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Berlinale 2026: Carnaval do Cinema Brasileiro e o Sonho de “Gugu”

Yuri Gomes em cena de "Feito Pipa" (2026), de Allan Deberton - Foto: © Jamille Queiroz

Yuri Gomes em cena de "Feito Pipa" (2026), de Allan Deberton - Foto: © Jamille Queiroz

Ao todo, 10 filmes brasileiros brilharam na Berlinale. Além disso, a série “Emergência 53” ganhou o Studio Babelsberg Production Excellence Award, prêmio até agora inédito na mostra Berlinale Series.

Em 2015, quando a febre da Netflix e os formatos streaming on demand começaram a ser vistos como ameaça ao mercado de filmes convencionais, a Berlinale teve a sacada de integrar esse segmento dentro do festival, desconstruindo a premissa de que séries e filmes são como água e azeite. As premiações da Netflix e Amazon, com produções protagonizadas inclusive por atores de Hollywood, deram razão à ideia da Berlinale e só beneficiaram o audiovisual como um todo.

Emergência em família

A produção de “Emergência 53” é da Conspiração Filmes, uma produtora com as mentes mais criativas do Brasil. A direção tem a assinatura de Claudio Torres, um dos fundadores e filho de Dona Fernanda Montenegro e do saudoso Fernando Torres. Andrucha Waddington, genro de Dona Fernanda, é o outro diretor da série.

Durante a Berlinale, a equipe da Conspiração, incluindo a CEO Renata Brandão, estava presente na exibição no Cinemax 1 para o público especializado.

Carnaval do Cinema

O escritor, ator, diretor, produtor e membro da Academia de Hollywood, Lázaro Ramos, esteve em Berlim (e conversou exclusivamente com o cinematório). Ele brilhou, misturou-se com a plateia e mostrou-se surpreso com a atenção e o interesse de adolescentes ao assistirem ao filme “Feito Pipa”, que tem produção executiva de Marcelo Pinheiro e Maurício Macêdo e é dirigido pelo cearense Allan Deberton.

Em pleno domingo de Carnaval no Brasil, com Berlim coberta de neve e, ao mesmo tempo — apesar de Wim Wenders —, tomada pela euforia do cinema, Lázinho, muito espirituoso, proclamou o “Carnaval do Cinema”. Ele ainda sugeriu fazer um bloco de cineastas para animar ainda mais seus dias na capital, nos quais (entre tantos outros afazeres) se deixava fotografar ao longo do tapete vermelho segurando uma pipa. Nada menos atuante no quesito visibilidade e estilo estava o ator mirim Yuri Gomes; com seus óculos escuros de lente azul, jaqueta no ombro e estrelas em volta dos olhos, ele veio, viu e venceu.

Quando o amor pelo cinema impera, nem mesmo uma segunda-feira de neve e 8 graus negativos é motivo para amarelar. No histórico cinema Zoo Palast, ocorreu a segunda exibição do filme na mostra Generation KPlus, seguida de Q&A, muitas selfies e muitos sorrisos. Ali, constatava-se que o Brasil goza de uma leveza ao celebrar sucessivas vitórias nas artes visuais, sem os fantasmas de um passado recente.

O roteirista André Araújo e os atores Yuri Gomes e Teca Pereira, de "Feito Pipa" - Foto: © Fátima Lacerda
O roteirista André Araújo e os atores Yuri Gomes e Teca Pereira, de “Feito Pipa” – Foto: © Fátima Lacerda

Man of the Match

Neste filme, o tecedor e arquiteto é o roteirista André Araújo.

Esta que vos escreve cultiva um amor incondicional por roteiros, na certeza de que, quando eles formam realmente a base da história a ser contada, o filme supera momentos de fraqueza ao longo do percurso.

Em “Feito Pipa”, que eu diria ter uma abordagem “mil-folhas” (filhos órfãos, pais ausentes, falta de perspectiva, vulnerabilidade, doenças mentais), em nenhum momento o storytelling perde o foco. O roteiro enxuto-über do talentosíssimo Araújo já ofereceu excelência na matéria-prima e primor no texto para que Allan pudesse trabalhar.

Na sessão do Zoo Palast, Araújo explicava nos mínimos detalhes o alinhavar do roteiro frente a uma plateia de crianças e adolescentes que ali estavam, muitas vezes por atividades do currículo escolar.

Exuberância na maturidade

A história de um menino criado pela avó, com pai ausente em autoexílio e afetos congelados, oferece várias camadas de abordagem de temas para todas as idades. Além disso, há o desempenho fenomenal de Yuri Gomes, que protagoniza cenas de grande densidade dramatúrgica para as quais necessitaria de muito mais anos do que os tenros 11 vividos. Em algumas cenas e em termos de atuação, ele nada fica devendo a Lázaro Ramos. Yuri não deixa dúvida de que “Feito Pipa” foi só o início de uma longa viagem pelo audiovisual.

Deixo aqui uma menção super-honrosa para a preparadora de elenco. Ainda nesse complexo de preparação, Teca Pereira e Yuri Gomes tiveram tempo de convivência fora dos ensaios. Assim, a relação de muito afeto entre avó e neto foi se construindo (como tem que ser) e funcionou: na tela e fora dela, os dois são inseparáveis como goiabada e queijo.

Yuri Gomes, protagonista de "Feito Pipa" - A atriz Teca Pereira, de "Feito Pipa" - Foto: © Fátima Lacerda
Yuri Gomes, protagonista de “Feito Pipa” – A atriz Teca Pereira, de “Feito Pipa” – Foto: © Fátima Lacerda

Em conversa durante o Q&A, a veterana Teca Pereira me surpreendeu ao se revelar noveleira de carteirinha. Teca fez a personagem Nana, a funcionária de Maria Paula (Marjorie Estiano) e uma espécie de anjo da guarda de seu filho Renato na novela “Duas Caras”, escrita por Aguinaldo Silva — o mesmo que atualmente oferece um capítulo por dia de “absolute novelão” com “Três Graças”.

Em “Feito Pipa”, Teca dá vida, sensualidade e fragilidade a Dilma, mulher que conhecemos e que, muitas vezes, se torna invisível: madura, professora aposentada e que, mesmo com suas carências exibidas nas várias idas ao bar do vilarejo às margens da barragem de Araras (ou Araújo Lima), no interior do Ceará, não está disposta a aceitar rótulos. Também o ceticismo sobre as intenções de um pretendente antigo a freia, marcando sua personalidade.

A direção de arte de Dayse Barreto e a cinematografia de Luciana Baseggio e Daniel Donato deram à personagem de Dilma o balé da dicotomia entre a sensualidade e o ceticismo. As imagens de Dilma na mesa de sinuca ou ensaiando movimentos de dança revelam-se um manifesto pelas mulheres de idade avançada que não escondem suas contradições.

Entre nossas conversas, Teca revelou em tom de euforia: “Eu comecei a trabalhar bastante depois dos 70 anos!”, gargalhando em seguida e espalhando o sorriso largo de quem está curtindo muito seu momento artístico.

A atriz Teca Pereira, de "Feito Pipa" - O roteirista André Araújo e os atores Yuri Gomes e Teca Pereira, de "Feito Pipa" - Foto: © Fátima Lacerda
A atriz Teca Pereira, de “Feito Pipa” – O roteirista André Araújo e os atores Yuri Gomes e Teca Pereira, de “Feito Pipa” – Foto: © Fátima Lacerda

O ápice da dramaturgia do filme se dá quando a saúde de Dilma se desestabiliza; quanto mais ela adoece, mais aumenta o medo de “Gugu” de ter que se afastar do único ninho de acolhimento que sobrou de uma família dilacerada, tornando o sonho de ser jogador de futebol cada vez mais inatingível.

“Feito Pipa” é mais um exemplo da força e criatividade do cinema do Ceará, que já se tornou uma constante de representatividade em Berlim: Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Armando Praça foram precursores.

Depois de Berlim, o filme irá voar pelo mundo afora. Além disso, deveria ser exibido em escolas para adolescentes em todo o Brasil, fazendo jovens e menos jovens vibrarem com a obra que encantou Berlim.

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