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“Virtuosas”: terror feminista sobre fundamentalismo e controle

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação

Ambientado em um exclusivo retiro VIP voltado para mulheres cristãs, “Virtuosas” transforma um ambiente de busca espiritual em um pesadelo sufocante. O primeiro longa-metragem de ficção da diretora catarinense Cíntia Domit Bittar explora o choque entre discursos conservadores rígidos e a eclosão de uma obscura lenda sobre feitiçaria. Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes em parceria com a Filmes do Estação, o longa acaba de chegar às salas de cinema após uma trajetória destacada por festivais nacionais e internacionais.

A narrativa acompanha Virgínia Heinzel, interpretada por Bruna Linzmeyer, uma influenciadora e coach que prega os valores tradicionais da chamada “mulher virtuosa” para o público feminino conservador. Acompanhada por Germina (Maria Galant), Lorena (Juliana Lourenção), Bárbara (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques), o grupo inicia um encontro focado no aprimoramento pessoal e espiritual. No entanto, a busca inicial por harmonia é rapidamente substituída por uma crescente atmosfera de paranoia, tensão e escolhas extremas. O elenco conta ainda com participação especial de Gabriel Godoy, além de atuações de Nenê Borges e Fernando Bispo.

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação
“Virtuosas” (2025), de Cíntia Domit Bittar – Foto: Divulgação

O absurdo derivado da realidade

Diferente de produções que apostam no terror sobrenatural clássico calcado em assombrações ou entidades demoníacas, “Virtuosas” ancora seus elementos aterrorizantes em fenômenos sociológicos do mundo real. O roteiro é fruto de uma extensa pesquisa sobre discursos fundamentalistas, negacionistas e movimentos de resgate de papéis tradicionais de gênero na classe média brasileira.

A diretora Cíntia Domit Bittar enfatiza que o ponto de partida do projeto nasceu de um incômodo direto com os retrocessos sociais contemporâneos:

O desejo de trabalhar o terror nesse contexto temático nasceu de um misto de fascínio e medo genuíno que sinto, como mulher feminista, do retrocesso, do negacionismo e do fundamentalismo religioso. Não há intenção de exagerar ou ridicularizar nenhuma situação e é importante dizer que boa parte do que pode soar como exagero no filme não é invenção nem distorção, e sim vem de uma pesquisa extensa em contextos reais, com falas quase reproduzidas do que foi observado.

O filme constrói sua narrativa em um ritmo slow burn, combinando suspense psicológico, humor ácido e uma constante sensação de desconforto. Ao desconstruir os tropos tradicionais do cinema de gênero — como a figura da vítima indefesa ou da “final girl” virtuosa —, a produção opta por expor personagens femininas moralmente ambíguas e complexas.

Para a cineasta, o medo mais profundo reside nas ações humanas:

Eu acredito na complexidade do terror há muitos anos. É um gênero muito amplo e ótimo para abordar diversos tópicos do debate contemporâneo, ainda mais para mim, uma ateia cujo medo reside não em fantasmas e demônios, mas nas maldades mais terrenas que as pessoas são capazes de cometer. Uma forma interessante de acordar o terror sob o olhar feminista é criar personagens mulheres complexas, que vão até o ápice de suas maldades porque são demasiadamente e monstruosamente humanas.

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação
“Virtuosas” (2025), de Cíntia Domit Bittar – Foto: Divulgação

Do Provérbios 31 às “Trad Wives”

O eixo central da trama debate o conceito de “mulher virtuosa”, amplamente difundido em contextos religiosos e reinterpretado recentemente no meio digital pelo movimento conhecido como “Trad Wives” (esposas tradicionais).

A atriz Bruna Linzmeyer analisa como o discurso do controle comportamental é abordado na ficção:

Eu acho que a ideia de mulher virtuosa, muito conhecida no exterior como ‘Trad Wives’, as mulheres tradicionais, é uma leitura, uma interpretação que elas fazem do Provérbios 31, que condiz, na visão delas, com uma mulher subserviente ao marido, à família. E tudo bem, mas o problema é quando esse lado é visto como a única possibilidade de ser mulher.

A atriz Juliana Lourenção ressalta que a produção busca provocar o público ao expor as contradições éticas sob a superfície do discurso moral:

O filme vai provocar um debate muito necessário, porque não interessa se você é uma mulher virtuosa, o que a produção faz questão de abordar é sobre a índole dessas personagens.

A produtora Ana Paula Mendes, da Novelo Filmes, destaca a oportunidade de levar essa temática contemporânea ao grande público:

Acredito que ‘Virtuosas’ vai surpreender por apresentar um tema fresco, ainda pouco explorado na cinematografia nacional, mas muito presente e forte na vida de milhares de pessoas, que é o movimento de mulheres cristãs conservadoras de classe média, muitas inclusive já imbricadas na política institucional do país. Este é um excelente momento para colocarmos o filme na rua.

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação
“Virtuosas” (2025), de Cíntia Domit Bittar – Foto: Divulgação

A força do terror dirigido por mulheres

O lançamento de “Virtuosas” se insere na consolidação do cinema de gênero feito por diretoras no Brasil. Historicamente visto com reservas no cenário audiovisual do país, o terror tem se afirmado como uma linguagem potente para analisar tensões sociais complexas sem as amarras do realismo estrito.

Cíntia Domit Bittar defende o potencial crítico do fantástico:

O cinema de gênero no Brasil está longe de ser uma novidade, mas preciso concordar que, sim, ainda há preconceito por esse gênero, que muitas vezes é tido como um ‘cinema menor’ dentro do meio. O terror é um território muito rico e há diversas maneiras de evocar o medo e o estranho, sendo possível abordar temas contemporâneos da sociedade e apontar críticas contundentes. O terror permite que a gente aborde questões sociais com uma liberdade que o drama realista às vezes não alcança.

Ao retirar a figura feminina dos papéis passivos de posse ou punição, a cineasta defende que a contradição moral também é um exercício de humanização do olhar feminista:

É interessante e desafiador ampliar o conceito do olhar feminista para o cinema a partir do terror, já que o lugar comum disso é a mulher que sobrevive, a mulher que é possuída, a mulher que dá a luz ao demônio, a que vence o mal e por aí vai. Acredito que uma forma de contribuir é criar mulheres ambíguas, por vezes sem qualquer escrúpulo, porque são demasiadamente e monstruosamente humanas. Isso também é fortalecer mulheres no cinema, pois trazer a complexidade e a contradição é trazer humanidade.

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação
“Virtuosas” (2025), de Cíntia Domit Bittar – Foto: Divulgação

Das telas de Cannes ao streaming global

Antes da estreia comercial nos cinemas, “Virtuosas” percorreu uma relevante trajetória de mercado e premiações. O projeto foi selecionado para o programa Goes to Cannes no Marché du Film do Festival de Cannes de 2025, figurando entre as cinco produções brasileiras apresentadas no evento via edital do Ministério da Cultura.

No circuito nacional, o longa celebrou sua estreia na Première Brasil do 27º Festival do Rio e foi exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, onde venceu o 3º Prêmio Netflix. Como resultado do reconhecimento na Mostra paulistana, a produção será lançada globalmente na plataforma de streaming para mais de 190 países, dublada e legendada, após o encerramento da janela de exibição nos cinemas.

"Virtuosas" (2025), de Cíntia Domit Bittar - Foto: Divulgação
“Virtuosas” (2025), de Cíntia Domit Bittar – Foto: Divulgação

Um marco para o cinema de Santa Catarina

Gravado integralmente em Florianópolis, o filme utiliza paisagens marcantes da capital catarinense, com locações no Canto da Lagoa, na Estrada do Rio Vermelho, na Rua Tenente Silveira e tomadas aéreas da Avenida Beira-Mar Norte e da Ponte Hercílio Luz.

Em 2025, a produção estabeleceu um feito inédito ao se tornar o primeiro longa-metragem de ficção de Santa Catarina a integrar a mostra competitiva principal da Première Brasil no Festival do Rio. Em 2011, a produtora Novelo Filmes e Cíntia Domit Bittar também conquistaram esse pioneirismo para o estado, quando a diretora venceu o Troféu Redentor de Melhor Curta-Metragem no Festival do Rio com “Qual Queijo Você Quer?”.

Cineasta formada pela UNISUL, Cíntia acumula uma carreira destacada na realização e na política audiovisual, atuando como membra do Conselho Superior do Cinema e do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Entre seus trabalhos anteriores está o curta “Baile”, qualificado para o Oscar em 2021, e o telefilme “Um Dia Extraordinário”, exibido pela TV Globo. A realizadora conta ainda com outros três longas em fase de pós-produção: o documentário “Gugie” e as ficções de terror “Casarão” e “Recanto”.

 

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