A meu ver, um filme bonito salta aos olhos desde o primeiro instante. E esse impacto inicial nem sempre vem de efeitos especiais, lutas bem coreografadas ou bombas arremessadas aos montes. Pelo contrário: acredito que, quanto mais o longa se apresenta em tela de maneira cotidiana, mais belo ele se torna. Afinal, o fantástico fascina, mas o cotidiano tem o dom de encantar.
“Feito Pipa” é uma delicada demonstração da beleza da intimidade. O filme acompanha a relação de Gugu (Yuri Gomes), uma criança queer, e sua avó Dilma (Teca Pereira), que lentamente sente o Alzheimer tomar conta de sua vida. Com medo de ter que morar com seu pai homofóbico, o garoto tenta esconder de todos o que está acontecendo com Dilma e busca lidar sozinho com a situação.
O filme não tem pressa; mostra-se aos poucos. Mas, ao mesmo tempo, a história transborda e preenche todo o espaço-tempo com momentos importantes — situações que parecem apenas cenas cotidianas, mas que trazem todo o fio condutor da narrativa.

A primeira sequência da produção já mostra todo o amor e a sensibilidade que cercam a história, fazendo com que a identificação com o protagonista seja imediata. O filme começa com Gugu se arrumando enquanto dança “A Noite Vai Chegar”, de Lady Zu.
Enquanto ouvimos “A noite vai chegar / Meu pensamento está tão longe / Eu sei que vou sonhar / Momentos de um mundo distante”, não vemos apenas as cores intensas do ambiente, o brilho das roupas ou o quarto iluminado: é possível sentir a vivacidade da cena, na qual o balanço do corpo da criança se mostra livre de qualquer amarra física ou emocional, ali naquele lugar seguro.
E quando o encontro dele com sua avó acontece pela primeira vez, a beleza da narrativa se apresenta de forma sensível e alegre, mostrando que o espaço seguro para ambos está ali, um na frente do outro.
As cenas de afeto, parceria, risos e liberdade entre a dupla são o alicerce de “Feito Pipa”, e, com uma base sólida assim, tudo ao redor se torna brilhante. Yuri e Teca trazem verdade e cumplicidade para a história. Todas as situações vividas por eles são únicas, mas, ao mesmo tempo, corriqueiras na relação de um neto e sua avó — o que não as torna menos potentes.
E a grande potência desse filme é a delicadeza da familiaridade. Os ambientes onde a história se passa — todos, sem exceção — transmitem proximidade, fruto do lindo trabalho de direção de arte assinado por Dayse Barreto. E isso se reflete também nos personagens da trama. Além da dupla protagonista, todos ao redor emitem verdade, desde nomes já consolidados no cinema nacional, como Carlos Francisco (no papel de Valmir), até os atores mirins, como os amigos de Gugu interpretados por Beatriz Carwile e Luan Vasconcelos.
Destaque também para Lázaro Ramos no papel do pai. Talvez por ser o rosto mais conhecido no imaginário do brasileiro acostumado a acompanhar novelas, o ator traz um tom de cotidiano ao filme, com um diálogo carregado de história (mesmo quando o que há por trás daquela fala não é dito) e também de afeto, apesar da dureza das palavras proferidas a Gugu. Conhecido por papéis cômicos e leves, Lázaro trouxe uma carga dramática densa, porém equilibrada, essencial em vários momentos da narrativa.

Apesar de ter como tema o Alzheimer — uma doença tão triste —, “Feito Pipa” é belo, muito belo. As memórias antigas que Dona Dilma compartilha, as emoções que transbordam em seu olhar ao lembrar de situações já vividas com sua família… tudo isso é de uma vulnerabilidade quase poética.
Poesia essa que conta com a ajuda da trilha sonora para ser construída. Artistas como Cyndi Lauper e Ademar Dutra, mesmo com seus contrastes, são essenciais para trazer essa melancolia de tempos passados e a importância de compartilhar momentos inesquecíveis que, apesar de sumirem do consciente, se fazem presentes na alma.
O diretor Allan Deberton foi brilhante ao escolher “Time After Time” como música principal de “Feito Pipa”. A analogia entre a letra, a doença de Dilma e a vida de Gugu — que agora precisa ser vivida dia após dia, com o perigo iminente de o cinza se tornar a cor do esquecimento que o assombra — é de uma exatidão e emoção extremas.
“Feito Pipa” é música, arte, dança. É amor, cumplicidade, abraço e amizade. É medo, tristeza e mágoa. É tudo aquilo que toca o coração e nos emociona. É a proximidade com o cotidiano, com a simplicidade dos fatos que nos dilaceram, mas que também nos fazem sentir vivos. ■