"Nosso Segredo" (2026), de Grace Passô - Foto: Entrefilmes/W. Esser
"Nosso Segredo" (2026), de Grace Passô - Foto: Entrefilmes/W. Esser

Berlinale 2026: Local, Internacional e Ótimas Perspectivas

A diretoria da Berlinale escolheu o diretor Wim Wenders para presidir o Júri Internacional, que nesta edição ainda não disse a que veio, mas é ele que bate o martelo sobre quem decide irá levar os Ursos de Ouro e Prata para suas respectivas prateleiras.

O diretor Kleber Mendonça Filho, que está nomeado em quatro categorias para o Oscar, foi membro do júri da Berlinale em 2020, pouquíssimas semanas antes de o mundo parar. Hector Babenco também já fez parte dessa galeria de peso. Neste ano, a Berlinale optou pelo regional e bem menos por um peso programático.

Nascido em Düsseldorf, Wenders — que em 2015 recebeu o Urso de Honra pelo conjunto da obra das mãos de ninguém menos do que Walter Salles — declarou na noite de quarta-feira (11/02), na TV Regional de Berlim, que acha legal se arrumar na própria casa e não no hotel, e acha simpático ter visita de gente do mundo todo na cidade que escolheu para viver.

O diretor de “Asas do Desejo”, que definitivamente fincou Berlim na retina de todos os cinéfilos do mundo, tem um invejável legado, mas, como personalidade, é desprovido de qualquer carisma. Um festival que ainda compete para se manter terceiro entre os três principais do mundo (junto a Cannes e Veneza) precisa, além de expertise, de personalidades carismáticas que fazem una bella figura no tapete vermelho. Ah, foram-se bons aqueles tempos de Isabella Rossellini e, em tempos recentes, Madame Binoche na presidência do júri!

Nadando contra a corrente

Abertura da 76ª Berlinale, no Berlinale Palast - Foto: © Fátima Lacerda
Abertura da 76ª Berlinale, no Berlinale Palast – Foto: © Fátima Lacerda

O mundo do streaming obrigou os envolvidos a procurar estratégias para que o escurinho do cinema continue tendo um efeito igualmente magnético e irresistível para cinéfilos. A inclusão de filmes da Netflix nos festivais foi uma das tentativas; a premiação para esses filmes, outra. Mesmo correndo por fora com seu selo de “Festival de Público” — algo que Cannes e Veneza, até mesmo por questões de locação no espaço urbano, estão longe de ter —, a Berlinale precisa se reinventar.

Desde a nova gestão, que se iniciou em 2025, há sinais de que o festival, em termos de programação, está no caminho certo para chegar mais perto da sua essência.

O chamado Problemkind (Criança-problema/Perrengue) tem sido a Mostra Competitiva, que na edição de 2025 manteve sua tradição de errar a mão na hora de escolher o filme de abertura. Contudo, a mostra de prestígio vem mostrando sinais de melhoras, ainda que ainda muito tímidas. O highlight deste ano é a recém-formada mostra “Perspectives”; criada por Tricia Tuttle, essa plataforma já se supera no seu segundo ano de existência.

A ideia é dar visibilidade para cineastas com seus respectivos primeiros longas-metragens. nessa lista instigante, para dizer o mínimo, está a promessa brasileira Grace Passô, com “Nosso Segredo”, uma coprodução Brasil-Portugal em parceria com a produtora Foi Bonita a Festa. Também figuram “Animol”, dirigido por Ashley Walters, “A Prayer For The Dying”, de Dara Van Dusen, “Hangar Rojo”, de Juan Pablo Sallto (uma coprodução Chile, Argentina e Itália) e “Where To?”, uma coprodução Israel-Alemanha. Nem se faz preciso uma bola de cristal para saber que o tema Palestina irá entrar na baila durante a Q & A.

"Nosso Segredo" (2026), de Grace Passô - Foto: Entrefilmes/W. Esser
“Nosso Segredo” (2026), de Grace Passô – Foto: Entrefilmes/W. Esser

Com ao todo 10 produções do cinema brasileiro nas diversas mostras, o Brasil soma participações no Mercado do Cinema Europeu (EFM, na sigla original), tendo como público-alvo diretores de festivais e donos de cinema, entre outros. Brilhando nessa plataforma está Barbara Paz, na direção de “Cuddle”, drama em inglês estrelado por Willem Dafoe — que protagonizou “Meu Amigo Hindu” (o último filme de Babenco).

Também presente no EFM está “A Última Cachorra”, um drama distópico que marca a estreia de Nina Kopko dirigindo um longa-metragem de ficção. Outro colírio para cinéfilos esfomeados é o filme dirigido por Débora Falabella: “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”. O roteiro também tem a assinatura daquela que já escreveu história com “Avenida Brasil”.

Audiovisual no topo

Além de 10 filmes nas diversas mostras e a seleção no EFM, o Brasil está muito forte em Berlim, com 56 empresas do setor audiovisual. O estande Cinema do Brasil, dentro do prédio que abriga o mercado europeu, é um burburinho só; além de ser um dos mais procurados, é famoso também pelo Come Together no fim do expediente, regado, claro, a caipirinha e a pão de queijo.

O Brasil está em todas quando se trata de audiovisual e, sim, há todos os motivos para comemorar a diversidade do nosso cinema aqui em Berlim. Entre os três festivais, é de certo o mais diverso, mesmo que ainda esteja recalculando a rota para voltar à sua essência. A criação da mostra “Perspectives” pode se cristalizar como um golaço no caminho de ressignificar a tradição de chegar a Berlim com uma visibilidade local e sair daqui com a mala mais pesada devido ao Urso, com o filme vendido para os quatro cantos do mundo, ou as duas coisas. No livro que conta a história da septuagésima edição da Berlinale, leem-se hilárias e improváveis histórias sobre isso.

2026 dá motivos para otimismo. Vamos ver.

Cartaz oficial da 76ª Berlinale - Divulgação
Cartaz oficial da 76ª Berlinale – Divulgação