundo em que vivemos, infelizmente, onde há incêndios, inundações e furacões o tempo todo. E nós vivemos nele, nós mesmos passamos por isso, nossos amigos e familiares passam por isso. Vemos isso no noticiário e as crianças vivenciam isso… Então, eu acho que é importante criar algo que reconheça esse mundo, que reflita esse mundo, mas que também dê esperança, que diga que temos imaginação humana, criatividade humana, que já nos tirou de muitas situações ruins no passado. O mundo é imprevisível. E a sua imaginação pode ser o que inspira outra pessoa, que inspira mais outra pessoa e mais outra pessoa… Que resolve o problema ou que muda o mundo para melhor. É algo de que realmente precisamos e que nossos filhos realmente precisam, porque não podemos simplesmente ignorar. É uma parte muito importante das nossas vidas.

Cinematório: Ugo, eu notei várias referências a ficções científicas clássicas em “Arco”, que acredito terem sido importantes durante o desenvolvimento do filme. Gostaria de saber há quanto tempo você é entusiasta da ficção científica e se há outras referências que o incentivaram a criar “Arco”, se você puder compartilhar isso conosco.
Ugo Bienvenu: Na verdade, eu não era fã de ficção científica. Eu não lia ficção científica antes dos 30 anos, e acho que eu tinha 27 quando li algo ou vi um filme do gênero pela primeira vez. Eu achava que ficção científica era coisa para nerds. Mas eu estava errado. E uma vez eu dirigi um videoclipe chamado “Fog” e não consegui fazer outra coisa além de ficção científica. Não sei por quê. Eu também sou escritor de quadrinhos e meu editor na época me ligou e disse: você leu Philip K. Dick? E eu não conhecia esse cara! Então, eu li Philip K. Dick e entendi por que a ficção científica era um gênero incrível, porque podia nos ajudar a filosofar, pensar sobre o que acontece hoje para criar um futuro melhor, se possível. E pensar para onde estamos indo. Mas eu não li muita ficção científica. Eu li apenas Clifford D. Simak, que, para mim, é o melhor. E, obviamente, alguns de Isaac Asimov. Mas não foram muitos, muitos livros. E definitivamente, se você quer escrever boa ficção científica, você deveria ler também Marguerite Duras ou Tolstói. Quero dizer, eu li toneladas de romances que não são ficção científica e acho que eles construíram meu imaginário melhor do que a ficção científica. Mais do que os livros, eu acho que fui mais influenciado pelos filmes que eu vi quando era criança. Como os antigos da Disney, “Batman”, “Dragon Ball Z” ou coisas como “Jumanji”, “Gasparzinho”, “O Máscara”, coisas assim. Eu não sou realmente um grande conhecedor de ficção científica, mas estou feliz em fazer uma sem saber muito, porque assim eu crio minha própria ficção científica, de certa forma.
Cinematório: Mas você viu os filmes de “Star Wars” que a Natalie fez, certo? (todos riem)
Ugo Bienvenu: Sim, claro! Mas para mim isso sequer é ficção científica. É mais como um filme de samurais ou como se fosse uma história medieval. Para mim, os robôs sempre foram cavaleiros. Na minha cabeça, não sei por que “Star Wars” nunca me pareceu ficção científica, mas você está certo, é ficção científica.
Cinematório: Sobre o elenco de vozes, Natalie, você e Hugo escolheram os atores juntos? E se sim, foi para as versões em inglês e francês?
Natalie Portman: Bem, para a versão francesa… Para ambas as versões, éramos todos nós. Ugo, obviamente, como diretor teve a primeira palavra. Mas Félix [de Givry], parceiro dele [no roteiro], e Sophie [Mas, produtora] e eu também participamos. E para o elenco francês eles passaram, o que, cinco meses?
Ugo Bienvenu: Sim. Para as crianças, sim.
Natalie Portman: E então, para os adultos, foram muitos amigos. Para a versão em inglês foi semelhante. Nós tivemos que fazer tudo rapidamente, então, nós ligamos para o nosso elenco dos sonhos, mas também para pessoas que nós conhecíamos, para que pudéssemos obter respostas rápidas, porque tivemos que fazer tudo rapidamente. E tivemos tanta sorte porque todos, todos que perguntamos disseram “sim”. Pensávamos que talvez um da nossa lista dos sonhos se tornasse realidade, mas tivemos muita, muita sorte! E as crianças foram escaladas rapidamente nos EUA, porque lá isso é bastante profissionalizado, e por isso tivemos muita sorte com ambos os grupos para termos aquela sensação, que eu acho perceptível, de amizade e de amor entre as pessoas. São todos amigos.

Cinematório: E ainda falando sobre o trabalho de voz, é muito interessante como Mikki, o droide que cuida das crianças, combina a voz da Natalie com a do Mark Ruffalo. Como essa composição foi feita?
Ugo Bienvenu: Na verdade, bem no início, na primeira versão, eu queria… Nós gravamos, tipo, milhares de frases ditas por dois atores. Mas também gravamos por segurança as interações com os dois atores. E então, primeiro nós modulamos as vozes porque eu queria que os robôs falassem como robôs. Então, eu pensei: “OK, vamos fazer isso com IA”, porque assim eles teriam a sua própria língua, sabe? Teoricamente, eu também queria pássaros para serem os pássaros, humanos para serem os humanos, sabe? E os robôs para serem IA. Mas não funcionou! Ficou muito perfeito e não tínhamos as emoções. Então, nós pegamos as gravações de segurança e sobrepusemos as vozes, mas elas nunca se encaixavam exatamente. Então, tivemos que cortar à mão e esticar as falas, fazê-las passarem… Criar níveis entre as duas vozes.
Fizemos exatamente a mesma coisa na versão em inglês. Natalie e Mark gravaram as intenções das falas e nós fizemos a sobreposição delas, mas de uma maneira diferente, porque o tom das falas não era igual ao dos franceses. Então, fizemos uma sobreposição realmente diferente. Mas era muito parecido com fazer alfaiataria. Cada frase foi adaptada e isso nos tomou muito tempo, mas eu fiquei tão feliz porque eu tenho desenhado esse personagem há mais de dez anos! E esse personagem, Mikki, é muito importante na minha vida e no meu trabalho, e eu me sinto tão honrado por ter na versão francesa dois atores incríveis, assim como na versão em inglês, e poder ficar orgulhoso de ambas, sabe? Para mim é realmente incrível ter todos esses atores incríveis dando suas vozes aos meus desenhos.
