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“Maldição da Múmia”: Horror desgastado

"Maldição da Múmia" (The Mummy, 2026), de Lee Cronin - Foto Warner Bros.

“O Exorcista” (1973), clássico do cinema de horror, começa com o personagem-título em meio a escavações arqueológicas no Iraque, prenunciando a origem mesopotâmica do demônio antagonista do filme. Em “Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio” (1981), os acontecimentos macabros se iniciam quando os personagens acham um livro sumério maligno. “Hellraiser – Renascido do Inferno” (1987), por sua vez, começa com o tio da protagonista comprando a perigosa Configuração dos Lamentos de um vendedor no Marrocos. Ou seja, não é recente a tendência de associar perigos sobrenaturais a territórios, pessoas e objetos do Oriente Médio. A depender do contexto, tal ligação é mais ou menos problemática. Em “O Exorcista”, ela é tão sutil que acaba sendo colocada em segundo plano à medida que a situação vai escalando. “Hellraiser”, por outro lado, reforça a associação ao trazer de volta o mercador marroquino no final, ressaltando a continuidade de um certo ciclo perigoso conduzido pelo personagem árabe.

Mas, seja qual for o contexto, é possível uma generalização nada elogiosa a partir desses e de outros filmes: “O Mal vem de fora, principalmente dos países do nordeste da África e noroeste da Ásia, e está à espreita para atacar as pobres pessoas estadunidenses incautas”, parecem dizer. E esse talvez seja, precisamente, o conceito por trás de “Maldição da Múmia”, novo filme do diretor Lee Cronin (de “A Morte do Demônio: A Ascensão”), inspirado nos longas do Estúdio Universal lançados nos anos 1930 e 40. O filme começa no Cairo, Egito, onde uma família estadunidense está morando há cinco meses. O pai, Charlie (Jack Reynor), é jornalista e correspondente de uma televisão americana no país, e a mãe, Larissa (Laia Costa), é enfermeira. Seus filhos, Katie (Emily Mitchell e Natalie Grace) e Sebastián (Shylo Molina), passam os dias no quarto, brigando entre si ou no jardim da casa. Justamente em um desses dias em que Katie está brincando do lado de fora, uma mulher aparece lhe oferecendo doces, e depois lhe entrega uma maçã; da fruta sai um inseto que entra rapidamente na boca da menina, fazendo-a desmaiar. E assim, a sequestradora egípcia leva Katie, em meio a uma tempestade de areia.

Oito anos se passam e a família agora mora no Novo México, Estados Unidos, com uma outra filha da mesma idade de Katie na época do rapto – Maud (Billie Roy) – na casa da mãe hispânica de Larissa, Carmen (Verónica Falcón). Um certo dia, Charlie – que perseguiu a raptora mas não conseguiu alcançá-la no dia do desaparecimento de Katie – recebe um telefonema dizendo que a filha foi encontrada, viva, dentro de um sarcófago que caiu junto com um avião no interior do Egito. A família traz a filha de volta, mas ela está ferida, com muitas marcas pelo corpo, catatônica e violenta. Uma série de eventos cada vez mais estranhos começa a acontecer, e o pai, a mãe e os dois irmãos de Katie precisam lidar com atitudes mais e mais agressivas da irmã reintegrada à família.

Do ponto de vista técnico, “Maldição da Múmia” tem algumas escolhas interessantes: o diretor Lee Cronin segue sendo um entusiasta das lentes split diopter – que criam uma ilusória profundidade de campo com elementos que estão a distâncias diferentes da câmera –, usando-as diversas vezes para reunir vítimas e algozes no mesmo plano, como na cena inicial, quando a bruxa (creditada como “Magician”) é enquadrada junto à sua família no carro, ou na cena em que os pais de Katie vão ao hospital para vê-la após a filha ser reencontrada, e Charlie é enquadrado no mesmo plano que ela; dignos de nota também são os movimentos de câmera inventivos, que transformam cenas que poderiam ser protocolares em momentos visualmente mais impactantes – na cena que apresenta Charlie, por exemplo, começamos a vê-lo pelo dedo, e então a câmera faz um giro de quase 360° para depois se afastar e mostrar o personagem em plano aberto ensinando Código Morse à filha; já em um das primeiras cenas na casa no Novo México, a câmera se torna um instrumento ativo da narração ao passear pelo quarto da filha desaparecida do casal, deixando clara a ausência de Katie.

Narrativamente, o filme também tem soluções inteligentes para avançar a trama: enquanto Charlie empreende uma investigação particular pra tentar descobrir de onde vêm os escritos presentes nas faixas que saíram da perna da filha recém-encontrada (após uma cena angustiante envolvendo o corte das unhas da menina), a investigadora egípcia Zaki (May Calamawy) busca por respostas sobre o mesmo caso, que já havia lhe desafiado anos antes. Os processos eventualmente se cruzam, e o roteiro (também de Lee Cronin) cria cenas engenhosas para os personagens, como quando Charlie descobre um nome envolvido no sequestro de Katie ao perceber que a filha está falando em Código Morse com as batidas dos dentes – algo que me lembrou a personagem-título de “O Bebê de Rosemary” (1968) descobrindo a conspiração de bruxas por meio da permutação das letras de uma frase cifrada. E o mais interessante é que Lee Cronin sabe trabalhar com a expectativa do público; antes mesmo de Charlie descobrir o que Katie está querendo dizer, o espectador já entendeu que a menina está tentando se comunicar, e o diretor distende a cena ao máximo para amplificar o suspense em torno de quando o pai entenderá a mensagem.

Todas essas virtudes, porém, não conseguem sustentar com solidez um filme de mais de duas horas que parece prolixo e determinado a chocar a qualquer custo, ainda que para isso tenha que pender para uma imitação pouco inspirada dos filmes da franquia “Evil Dead”, ou para uma variação do recente “Faça Ela Voltar”, principalmente a partir de um certo ponto. Há também acenos para o já citado “O Exorcista”, que até funcionam – sobretudo pela coragem de dar ao demônio que possui Katie um caráter profano semelhante ao de Pazuzu. No entanto, ironicamente, tudo no filme parece velho e gasto. Falta por exemplo a coragem que um filme como “A Hora do Mal” (produzido pelo mesmo estúdio, a Warner Brothers) tem, de criar uma bruxa (e portanto um perigo) que vem do subúrbio estadunidense, do próprio núcleo familiar. O roteiro e a direção acertam ao dar protagonismo a uma investigadora mulher, egípcia e falante de árabe, que soluciona o mistério e salva a família. Porém, ao reaparecer depois da passagem de tempo, a personagem está sem o hijab, o que levanta dúvidas sobre uma intenção do filme de “ocidentalizar” a investigadora, tornando-a palatável ao público estadunidense médio.

O filme também sofre com um elenco aparentemente muito desinteressado, transitando entre o apático (caso de Laia Costa) e o caricato (Verónica Falcón), mas raramente agindo e reagindo a contento dos acontecimentos cada vez mais extremos. A exceção vem quando Jack Reynor, igualmente inexpressivo, representa o estado de choque de seu personagem após ver o ritual feito com a filha.

“Maldição da Múmia” é um filme altamente irregular, que ressuscita diversos conceitos e imagens já desgastadas, e falha ao tentar dar-lhes uma nova roupagem. Aqui, a ameaça assume a forma de uma bruxa egípcia que coloca um demônio antigo no corpo de uma criança estadunidense, destruindo cada vez mais a família. O impacto vem (supostamente) de cenas escatológicas e crescentemente absurdas envolvendo sangue, ferimentos e mutilações. No meio disso, há boas ideias, como a de fazer um filme de múmia em que o visual clássico é subvertido, em um jogo eficaz de manipulação das expectativas do espectador. Mas, o que transparece ao final é um longa-metragem perdido, que aposta na quantidade para tentar impressionar um público que está cada vez mais dessensibilizado. Infelizmente, no caso desta “Maldição da Múmia”, o horror já está bastante desgastado, e tudo que vemos parece tão velho quanto um sarcófago empoeirado.

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