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“Algo Horrível Vai Acontecer” ou o sufocamento social das mulheres em um casamento

"Algo Horrível Vai Acontecer" (Something Very Bad Is Going to Happen, 2026) - Foto: Netflix/Divulgação

Foto: Netflix/Divulgação

Recém-lançada pela Netflix, a minissérie de terror “Algo Horrível Vai Acontecer” tem os criadores de “Stranger Things”, Matt e Ross Duffer, como produtores executivos. Além do peso desses créditos, um grande mérito da produção é a crítica social que ela propõe. A principal delas aborda uma questão que pode ser vista como uma grande âncora do patriarcado na vida das mulheres: o casamento.

A premissa da série é relativamente simples: acompanhamos a viagem de Nick (Adam DiMarco) e Rachel (Camila Morrone), que estão noivos e decidem se casar na casa dos pais de Nick. Já nas primeiras cenas, percebemos que a morte fará parte dessa jornada, com uma breve cochilada de Rachel ao volante que quase causa um acidente. O que torna a cena interessante é que ainda não sabemos que ela está acompanhada no carro; é nesse momento que Nick surge e, a pedido de Rachel, eles começam a conversar para que ela não sinta sono. O tema escolhido é o caso de um criminoso da região que teve sua história contada em um podcast.

A partir dessa cena, inicia-se a construção dos personagens e de uma atmosfera de tensão. O som e a fotografia contribuem para que o título seja justificado em cada quadro: não sabemos exatamente como, mas existe a certeza de que, sim, “Algo Horrível Vai Acontecer”. Com oito episódios de duração média de 45 minutos, a série pode parecer arrastada no início, mas, à medida que os eventos se desenrolam, entendemos que o ritmo se justifica e é necessário para as reviravoltas do roteiro.

(Atenção! Spoilers a partir deste ponto.)

"Algo Horrível Vai Acontecer" (Something Very Bad Is Going to Happen, 2026) - Foto: Netflix/Divulgação
Foto: Netflix/Divulgação

As coisas começam a ficar estranhas quando, no caminho para a casa de Nick, o casal se depara com um bebê trancado sozinho em um carro. Eles se separam: Rachel busca ajuda em um bar próximo e Nick tenta abrir o veículo. São cenas sutis que falam sobre algo mais profundo, como a ideia da maternidade compulsória. Nessa busca, Rachel se depara com uma raposa morta no vaso do banheiro, com filhotes presos a ela, e conhece um homem sem nome que lhe faz uma pergunta simples: “Tem certeza de que ele é o homem certo?”

O horror causado em Rachel nos perturba e nos faz pensar em explicações mais óbvias, como a presença de um psicopata, mas somos surpreendidos pelo roteiro de Haley Z. Boston (que já havia escrito para a Netflix a minissérie “Vingança Sabor Cereja”). Ao voltar para o local onde Nick estava, ela o encontra machucado — a família do bebê havia saído apenas para caminhar porque a mulher estava enjoada. Eles, então, partem para o destino final. Ao chegarem à casa da família de Nick, Rachel conhece os irmãos Portia (Gus Birney), Jules (Jeff Wilbusch) e sua esposa Nell (Karla Crome). O interessante é que o clima sinistro que sentimos parece ser criado mais pela percepção de Rachel do que pela realidade imediata; afinal, conhecer a família de quem se ama pode ser, no mínimo, assustador. A pressão de querer ser aceita por si só já renderia um filme de terror, e somos confrontados com esses elementos o tempo inteiro.

Nesse momento, Portia conta a lenda do “Homem do Choro”, uma experiência que Jules teve na infância. Até aqui, pensamos tratar-se de uma série de terror tradicional, com monstros ou forças sobrenaturais. A reviravolta ocorre quando descobrimos que Rachel é, na verdade, assombrada por uma maldição familiar: se você não se casar com sua alma gêmea, sofre uma hemorragia fatal. O “Homem do Choro” é, na realidade, seu pai, que estava realizando seu parto enquanto Jules estava escondido debaixo da cama. Esse crescimento do roteiro para algo não óbvio é o maior mérito da série, aliado às boas atuações de todo o elenco, especialmente da protagonista, que possui um carisma instantâneo.

Outro destaque é o casal Nell e Jules, os personagens mais queridos depois de Rachel. Com uma dinâmica pouco convencional e uma sinceridade avassaladora, eles mostram que é possível existir um amor verdadeiro, mesmo que imperfeito. Talvez isso seja, no fim, o que significa encontrar uma “alma gêmea”.

"Algo Horrível Vai Acontecer" (Something Very Bad Is Going to Happen, 2026) - Foto: Netflix/Divulgação
Foto: Netflix/Divulgação

Quando pensamos na concepção da mulher na sociedade, a série ganha ainda mais camadas. O matrimônio é vendido como o grande sonho, o objetivo final e sagrado, algo incutido como objeto de desejo desde a infância. Embora possuam diferenças, é possível traçar um paralelo narrativo com o filme de 2019, “Casamento Sangrento”, no qual uma noiva descobre que precisará ser morta em um ritual caso tire a carta de “esconde-esconde”. O paralelo reside no final sangrento das duas obras, mostrando que a busca pela perfeição prometida pelo amor romântico muitas vezes tem a anulação (ou a morte) como saída. O único casal que sai ileso da matança é justamente aquele visto como “estranho” e imperfeito.

“Algo Horrível Vai Acontecer” utiliza muito bem o terror como ferramenta emocional. Há uma riqueza de detalhes deixados como pequenos spoilers narrativos que ficam aparentes ao revisitarmos a obra. Perdemos a surpresa, mas ganhamos na percepção da camada de crítica social.

Desde cedo, somos expostos a contos de fadas onde princesas buscam príncipes encantados para o “felizes para sempre”. A série faz uma inversão desse desejo de liberdade. A pressão de que sua vida depende do seu parceiro ser ou não sua alma gêmea cria uma sensação de sufocamento. A ideia de que, em relações heterossexuais, as mulheres muitas vezes acabam perdendo, torna a crítica ainda mais forte. Em um mundo onde o feminicídio é uma realidade crescente, talvez casar seja realmente um dos maiores filmes de terror, e ser abandonada no altar seja, quem sabe, o verdadeiro final feliz. ■

Nota:
"Algo Horrível Vai Acontecer" (Something Very Bad Is Going to Happen, 2026) - Foto: Netflix/Divulgação
Foto: Netflix/Divulgação
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