Segundo filme dirigido pela premiada atriz argentina Dolores Fonzi (“Paulina”), “Belén: Uma História de Injustiça” é o tipo de filme em que o título pode ser considerado autoexplicativo. Apesar disso, é importante dizer que existem algumas injustiças que estão além das palavras e dizem muito sobre a nossa sociedade. Já na primeira cena do longa, acompanhamos uma jovem que chega ao hospital acompanhada por sua mãe, com uma forte dor na barriga. Após voltar do banheiro com uma hemorragia e ser levada à emergência, a jovem é detida por policiais enquanto é operada e, em seguida, levada à prisão.
Toda a cena é absurda. Ao pensarmos em um cenário tão íntimo sendo invadido, ficamos confusos e atordoados; não conseguimos entender o que de fato está acontecendo, nem se a jovem sofreu ou não um aborto. A narrativa confusa é proposital e nos leva a um problema maior: uma lei que se preocupa com a vida, mas não com a da mãe, como se o corpo da mulher não pudesse escolher. E, neste caso, ainda há a dúvida se a mulher acusada é, de fato, a gestante.
A história retratada acima é o pontapé inicial do longa, mas não para por aí. Trata-se de um caso real ocorrido na Argentina em 2011, que foi responsável não apenas por inspirar a criação do filme, mas também por catapultar o movimento de manifestações que resultaram na mudança da lei que legaliza o aborto no país. Apesar da força narrativa, o filme parece se perder dentro das próprias falhas do processo; torna-se confuso e, às vezes, o roteiro dá a entender que existiu não só uma falha jurídica, mas um crime. No retrato narrativo, muitas vezes parece que outra mulher teria interrompido a gravidez e a culpa recaído sobre a personagem que passou a ser conhecida publicamente como Belén.
A personagem que nos guia pelas contradições e furos narrativos do caso é a advogada Soledad Deza (interpretada pela própria Dolores Fonzi), conhecida por selecionar casos que envolvam direitos das mulheres. Após descobrir o caso e tentar uma conversa com a defensora pública, ela, com seu time e a família de Belén, cria uma estratégia para conseguir recorrer da condenação.
Para além desse papel, Soledad cria um contraponto importante no longa: o de mostrar não só os malabarismos jurídicos para ter acesso ao processo, mas também como sua vida familiar acaba sendo impactada pelo caso. Desde sua ausência na vida dos filhos até a perda parcial de sua liberdade — por meio de ameaças à sua vida e à de seus filhos —, o roteiro deixa explícito que o problema é muito maior do que um caso isolado.
Outro ponto interessante que o filme aborda são as ausências. Quando nos vemos diante de um julgamento em que apenas a mulher é culpabilizada pelo fim da gravidez, fiz-me a pergunta: onde está o homem, o pai? Essa ausência não é questionada no filme; é quase naturalizada, o que deixa um recado ainda mais claro: se não formos nós, ninguém lutará pela nossa liberdade, pela soberania de nossos corpos. A aceitação que se faz presente na ausência da outra parte expõe, de certa forma, papéis ainda desequilibrados no conceito do que seria uma real construção de família.
Apesar de vários pontos interessantes, a sensação é de que o desenvolvimento poderia ser mais fluido. O longa torna-se arrastado em alguns momentos e perde-se no excesso de detalhes. Apesar disso, “Belén: Uma História de Injustiça” ainda é uma obra importante social e historicamente para o Direito das Mulheres e para a história da Argentina. As atuações também são boas, principalmente a de Dolores Fonzi, que sustenta uma advogada séria e humaniza as mulheres que defende com muita dignidade. ■
Onde ver "Belén: Uma História de Injustiça" no streaming:


