O Itaú Cultural inaugurou nesta semana a exposição “Ocupação Helena Ignez”, dedicada à trajetória de uma das figuras mais transgressoras e marcantes das artes cênicas e do audiovisual brasileiro. Primeira cineasta mulher a ser homenageada pelo projeto Ocupação, a artista de 87 anos tem sua obra celebrada em uma mostra em cartaz em São Paulo até 18 de outubro, acompanhada por uma programação especial de filmes, resgates históricos e atividades virtuais.
Ao fugir do modelo cronológico e biográfico tradicional, a exposição constrói sua narrativa em primeira pessoa. Guiada pela voz e pelo corpo da própria Helena em ação, a linha curatorial adota o conceito de “antimusa” para colocar os refletores sobre sua vitalidade artística, engajamento político e constante reinvenção ao longo de quase sete décadas de carreira.
A concepção, realização e curadoria são assinadas pelo Itaú Cultural, com consultoria da atriz Djin Sganzerla e projeto expográfico de Renata Mota. André Furtado, gerente de Criação e Plataformas da instituição, ressalta a relevância da homenageada para a cultura nacional:
Helena atravessa a história do cinema e do teatro modernos no Brasil, passando pelos períodos centrais do Cinema Novo, da Belair e da experimentação radical. Ela é uma pessoa em constante reinvenção e, aos 87 anos, segue nessa trilha, firme e altamente criativa.
Do Cinema Marginal ao resgate histórico
A experiência do visitante começa com uma imersão marcada por áudio conduzido pela própria artista e projeções com trechos de suas atuações. O percurso destaca obras fundamentais, com espaço de relevo para “A Mulher de Todos” (1969), exibido em cópia restaurada. No longa, ela dá vida à marcante Ângela Carne e Osso, personagem que subverteu papéis de gênero em pleno período ditatorial.
O núcleo focado na produtora Belair (fundada em 1970 ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane) reúne materiais dos seis longas-metragens realizados em um curto intervalo de meses antes de o grupo ser forçado ao exílio pela repressão. O público pode conferir arquivos de produções como “Carnaval na Lama”, “Copacabana Mon Amour” e “Sem Essa, Aranha”, além de registros das obras de Bressane, como “Cuidado Madame” e “A Família do Barulho”.
A mostra também impulsionou ações de preservação audiovisual em parceria com a Cinemateca Brasileira, incluindo a captura fotográfica digital de películas históricas como “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), “O Padre e a Moça” (1966) e “A Grande Feira” (1961). O projeto possibilitou ainda a digitalização de “O Grito da Terra” (1964), drama sertanejo dirigido por Olney São Paulo que marca o período pré-Cinema Novo, e a finalização de “América Do Sol” (2000-2026), de Léo Duarte, no qual Helena retoma a personagem Sônia Silk de “Copacabana Mon Amour”.

Rogério Sganzerla (1970) – Foto: Acervo Cinemateca Brasileira
Palcos, direção e trabalhos inéditos
Apesar da forte identificação com o cinema, a exposição faz questão de resgatar a ampla atuação de Helena no teatro, iniciada em 1956 na Escola de Teatro da UFBA. A seção reúne fotos, programas, documentos de processo de trabalho e críticas da época, incluindo análises assinadas por Nelson Rodrigues. No circuito recente, a atriz integrou a montagem paulistana do clássico “Fim de Partida”, de Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella e elenco formado por Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França — espetáculo que segue em turnê para Fortaleza neste mês.
A trajetória da artista por trás das câmeras ganha sala dedicada com cadernos de processo e bastidores de obras dirigidas por ela, como “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha” (2010), o documentário “Fakir” (2019) e o longa-metragem “A Alegria é a Prova dos Nove” (2023). A exposição contempla ainda sua atuação no longa “Nosferatu” (2025).
Como parte da Ocupação, está em fase de finalização o curta-metragem inédito “Des-Criação”, dirigido por Helena Ignez e André Guerreiro Lopes em parceria com a plataforma Itaú Cultural Play. O projeto assume linguagem híbrida entre videoarte e cinema de invenção para explorar reflexões da diretora sobre arte, tempo e vida.

Programação paralela e acesso gratuito
A celebração se expande para além do espaço físico do Itaú Cultural. A plataforma de streaming gratuita Itaú Cultural Play disponibiliza uma mostra paralela composta por 22 títulos estrelados ou dirigidos por Helena.
Em setembro, o Cine Glauber Rocha, em Salvador, recebe uma seleção de exibições presenciais de curtas e longas-metragens, mostra que também será realizada em São Paulo no mês de outubro. No mesmo período, o teatro da instituição paulistana apresenta uma remontagem da peça “Savannah Bay”, texto de Marguerite Duras dirigido por André Guerreiro Lopes e encenado por Helena.
Conteúdos complementares, incluindo publicação digital e artigos sobre o acervo da exposição, estão disponíveis no site oficial do evento.
Confira também: Entrevista com Helena Ignez na 21ª Mostra de Tiradentes