Desde 2024, a Pixar vem passando por reformulações estratégicas, equilibrando o lançamento de novas histórias com as sequências de franquias consagradas, como “Divertida Mente” e “Toy Story”. Em meio a esse movimento, é natural que o estúdio também busque experimentar e testar caminhos diferentes. É nesse contexto que surge “Cara de um, Focinho do Outro” (Hoppers, no título original), 30º filme do estúdio, vendido como uma proposta ousada em relação à filmografia da Pixar. A promessa era entregar algo imprevisível, excêntrico e inovador. Porém, ao longo da animação, fica claro que a tentativa de soar diferente não foi acompanhada por um desenvolvimento de roteiro à altura.
O filme conta a história de Mabel (voz de Piper Curda), uma jovem que, influenciada pela avó (com quem mantém uma relação de muito afeto), desenvolveu um amor genuíno pela natureza. Impulsionada pelas memórias da infância, marcadas pelos momentos especiais ao lado da matriarca, ela decide enfrentar o prefeito Jerry (Jon Hamm), que pretende construir uma rodovia que irá destruir a reserva ambiental favorita das duas. Em meio a essa disputa, um experimento secreto acaba mudando o rumo da história: Mabel descobre que pode se comunicar com os animais que vivem na área ameaçada e, então, busca a ajuda deles para tentar impedir a devastação do local.
A sinopse da animação é interessante e sugere ao espectador uma aventura protagonizada por humanos em defesa da vida animal, mas não é bem isso que acontece. Embora a ideia central seja repleta de possibilidades, a trama não tem profundidade. O início da narrativa apresenta a relação entre Mabel e a avó, única pessoa capaz de ajudá-la a lidar com seus acessos de raiva. Nesse primeiro momento, o roteiro de Jesse Andrews cumpre sua função ao estabelecer uma base sólida para a protagonista; no entanto, a partir daí, o enredo se dispersa, e o que nos é apresentado torna a personagem cada vez menos interessante.
Ao longo da obra, a narrativa não consolida Mabel como uma ativista ambiental, nem mesmo como uma jovem movida por ideais e princípios que justifiquem sua luta pela causa animal. Pelo contrário: a falta de aprofundamento faz com que ela pareça apenas uma garota contrária à construção da estrada porque a floresta era o cenário das lembranças que compartilhava com a avó. (Não que esse seja um motivo insignificante, porém não é sólido o suficiente para travar uma briga com o prefeito da cidade, não é mesmo?)
Para agravar a situação, essa vontade é demonstrada de forma infantilizada, sem a elaboração de estratégias eficientes para impedir o principal conflito da história. Dessa forma, Mabel acaba se apresentando como uma menina mimada e egoísta. Sua sorte é integrar um núcleo composto pelos animais, já que a relação estabelecida com eles, principalmente com o Rei dos Mamíferos, diminui essa impressão e suaviza a forma como a personagem é percebida.
Essa superficialidade também se repete em diversos outros pontos da narrativa. O principal vilão da animação é o prefeito da cidade, um homem determinado a garantir sua reeleição. A premissa até comporta um personagem mais simples, mas o que se vê em cena é uma construção genérica. Faltam camadas, seja aumentando traços como ambição e oportunismo, seja escolhendo uma abordagem mais humanizada, que torne a figura mais interessante. Isso faria diferença principalmente na reviravolta final, oferecendo ao espectador elementos que sustentassem e tornassem acreditável a transformação apresentada.
A própria invenção que possibilita toda a aventura central do filme acontecer é tratada de maneira apressada, em um diálogo rápido. Considerando que é esse recurso que conecta humanos e animais e sustenta toda a base da história, seria fundamental que estivesse melhor desenvolvido.
Questões importantes não são respondidas ao longo da animação: qual é a real motivação da cientista para criar tal experimento? Quais seriam as consequências caso a troca de consciência entre humanos e animais ultrapassasse o tempo limite? No fim, a sensação que fica é de que nada carrega peso ou gera impactos significativos dentro do universo do filme.
“Cara de um, Focinho do Outro” foi divulgado como uma obra imprevisível e insana, especialmente por incorporar elementos científicos, como a troca de consciência entre humanos e animais. No entanto, mesmo uma narrativa absurda precisa se sustentar em uma história envolvente. Não basta apostar em cenas exageradas, como um tubarão sendo carregado por pássaros, se não há um desenvolvimento consistente por trás delas. É importante construir um enredo sólido, com motivações claras e conflitos bem estruturados, capazes de dar sentido a toda essa insanidade.
A direção do longa é de Daniel Chong, que está estreando no estúdio após o grande sucesso da série animada aclamada pela crítica e pelo público “Ursos Sem Curso”, do Cartoon Network. O que parece é que Chong trouxe sua incrível criatividade, marcada por humor sutil e situações caóticas envolvendo personagens animais (características que sempre foram sua assinatura em “Ursos Sem Curso”), mas aqui essa inventividade não encontra um roteiro consistente, o que compromete o resultado final.
O lado “maluquinho” e engraçado do longa pode até ser atraente em alguns momentos, mas uma produção da Pixar não deveria se apoiar apenas nisso. O filme reúne animais carismáticos, um design visual caprichado e abordagens superficiais em temas como ficção científica, debate ambiental e referências à biologia real. Ainda assim, esses elementos aparecem de forma rasa, sem o aprofundamento necessário para gerar o mínimo impacto. No fim das contas, a sensação é de que a promessa foi maior que a entrega. ■
