Melhores amigos deixam rastros na vida um do outro, e não só na vida pessoal. Às vezes, os atores de um filme, série ou novela passam a ser melhores amigos de quem os assiste. As pessoas deixam marcas, deixam memórias e, de alguma forma, passam a fazer parte do nosso dia a dia. Talvez seja por isso que algumas amizades que vemos nas telas ultrapassam a ficção e parecem pertencer também a nós.
Em “Minha Melhor Amiga”, essa sensação ganha uma camada ainda mais forte e verdadeira. Júlia (Ingrid Guimarães) e Clara (Mônica Martelli) são duas grandes amigas que decidem viajar para a Europa para se divertirem e visitarem suas filhas, que estão fazendo intercâmbio em Portugal. Parece uma história simples, e é mesmo. No geral, o roteiro trata de duas mulheres buscando recomeço e diversão em uma viagem, e o que move a narrativa são as situações que acontecem ao longo do período em que estão fora de casa. Porém, são os pequenos detalhes que transformam uma história simples em um enredo de uma comédia cativante.
Júlia e Clara são duas mulheres com mais de 50 anos, e as roteiristas Patrícia Leme e Susana Garcia (Susana também é a diretora do longa e tem na bagagem produções como “Minha Vida em Marte” e “Minha Mãe é Uma Peça 3”) utilizam esse ponto de forma enriquecedora para a narrativa.
Uma produção sobre amigas viajando juntas é comum não só nas telas, mas também no cotidiano real. Porém, quando o tema ganha esse recorte de idade, não temos tantas histórias de exemplo. Então, já é algo positivo para o roteiro: o texto traz questões vividas por essas mulheres, como novas paixões, relacionamentos com familiares, sexualidade, menopausa, autoconhecimento e maternidade, entre tantas outras.

Mas o fio condutor do filme é, sem dúvidas, a amizade entre Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, tanto dentro quanto fora das telas. A química entre as duas, que são amigas há mais de 30 anos na vida real, ultrapassa as telonas, e tudo o que elas fazem transmite uma sensação de verdade. As interações das atrizes nos fazem acreditar que estamos vendo o dia a dia delas mesmas, sem que aquilo pareça ficção. O poder de convencimento de ambas em todas as cenas é o que faz desse simples roteiro um enredo que nos conduz pelo filme sem tédio ou questionamentos.
E essa química é a responsável por comprarmos a história apresentada e ficarmos ao lado das protagonistas desde o primeiro minuto. Por mais que tenham personalidades um pouco distintas, é fácil entender os dois lados, e a sinergia entre elas é tão alta que parecem ser uma só — inclusive em relação aos medos, às dificuldades, mas também à vontade de viver, aprender e se divertir.
A presença da amizade no filme não está apenas nas duas atrizes. Claramente, existe uma terceira pessoa ali durante todo o tempo: Paulo Gustavo.
É possível sentir o humor do ator, falecido em 2021, por todo o enredo. Além de um artista fantástico, Paulo Gustavo estabeleceu uma forma muito própria de levar o humor para as telas. E, por serem grandes amigas dele, Ingrid e Mônica também parecem refletir essa mágica que acontecia quando os três estavam juntos. Assim, o humor dele está presente nas falas, nos trejeitos das personagens e na própria atmosfera do filme. A aura da produção traz Paulo para perto, e isso é muito bonito. Inclusive, ele é homenageado em uma cena emocionante para quem conhece a trajetória do ator.
A direção de arte também é um destaque positivo que contribui para a beleza do filme, com suas cenas de cores vibrantes e figurinos elegantes. A fotografia é tão bela que prende a atenção, conduzindo os olhares a todos os cantos da tela em busca de mais detalhes. Claro, esse sucesso é influenciado pela beleza de Portugal e, em alguns momentos, da Espanha. As cidades que as amigas visitam são lindas, e todo o cenário desses países se torna também um personagem por meio de suas paisagens atrativas — desde os ambientes externos, como praias e parques, até as cenas gravadas em ambientes internos, como hotéis e farmácias luxuosas.

“Minha Melhor Amiga” é um filme agradável de assistir por diversos motivos. É atrativo para quem se interessa ou se identifica com os pontos importantes abordados a respeito de questões presentes nas vidas das mulheres, principalmente as 50+. Cativa quem gosta de comédias construídas sobre diálogos fluidos e piadas pontuais, além de atrair o público que se diverte ao ver uma dupla de protagonistas carismáticas.
O roteiro não tem nada de excepcional, mas é coerente e traz sacadas assertivas para a condução da narrativa. Por exemplo: optar por não dedicar muito tempo ao conflito final foi muito positivo para o enredo; afinal, se a melhor parte do longa é a química entre as amigas, deixá-las separadas por muito tempo não seria inteligente.
A principal qualidade da produção é lembrar que algumas amizades não precisam de grandes acontecimentos para serem importantes. Basta a presença, a intimidade e a certeza de que, independentemente do que aconteça pelo caminho, existe alguém ao seu lado para rir, chorar e seguir viagem para qualquer destino. ■