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Canal Brasil presta homenagem aos 90 anos de José Mojica Marins

"À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964), de José Mojica Marins - Divulgação

"À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964), de José Mojica Marins - Divulgação

A próxima Sexta-feira 13 marca uma data de peso no calendário do cinema nacional: os 90 anos do nascimento de José Mojica Marins. E o Canal Brasil decidiu transformar o aniversário do mestre do cinema de horror brasileiro em programação: entre os próximos dias 11 e 13, sempre a partir da meia-noite, o canal exibe nove filmes que percorrem a trajetória do diretor, roteirista e ator que consolidou o gênero no Brasil e deixou para o cinema nacional um personagem sem equivalente: o coveiro Zé do Caixão.

Mojica construiu ao longo da carreira um estilo particular que mesclava referências do horror internacional com elementos do folclore, da realidade e das religiões brasileiras. Tudo isso sem dinheiro e com soluções que viraram método. Ao longo da carreira, ele dirigiu mais de 40 produções e atuou em mais de 50 filmes.

O personagem que o fez ser conhecido e reverenciado no mundo todo ganhou as telas em 1964 com o filme que abre a trilogia central do universo de Mojica  e que também encerra a mostra do Canal Brasil no dia 13. “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” traz Zé do Caixão como protagonista: um homem frio e sem escrúpulos, que desafia crenças religiosas e busca gerar o filho perfeito a qualquer custo. O impacto do longa fez o nome de Mojica se equiparar internacionalmente a nomes como Dario Argento.

José Mojica Marins completaria 90 anos no dia 13 de março. Foto: Divulgação
José Mojica Marins completaria 90 anos no dia 13 de março. Foto: Divulgação

Três noites, nove filmes

A mostra do Canal Brasil não se limita aos filmes mais conhecidos. A programação do dia 11 começa com “A Praga” e “A Última Praga”, dois curtas que retomam uma história concebida por Mojica nos anos 1980 e finalizada décadas depois, com a participação do próprio cineasta já caracterizado como Zé do Caixão. Em seguida, “Finis Hominis” — em que um homem que surge em uma igreja passa a ser visto como possível messias — coloca em debate fé e fanatismo. A noite se encerra com “Inferno Carnal”, suspense sobre uma relação marcada por obsessão e violência.

No dia 12, a seleção mergulha no lado mais experimental da filmografia de Mojica. “Delírios de um Anormal” surgiu de um aproveitamento de cenas que a ditadura militar havia barrado. Em 1978, a censura ainda era intensa no Brasil, e Zé do Caixão, que nunca poupou cenas de violência e nudez, tinha várias dessas imagens guardadas sem aproveitamento. Foi assim que nasceu o filme, premiado com a Placa de Prata no XI Festival de Brasília no Cinema Nacional.

Na sequência, entra “O Despertar da Besta (Ritual dos Sádicos)”, provavelmente o título com a trajetória mais tortuosa da carreira de Mojica: considerado seu filme mais radical, foi interditado pela censura em 1969 e liberado apenas em 1983, com novo título. A mistura de ficção e depoimentos para discutir o uso de drogas e os efeitos psicológicos sobre os personagens representa um dos momentos mais ousados da obra do diretor. A madrugada do dia 12 termina com “A Estranha Hospedaria dos Prazeres”, em que hóspedes são submetidos a testes que expõem desejos, segredos e limites morais.

O encerramento da mostra, no dia 13, exibe, logo após “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, a continuação “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, na qual o coveiro retorna em busca de uma mulher para dar continuidade à sua linhagem e submete candidatas a situações extremas. Neste filme, Mojica encenou um inferno gelado em cores, contrapondo-o à narrativa em preto e branco — uma das escolhas mais marcantes de sua carreira. A homenagem fecha com “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, de 1968, uma reunião de três histórias independentes. O terceiro episódio do filme, “Ideologia”, talvez seja o experimento mais radical de sua carreira, pela leitura apocalíptica do contexto da Guerra Fria, a crítica política e a encenação inventiva, incluindo o uso de um cadáver real.

"A Praga" (2023), de José Mojica Marins - Divulgação/Elo Studios
“A Praga” (2023), de José Mojica Marins – Divulgação/Elo Studios

Reconhecimento tardio

O reconhecimento de Mojica foi construído de forma irregular. No Brasil, ele não conseguiu o mesmo sucesso e reconhecimento que obteve no exterior, onde participou de mostras, festivais e recebeu prêmios. Sua participação na mídia nacional se deu muitas vezes de maneira cômica, fato que abraçou por necessidades financeiras. Internacionalmente, no entanto, a obra ganhou prestígio: Mojica recebeu o Prêmio Especial no Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror de Sitges, na Espanha, em 1973, e o Prêmio L’Écran Fantastique por originalidade no ano seguinte, na França.

Após um período de ostracismo a partir da segunda metade dos anos 1980, o cinema de Mojica foi redescoberto por jovens cineastas brasileiros interessados no horror, entre eles Dennison Ramalho e Paulo Sacramento, que trabalharam em “Encarnação do Demônio” (2008), retorno de Zé do Caixão às telas após quatro décadas. Mojica faleceu em fevereiro de 2020, aos 83 anos, vítima de broncopneumonia.

A mostra do Canal Brasil vai ao ar nos dias 11, 12 e 13 de março, a partir da meia-noite, no Canal Brasil. Confira a programação completa:

Mostra José Mojica Marins – 90 anos

11 de março (terça para quarta)

A Praga (1980) (52′)

Horário: Quarta, dia 11/03, à 00h (madrugada de terça para quarta)

Classificação: 14 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Marina e Juvenal estão passeando. Eles resolvem tirar fotos diante da casa de uma idosa. Irritada com a proximidade dos jovens amantes, a mulher se revela uma bruxa poderosa. E ela lança uma maldição sobre Marina e Juvenal.

A Última Praga de Mojica (2021) (17’)

Horário: Quarta, dia 11/03, à 1h10 (madrugada de terça para quarta)

Classificação: 14 anos

Direção: Cédric Fanti, Pedro Junqueira e Eugenio Puppo

Sinopse: O curta-metragem relata o processo de resgate e finalização de A Praga, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Produzido em 1980, o filme nunca foi concluído e se perdeu.

Inferno Carnal (1976) (83’)

Horário: Quarta, dia 11/03, às 2h30 (madrugada de terça para quarta)

Classificação: 18 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Dr. Medeiros é um cientista brilhante que não tem tempo para a linda esposa Raquel, então ela se apaixona por Oliver, melhor amigo de seu marido, e logo eles conspiram para matar George e herdar sua fortuna. Raquel joga ácido no rosto de George, desfigurando-o. Enquanto ele se recupera no hospital, Raquel e Oliver gastam todo o seu dinheiro. Depois de meses sob cuidados, Dr. George volta para casa com um plano de vingança.

12 de março (quarta para quinta)

Delírios de um Anormal (1978) (84’)

Horário: Quinta, dia 12/03, à 00h (madrugada de quarta para quinta)

Classificação: 18 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Um brilhante psiquiatra é aterrorizado por pesadelos nos quais Zé do Caixão tenta roubar sua esposa. O homem procura ajuda de médicos que lhe recomendam conversar com o cineasta José Mojica Marins.

O Despertar da Besta (Ritual dos Sádicos) (1970) (93’)

Horário: Quinta, dia 12/03, à 1h25 (madrugada de quarta para quinta)

Classificação: 18 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Um psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para estudar os efeitos do tóxico sob a influência da imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicodélicos de cada um, misturando sexo, perversão e sadismo.

A Estranha Hospedaria dos Prazeres (1976) (80’)

Horário: Quinta, dia 12/03, às 3h00 (madrugada de quarta para quinta)

Classificação: 18 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Durante uma noite de tempestade, várias pessoas se abrigam em uma estranha hospedaria isolada: um casal de noivos, três empresários corruptos, um grupo de motoqueiros e um gigolô, entre outros. Na manhã seguinte, eles descobrem onde realmente fica o local e quem é o dono.

13 de março (quinta para sexta)

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) (82′)

Horário: Sexta, dia 13/03, à 0h (madrugada de quinta para sexta)

Classificação: 16 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: O coveiro Zé do Caixão tem a obsessão de gerar um filho perfeito. Ao saber que sua esposa não pode engravidar, ele procura uma substituta: a namorada de seu amigo. Após ser violentada, a moça jura vingança.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) (108′)

Horário:  Sexta, dia 13/03, à 1h25 (madrugada de quinta para sexta)

Classificação: 16 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Zé do Caixão ainda está procurando a mulher perfeita para dar à luz um filho dele e, apesar dos crimes passados, continua a aterrorizar o povo de sua pequena cidade com suas práticas sádicas.

O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968) (81’)

Horário: Sexta, dia 13/03, às 3h15 (madrugada de quinta para sexta)

Classificação: 18 anos

Direção: José Mojica Marins

Sinopse: Compilação de três contos de horror: O Fabricante de Bonecas, Tara e Ideologia. As histórias contam com doses de canibalismo e sadomasoquismo.

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