Robin Hood já foi quase tudo no cinema. Foi o “príncipe dos ladrões” de Kevin Costner em 1991, o aventureiro defensor dos fracos e oprimidos de Errol Flynn em 1938, o arqueiro justiceiro de Russell Crowe em 2010 e até uma raposa na animação da Disney em 1973. Em “A Morte de Robin Hood” (2026), o diretor Michael Sarnoski (de “Pig: A Vingança” e “Um Lugar Silencioso: Dia Um”) olha para esse personagem conhecido e pergunta o que sobra dele quando retiramos a lenda.
A resposta não é exatamente confortável. Interpretado por Hugh Jackman, Robin é apresentado como um “bandoleiro sanguinário”, alguém cuja fama heroica não corresponde àquilo que realmente foi. A narração em off já nos avisa que as lendas mentem. E o título pode ser compreendido para além do sentido literal: não se trata apenas da morte de Robin Hood, mas também da morte da imagem que nós temos de Robin Hood como herói.
É uma proposta que dialoga com o recente filão de versões sombrias de personagens conhecidos da cultura popular, do Ursinho Pooh a Bambi, passando por Peter Pan e Popeye. Mas Sarnoski está interessado em outra coisa. “A Morte de Robin Hood” não é um terror trash de exploração dessas figuras. É uma produção de grife, com o acabamento da A24, como se um filme desse tipo tivesse sido entregue a Robert Eggers. A diferença está menos na violência do que na maneira como ela é incorporada ao drama.
O ponto de partida do diretor e roteirista foi uma balada medieval sobre a morte de Robin Hood. Na versão tradicional, o herói é traído e morto por uma prioresa cruel. Sarnoski inverte os papéis: Robin é o algoz, enquanto a Irmã Brigid (Jodie Comer) se torna sua possibilidade de salvação. A mudança é fundamental porque desloca o foco da aventura para a consciência de um homem diante do fim.

Depois de uma abertura brutal, em que vemos o Robin violento e impiedoso ao lado do fiel escudeiro (e igualmente feroz) Pequeno João (Bill Skarsgård), o filme muda de registro. Ferido e à beira da morte, ele é acolhido em um priorado isolado. A violência extrema em meio a folhas, rochas e lama dá lugar ao calor da intimidade. É como se o próprio filme precisasse despir o personagem de sua armadura de pele repuxada para descobrir o homem que existe por baixo dela.
E então surge a pergunta que realmente interessa: como consertar uma alma quebrada? Como curar feridas que não estão no corpo? Talvez não seja possível. O máximo que Robin pode fazer é tentar impedir que outras pessoas sejam quebradas pela mesma violência que o constituiu. É nesse esforço que entram Arthur (Noah Jupe), um adolescente movido pela vingança, e a pequena Margaret (Faith Delaney), uma menina traumatizada cuja presença o obriga a encarar as consequências de seus atos.
O que Sarnoski propõe, portanto, não é exatamente uma redenção. É a tentativa de interromper um ciclo. Robin não pode desfazer o passado, mas talvez consiga evitar que ele continue se reproduzindo. O destino, no filme, também funciona dessa maneira tortuosa: pessoas que se encontram por causa da violência podem, eventualmente, encontrar nela um caminho para outra coisa.

Hugh Jackman entende muito bem esse território. Depois de “Logan”, talvez seu corpo já carregue uma memória cinematográfica de heróis envelhecidos, feridos e cansados da própria violência. Mas aqui não existe sequer a possibilidade de recuperar o heroísmo. Bem diferente do Wolverine em seu ato final, o ator interpreta agora um homem que precisa aceitar que a lenda não corresponde à pessoa que foi. Sua atuação não depende tanto dos grandes gestos, mas busca naquele homem de corpo castigado o olhar de alguém que já não consegue fugir de si mesmo.
A materialidade do filme reforça essa ideia. Rodado inteiramente em película, em locações reais na Irlanda do Norte, “A Morte de Robin Hood” evita o visual excessivamente limpo do digital. A violência também foi construída artesanalmente, com próteses e efeitos práticos, quase sem CGI. A aspereza que Sarnoski procura na representação do século 13 está, portanto, tanto na narrativa quanto na própria superfície das imagens.
Ao desmontar a figura do herói, o diretor não destrói Robin Hood. Faz algo mais interessante: permite que ele morra como lenda para existir, talvez pela primeira vez, como homem. E um homem pode ser muito mais contraditório, violento, culpado e vulnerável do que qualquer mito. ■
