Existe idade para sonhar? A pergunta parece simples, mas atravessa cada plano de “Dolores”, longa dirigido por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes a partir de um projeto concebido por Chico Teixeira, cineasta falecido em 2019. Encerrando a chamada “trilogia do afeto”, iniciada por “Casa de Alice” (2007) e continuada por “Ausência” (2014), o filme acompanha três mulheres de gerações diferentes que insistem em imaginar futuros possíveis mesmo quando a realidade parece conspirar contra elas.
Dolores (Carla Ribas) está prestes a completar 65 anos quando tem uma premonição: será dona de um cassino de sucesso. O detalhe é que seu passado inclui o vício em jogos. Sua filha Deborah (Naruna Costa) espera a libertação do companheiro preso para recomeçar a vida. Já a neta Duda (Ariane Aparecida) deposita suas esperanças na possibilidade de trabalhar nos Estados Unidos. Três mulheres, três gerações e três sonhos distintos, mas unidos pela mesma vontade de escapar dos limites impostos pela vida.
Não por acaso, o filme começa como um sonho. Antes mesmo que a narrativa se organize, somos lançados a uma atmosfera construída por projeções, flares, luzes coloridas e sombras difusas. É a visualização da premonição de Dolores, mas também uma declaração de princípios estéticos. Desde seus primeiros minutos, “Dolores” sugere que o mundo concreto e o mundo imaginado coexistem sem fronteiras rígidas.
A escolha da primeira música ouvida no filme reforça essa ideia. A voz de Odair José canta: “Felicidade não existe; o que existe na vida são momentos felizes”. A frase funciona quase como chave de leitura para a trajetória das personagens. O sonho, aqui, não surge como promessa de realização permanente, mas como força capaz de sustentar a existência em meio às dificuldades cotidianas.

Maria Clara Escobar (de “Desterro” e “Os Dias com Ele”) e Marcelo Gomes (de “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”) traduzem essa perspectiva em imagens de grande rigor formal. Embora o filme seja frequentemente atravessado por elementos oníricos, seus enquadramentos são marcados por uma precisão geométrica notável. Simetrias, linhas retas e composições cuidadosamente organizadas criam uma sensação de ordem que contrasta com a natureza incerta dos desejos das protagonistas.
Esse conflito entre fantasia e realidade aparece também na fotografia de Joana Luz. Dolores, Deborah e Duda surgem repetidamente enquadradas por luzes artificiais, reflexos e áreas desfocadas da imagem. Muitas vezes parecem envolvidas por halos luminosos ou observadas através de filtros que transformam a paisagem urbana da periferia em algo próximo de uma projeção mental. Não se trata de negar a dureza daquele universo, mas de revelar como aquelas mulheres enxergam possibilidades onde outros veriam apenas limitações.
Há sempre algum obstáculo entre elas e seus objetivos. Às vezes a barreira é concreta. O portão do presídio que separa Deborah do reencontro com o companheiro talvez seja a imagem mais evidente desse mecanismo. Em outros momentos, porém, os impedimentos são invisíveis: traumas, inseguranças, ressentimentos familiares ou simplesmente as restrições impostas por uma condição econômica que reduz horizontes.

É justamente nesse ponto que o filme encontra sua dimensão mais interessante. Embora o roteiro trabalhe com o desejo de ascensão financeira — seja pelo cassino imaginado por Dolores, pelo recomeço amoroso de Deborah ou pela chance de emigrar de Duda —, o que está em jogo não é apenas dinheiro. O sonho representa uma forma de liberdade. Sonhar se torna um gesto político, sobretudo para personagens femininas que passaram boa parte da vida ouvindo quais deveriam ser seus limites.
Nessa perspectiva, o afeto presente em “Dolores” não é romântico nem idealizado. É um afeto atravessado por frustrações, ciúmes, ressentimentos e desencontros. A relação entre mãe, filha e neta é marcada tanto pela proximidade quanto pela dificuldade de comunicação. Elas se amam, mas nem sempre conseguem expressar esse amor da melhor maneira.
Ao mesmo tempo, o filme valoriza algo frequentemente negligenciado pelo cinema: as redes de solidariedade construídas entre mulheres. Conversas aparentemente banais, pequenos gestos de cuidado e trocas cotidianas formam uma espécie de conhecimento coletivo que atravessa gerações. São relações que ajudam a sustentar não apenas a sobrevivência material, mas também a emocional.
As atuações contribuem decisivamente para que essa construção funcione. Carla Ribas oferece uma interpretação de enorme complexidade, equilibrando fragilidade, obstinação e um humor discreto que impede Dolores de se tornar apenas uma figura trágica. Naruna Costa e Ariane Aparecida encontram tonalidades próprias para suas personagens, compondo um trio que justifica o prêmio coletivo recebido pelas atrizes no Panorama Coisa de Cinema. E há ainda Zezé Motta, em breve, mas luminosa presença, e Gilda Nomacce, que interpreta com delicadeza uma amiga da família, em mais uma demonstração de sua versatilidade.

Talvez o aspecto mais fascinante de “Dolores” seja sua recusa em separar completamente imaginação e realidade. A cena em que Dolores perde dinheiro e, sobretudo, os momentos finais do filme habitam uma zona ambígua. O espectador é levado a se perguntar se aquilo aconteceu de fato ou se permanece no campo da fantasia. Mas talvez essa distinção nem seja tão importante.
Porque, no fundo, “Dolores” parece interessado menos em responder se os sonhos se realizam do que em compreender por que continuamos sonhando. Num mundo que frequentemente exige resignação, imaginar uma vida diferente já constitui uma forma de resistência. E é justamente nessa resistência silenciosa, construída dia após dia por mulheres que insistem em apostar no futuro, que o filme encontra sua beleza mais duradoura. ■